Pensamento complexo e crítica da simplificação em Needham, Morin e Guerreiro Ramos
- Sérgio Luís Boeira
- 4 de jun.
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Atualizado: 4 de jun.
Introdução: três projetos, um mesmo horizonte
Joseph Needham, Edgar Morin e Alberto Guerreiro Ramos partem de tradições, disciplinas e contextos históricos distintos — um bioquímico britânico que se tornou historiador da ciência chinesa, um filósofo e sociólogo francês que reconstruiu a epistemologia a partir da cibernética e da biologia, e um cientista social brasileiro que elaborou uma metacrítica das ciências sociais a partir da periferia epistêmica. No entanto, ao confrontar os três corpora — os 27 volumes de Science and Civilisation in China (SCC, a partir de 1954), os seis volumes d'O Método (1977–2004) e algumas obras de Guerreiro Ramos – A redução sociológica (1958), o ensaio A modernização em nova perspectiva: em busca do modelo da possibilidade (1967, republicado em 2009) e seu último livro A nova ciência das organizações (1981, com edição mais recente em 2022) — emerge uma homologia estrutural profunda: os três recusam a fragmentação disciplinar como condição do conhecimento rigoroso e propõem que a conexão entre saberes, culturas, tempos históricos e dimensões da realidade é o próprio solo do pensamento científico.

Há um fato biográfico que ancora essa convergência: Morin e Guerreiro Ramos eram amigos desde os anos de 1950 [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"]. Compartilhavam a crítica ao fechamento disciplinar e eram simultaneamente defensores da ciência e críticos de suas ambivalências — posição que Boeira caracterizou como um referencial "simultaneamente crítico, sistêmico e complexo" [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"]. Esse dado biográfico não é apenas anedótico: ela sinaliza que a convergência entre os dois pensadores não é construção posterior, mas reconhecimento mútuo de afinidade paradigmática.
Este mapa tem quatro movimentos. O primeiro identifica o adversário epistemológico comum aos três: o paradigma da simplificação, que Morin também denominou de Grande Paradigma do Ocidente (GPO) — disjuntor e redutor. O segundo demonstra como os princípios de Morin encontram exemplificação empírica na historiografia de Needham e fundamentação prático-metodológica em Guerreiro Ramos. O terceiro articula as contribuições singulares de cada autor, mostrando como elas se complementam sem se fundir. O quarto aponta as tensões produtivas que o encontro dos três projetos revela.
I. O paradigma da simplificação como obstáculo comum
1.1 O reducionismo na mira de Needham
A premissa fundante de Science and Civilisation in China é epistemológica antes de ser histórica. Ao recusar a tese de que a ciência seria um produto exclusivo da Europa moderna, Needham ataca diretamente o que Morin chamará de paradigma da simplificação — aquele que fragmenta, isola, reduz e opera por disjunção.
Para Needham, o positivismo e o eurocentrismo na historiografia da ciência eram as expressões institucionais desse paradigma. Ele os identificou como "inerentemente reducionistas" — operando pela exclusão das contribuições não-europeias, pela separação entre ciência e sociedade, e pela imposição de uma linearidade temporal que transformava a diversidade dos saberes em hierarquia civilizacional [Grinter, Cosmos and History, 2018]. Sua resposta foi metodológica: construir uma história da ciência que fosse simultaneamente história social, cultural, filosófica, religiosa e tecnológica — recusando a autonomia artificial de cada uma dessas dimensões.
1.2 O Grande Paradigma do Ocidente e a crítica de Morin
Morin nomeia e tematiza o mesmo adversário epistemológico com precisão filosófica. O Grande Paradigma do Ocidente (GPO) pode ser sintetizado, segundo Boeira, como "uma separação (disjunção, tensão) entre sujeito e objeto, filosofia e ciência, que se prolonga em diversos aspectos, como polaridades e tensões entre conceitos soberanos como alma × corpo, espírito × matéria, qualidade × quantidade, finalidade × causalidade, sentimento × razão, liberdade × determinismo, existência × essência" [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico", citando Morin, 1991, p. 194].
Em O Método I (1977) e em Introdução ao Pensamento Complexo (1990), Morin descreve o paradigma da simplificação como o conjunto de operações cognitivas que disjuntem (separam o que está conectado), reduzem (explicam o todo pela soma das partes) e abstraem (eliminam o contexto, o tempo, o sujeito). A consequência é a "inteligência cega" — aquela que resolve os problemas que ela mesma criou ao mutilar a realidade. Na contraposição crítica a esse paradigma dominante emerge o que Morin denomina de pensamento complexo ou paradigma da complexidade: uma abordagem que articula e distingue o que foi separado, promovendo o diálogo entre ciências naturais e sociais, filosofia, humanidades, artes e senso comum [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"].
A convergência com Needham é estrutural: Needham desmonta o paradigma pela via empírica — mostrando, volume a volume, que a ciência sempre foi múltipla, contextual e interconectada. Morin o desmonta pela via teórica — demonstrando que a própria lógica da simplificação é epistemologicamente insuficiente para capturar a realidade dos sistemas complexos.
1.3 O reducionismo na mira de Guerreiro Ramos — quatro fases, um fio condutor
A obra de Guerreiro Ramos pode ser lida como um longo combate ao mesmo paradigma, desenvolvido em quatro fases que Boeira identifica com precisão: (1) 1937–1939: fase religiosa, personalista e culturalista; (2) 1943–1952: fase de sociologia do conhecimento, trabalho e indústria; (3) 1953–1966: fase da redução sociológica, administração e desenvolvimento; (4) 1967–1982: fase da teoria P, da paraeconomia e da ecopolítica [Boeira, 2023, seção "Trajetória intelectual de Guerreiro Ramos"].
Já na primeira fase, o jovem Guerreiro Ramos criticava o humanismo antropocêntrico moderno — aquele que "fundou o absolutismo do visível" e que se contrapõe ao mundo medieval "como o TER ao SER" [Boeira, 2023, seção "4.1. Interpretação da Trajetória Intelectual de Guerreiro Ramos"]. Distinguia o homo-agens — criador, movido por vocação — do homo-faber — produto de sociedades decadentes onde a cultura se torna técnica e conformismo. Essa distinção precoce já aponta para o que será, décadas depois, a distinção entre razão substantiva e razão instrumental.
Na segunda fase, ao estudar a sociologia industrial e a difusão do taylorismo, Guerreiro Ramos documentava como o transplante acrítico do industrialismo impunha "custos humanos e sociais elevadíssimos" às culturas não industrializadas [Boeira, 2023, seção "4.1. Interpretação da Trajetória Intelectual de Guerreiro Ramos"] — uma versão avant la lettre do que ele chamará de sociomorfismo: a colonização da vida pelo mercado.
Na terceira fase, A redução sociológica (1958) formaliza o instrumento epistemológico: o processo de depuração crítica que separa o que é historicamente situado do que tem validade transcontextual. O problema não é que o saber venha do exterior — é que seja transplantado sem crítica.
Na quarta fase — a mais madura e diretamente relevante para o mapa — Guerreiro Ramos formaliza a distinção entre modelo da necessidade (teoria N) e modelo da possibilidade (teoria P), no artigo "A modernização em nova perspectiva: em busca do modelo da possibilidade" (1967, republicado em 2009). A abertura do texto já situa o problema epistemológico com precisão: a literatura existente sobre modernização pode ser disposta num continuum, cujos polos são a teoria N e a teoria P [Guerreiro Ramos, 1967, p. 8]. Essa distinção é o núcleo epistemológico de toda a sua crítica ao desenvolvimentismo e ao paradigma da simplificação nas ciências sociais.
A teoria N está fundada num determinismo histórico: "O pressuposto principal da Teoria N, no que tange à modernização, é que existe uma lei de necessidade histórica que compele toda sociedade a procurar alcançar o estágio em que se encontram as chamadas sociedades desenvolvidas ou modernizadas" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 9]. Daí derivam as dicotomias "nações desenvolvidas versus nações em desenvolvimento", "sociedades paradigmas versus sociedades seguidoras" — e, no limite, a ideia de que todo atraso resulta da ausência de determinados "pré-requisitos da modernização", mais ou menos identificados com o estágio atual da Europa Ocidental ou dos Estados Unidos. A teoria N pergunta: o que o sistema precisa para funcionar? Sua lógica é descritivo-prescritiva dentro dos limites do paradigma existente. Opera inteiramente dentro do GPO: reduz o desenvolvimento humano a variáveis de crescimento econômico, produtividade e modernização institucional.
A teoria P parte de duas premissas radicalmente distintas: "1) pressupõe que a 'modernidade' não está localizada em qualquer lugar do mundo precisamente; que o processo de modernização não se deve orientar segundo qualquer arquétipo platônico; e, 2) sustenta que toda nação, qualquer que seja sua configuração presente, terá sempre possibilidades próprias de modernização, cuja efetivação pode ser perturbada pela sobreposição de um modelo normativo rígido, alheio àquelas possibilidades" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 9]. A teoria P não pergunta o que o sistema precisa, mas quais são as possibilidades humanas que uma boa organização social deveria cultivar — orientada pela razão substantiva, pelo florescimento humano (eudaimonia)[i] e pela delimitação dos sistemas (mais precisamente, pela delimitação do sistema social “economia” pelos sistemas sociais fenonomia e isonomia).
Guerreiro Ramos articula com rigor o fundamento filosófico dessa distinção: "Determinismo e liberdade não são antípodas [...] Determinismo ou liberdade é um falso dilema. No processo histórico e social há sempre determinismo e liberdade" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 12]. Isso equivale a dizer, em termos morinianos, que a dialógica determinismo/liberdade é irredutível — nenhum dos polos pode ser suprimido sem mutilar a realidade. O modelo da necessidade comete esse erro: ao eliminar o polo da liberdade, converte o determinismo em fatalismo e a ciência social em tautologia post mortem. Daí a afirmação de Bachelard, que Guerreiro Ramos cita para fundar epistemologicamente a teoria P: "Il n'y a science que du caché" [Bachelard, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 16] — há ciência apenas do que está oculto sob o manto dos fatos consumados.
A genealogia filosófica da teoria P é cuidadosamente documentada no ensaio. Guerreiro Ramos identifica como precursores: (i) Charles Renouvier (professor de Durkheim, influência sobre William James), que formulou a crítica das teorias de "evolução necessária" (Hegel, Comte, Spencer) e denunciou o que chamou de "ilusão do fato consumado" — a crença de que o ocorrido era o único que poderia ter acontecido, quando na verdade é apenas uma entre muitas possibilidades objetivas [Renouvier, Uchronie, 1857, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 14]; (ii) Max Weber, para quem "a História reconhece as possibilidades, uma vez que pretenda ser ciência", cunhando a expressão possibilidade objetiva — possibilidades reais cuja existência pode ser demonstrada "segundo regras empíricas gerais" [Weber, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 15]; (iii) Karl Mannheim, que propôs o enfoque in statu nascendi — o oposto da atitude alienada implicada no critério post mortem — pelo qual o observador, ao participar do processo de mudança, pode tomar "decisões estratégicas" a partir das possibilidades emergentes [Mannheim, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 17]; (iv) Ernst Bloch (The Principle of Hope), para quem a possibilidade é "objetivamente real" (Das Objektive Real Möglich) e parcialmente condicionada, sendo o papel do fator subjetivo indissociável do objetivo: "O fator subjetivo é o poder não realizado de mudar as coisas; o fator objetivo é a potencialidade não realizada da variabilidade do mundo no quadro de suas leis [...] Os dois fatores encontram-se permanentemente interligados no movimento dialético de uma ação recíproca" [Bloch, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 19]; (v) Georges Gurvitch, que distingue determinismo de fatalismo e propõe as "regularidades tendenciais" — orientações com direções mais ou menos precisas, porém incertas quanto à sua realização, abrindo o horizonte a múltiplos futuros possíveis [Gurvitch, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 19–20]; (vi) Hirschman e Gerschenkron, que demonstraram empiricamente a falácia dos pré-requisitos: "sempre que se enunciou qualquer teoria que considerava determinado sistema de valores um pré-requisito do desenvolvimento, geralmente pôde ser contestada eficazmente com base em fatos empíricos" [Hirschman, apud Guerreiro Ramos, 1967, p. 11].
O próprio Guerreiro Ramos situa a teoria P no contexto da filosofia da ciência kuhniana: "A Teoria P que está emergindo em nossos dias pode ser olhada como um aspecto do paradigma científico, tal como definido por Kuhn", operando numa fase de transição em que "coexistem e sobrepõem-se parcialmente paradigmas contraditórios de pensamento científico" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 23]. Essa articulação com Kuhn é fundamental: Guerreiro Ramos não está apenas criticando teorias do desenvolvimento — está operando no nível dos paradigmas, exatamente como Morin fará de modo mais sistemático nas décadas seguintes.
A síntese da distinção é apresentada pelo próprio Guerreiro Ramos em sete pares de proposições polares [Guerreiro Ramos, 1967, p. 23–25]:
Tabela 1 – Síntese comparativa entre teoria N e teoria P
Teoria N | Teoria P |
O que aconteceu foi a única e exclusiva coisa que poderia ter acontecido | O que aconteceu está entre as muitas possibilidades objetivas que poderiam ter ocorrido |
O curso dos acontecimentos resulta da ação recíproca de causas absolutamente necessárias; a mente onisciente poderia prever com certeza absoluta o que vai acontecer | O curso dos acontecimentos resulta continuamente do jogo de fatores objetivos e opções humanas; o incrementalismo é a orientação dominante |
As possibilidades são apenas epistêmicas (resultado da ignorância do curso necessário) | As possibilidades podem ser reais e demonstradas empiricamente; relacionam-se necessariamente com situações concretas |
Existe um processo normal e unilinear de evolução; um único caminho ao futuro | A História apresenta sempre um horizonte aberto a múltiplas possibilidades; eventos inesperados podem surgir a qualquer momento |
A tarefa da ciência social é mostrar qual possibilidade necessariamente ocorrerá e estabelecer seus pré-requisitos | A tarefa da ciência social é descobrir o horizonte de possibilidades para contribuir para a participação humana na feitura da História |
É pernicioso ao cientista social ser protagonista; ele deve ser espectador afastado | Sem ser protagonista no processo social não se pode ser integralmente um cientista social |
Na História contemporânea deve-se distinguir entre sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento (paradigmas vs. seguidoras) | A dicotomia desenvolvidas/em desenvolvimento é equivocante; todas as sociedades estão em desenvolvimento; indicadores de modernização só têm sentido ad hoc, postos em relação com as possibilidades de cada sociedade |
Essa distinção é diretamente epistemológica: a teoria N opera dentro do paradigma da simplificação; a teoria P exige o paradigma da complexidade. A teoria da delimitação dos sistemas sociais e o paradigma paraeconômico — desenvolvidos n'A nova ciência das organizações (1981) — são a resposta institucional à segunda pergunta: como organizar a vida social de modo que os diferentes enclaves — econômico (mercado), isonômico (autogestão e participação), fenonômico (criação individual/grupal e artesanal), comunitário (convivência) e isolado — possam coexistir sem que um colonize os outros?
Ao propor que o mercado é apenas um dos enclaves possíveis da vida social — não sua totalidade — Guerreiro Ramos não nega a racionalidade instrumental: delimita-a. Não há disjunção entre racionalidade funcional e razão substantiva, mas uma relação de contenção: a segunda define os limites legítimos da primeira sem suprimi-la. Isso é, em termos morinianos, o princípio dialógico aplicado à teoria social.
II. Os princípios de Morin: base empírica em Needham, base metodológica em Guerreiro Ramos
2.1 O princípio dialógico
O princípio dialógico de Morin — que "associa dois termos ao mesmo tempo complementares e antagônicos" mantendo a tensão sem resolvê-la em síntese — encontra nos outros dois autores exemplificações em escalas distintas.
Em Needham, a dialógica entre Oriente e Ocidente percorre todos os 27 volumes do SCC. Sua questão central — por que a ciência moderna emergiu na Europa e não na China, que estava à frente por séculos? — não é respondida com a superioridade de um dos lados, mas com a compreensão de que ciência orgânica chinesa e ciência mecânica ocidental são complementares e antagônicas ao mesmo tempo: ambas contribuíram para o corpus global do conhecimento. Os chineses poderiam ter "avançado para a física de campos sem passar pela fase da física de bolas de bilhar" [Grinter, 2018, p. 309, citando Needham] — sugerindo que o modo orgânico de pensar a natureza não é inferior ao mecanicismo, mas alternativo e potencialmente mais fecundo em determinados domínios. A dialógica aparece também internamente: a tensão entre Taoísmo (motor da observação empírica) e Confucionismo (contentor do impulso investigativo) nunca se resolve em síntese, mas gera contradições produtivas.
Em Guerreiro Ramos, o dialógico opera em dois níveis. No nível filosófico, está na própria fundação epistemológica da teoria P: "Determinismo e liberdade não são antípodas [...] Determinismo ou liberdade é um falso dilema. No processo histórico e social há sempre determinismo e liberdade" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 12]. A teoria N comete exatamente o erro antidialógico: ao absolutizar o determinismo, suprime um dos polos e converte a tensão irredutível em monologismo. No nível institucional, o dialógico aparece na estrutura do paradigma paraeconômico: economia e isonomia não são opostos a serem superados — são enclaves que coexistem em tensão, cada um com sua racionalidade própria (especialmente quando a fenonomia aparece em situações mistas com a isonomia). A simplificação consiste em reduzir o todo ao mercado; a complexidade consiste em reconhecer a pluralidade dos enclaves e suas tensões irresolvíveis. O modelo da possibilidade não recusa a modernidade, mas recusa sua versão unilateral e reducionista.
2.2 O princípio hologramático
O princípio hologramático afirma que "a parte está no todo, e o todo está na parte". Em Needham, cada volume de SCC contém a totalidade da cosmovisão chinesa. Não é possível compreender a medicina chinesa (vol. 6) sem a cosmologia do qi e do li, que fundamenta também a astronomia (vol. 3) e a física (vol. 4). A epistemologia relacional chinesa é ela mesma hologramática: como nota Jana Rošker, "a mente humana é estruturada em conformidade com esse sistema orgânico abrangente" [Stanford Encyclopedia of Philosophy — Chinese Epistemology]. O objeto tecnológico — um relógio de escapamento d'água, uma bússola, um arado de aiveca — é sempre um holograma do sistema civilizacional.
Em Guerreiro Ramos, o hologramático se manifesta na relação entre os enclaves e a totalidade social: cada enclave contém, em sua forma particular de racionalidade, a tensão que estrutura o todo. Compreender a fenonomia — o espaço da criação individual/grupal — é compreender, em miniatura, o problema central da modernidade: a subsunção de todas as formas de vida pela racionalidade do mercado. A distinção teoria N / teoria P é ela mesma hologramática: cada caso particular de política de desenvolvimento contém, em miniatura, a opção paradigmática entre uma visão reducionista e uma visão complexa da vida social.
2.3 O princípio recursivo
O princípio de recursão afirma que os produtos de um processo retroagem sobre os seus produtores — causas e efeitos se entrelaçam em loops onde o produto é também produtor. Em Needham, as invenções chinesas (pólvora, imprensa, bússola) migraram para a Europa e produziram transformações sociais que criaram as condições para a Revolução Científica europeia — que retroagiu sobre a China através do imperialismo científico dos séculos XIX e XX. "Os rios da ciência oriental e ocidental fluem para o oceano da ciência moderna" — mas esse oceano transforma os rios que o alimentam.
Em Guerreiro Ramos, a recursividade aparece com particular agudeza na relação entre teoria N e teoria P: as abordagens desenvolvimentistas que reduzem o desenvolvimento a crescimento econômico produzem instituições e práticas que reforçam a centralidade do mercado, o que por sua vez legitima retroativamente a teoria N como única perspectiva possível. A modernização segundo o modelo da necessidade gera dependência cultural e econômica, que por sua vez reforça a aplicação do mesmo modelo. Romper esse loop recursivo é o que a teoria P propõe: introduzir outros enclaves que retroajam sobre a teoria, ampliando o campo do que é considerado realidade social e desenvolvimento humano.
2.4 O princípio sistêmico-organizacional
O princípio sistêmico afirma que "o todo é simultaneamente maior e menor que a soma das partes" — emergências surgem da organização que não estavam nas partes. Em Needham, o conceito de li (princípio estrutural) e de qi (energia vital) organizam sistemas onde as emergências são o ponto central. "A cooperação harmoniosa de todos os seres não derivava de ordens de uma autoridade superior, mas do fato de que todos eram partes de uma hierarquia de todos formando um padrão cósmico — e o que obedeciam eram os ditames internos de suas próprias naturezas" [Grinter, 2018, p. 314, citando Needham].
Em Guerreiro Ramos, o sistêmico aparece no paradigma paraeconômico como um todo: a riqueza das nações — para recuperar e subverter o título smithiano — não é redutível ao PIB nem a qualquer variável isolada. Ela emerge da pluralidade articulada dos enclaves, cada um contribuindo com formas de valor irredutíveis entre si: a isonomia produz bens relacionais; a fenonomia produz criatividade e sentido; a comunidade produz solidariedade. Esses valores são emergências sistêmicas que o paradigma reducionista simplesmente não vê. O artigo de 1967 já sinalizava esse argumento: a modernização que ignora as dimensões não-econômicas da vida social não produz desenvolvimento — produz empobrecimento de outras dimensões.
2.5 O princípio da reintrodução do sujeito cognoscente
Morin insiste que "não existe ponto de vista de lugar nenhum" — todo conhecimento é produzido por um observador situado histórica, cultural e biologicamente. Em Needham, esse princípio se encarna na trajetória biográfica: foi sua experiência direta na China (1942–1946), seu encontro com Lu Gwei-Djen, e sua posição política marxista que tornaram possível o projeto do SCC. O sujeito situado não é contaminação — é condição de possibilidade. E o projeto transformou o próprio Needham: ele não era sinólogo quando começou — tornou-se um à medida que a China o atravessava.
Em Guerreiro Ramos, a reintrodução do sujeito tem dimensão ainda mais explícita: é o lócus de enunciação periférico — o intelectual negro, baiano, que ascendeu socialmente e pensou a modernidade de dentro de sua margem — que permite ver o que os centros não veem. A redução sociológica é, nesse sentido, um método que transforma o lócus periférico de desvantagem em vantagem epistêmica, sem absolutizá-lo. O referencial teórico-epistemológico que Boeira desenvolve a partir de Guerreiro Ramos e Morin parte exatamente dessa posição: um referencial crítico, sistêmico e complexo que não é neutro, mas situado — e que, precisamente por isso, pode aspirar a maior rigor [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"].
III. Três dispositivos transdisciplinares
Cada um dos três autores propõe um dispositivo central que funciona como motor da transdisciplinaridade:
A questão de Needham — por que a ciência moderna emergiu na Europa e não na China? — é em si mesma transdisciplinar: exige história da ciência, economia política, filosofia, sociologia e sinologia em diálogo permanente. Nenhuma disciplina isolada responde. É o modelo do que Morin chama de problema complexo: aquele que "não pode ser colocado ou pensado claramente dentro de uma única disciplina" (O Método VI).
A reforma do pensamento de Morin — articulada em Os Sete Saberes (1999) e A Cabeça Bem-Feita (1999) — não é uma reforma curricular, mas paradigmática: mudar o modo de organizar o conhecimento antes de mudar os conteúdos. Boeira a sintetiza no quadro comparativo entre os três paradigmas (positivista, fenomenológico e da complexidade), mostrando como o terceiro exige "focalizar fatos e significados, mostrar as ambiguidades e paradoxos", "associar sem fundir, distinguir sem separar a parte e o seu contexto", e compreender o método "como caminho estratégico, que pensa a si mesmo, em constante incerteza e busca de superação de erros e racionalizações" [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"].
A distinção teoria N / teoria P de Guerreiro Ramos — articulada no artigo de 1967 e desenvolvida n'A nova ciência das organizações — é o dispositivo que traduz a reforma epistemológica para o terreno das políticas de desenvolvimento e das organizações. A teoria N pergunta: o que o sistema precisa? A teoria P pergunta: o que o ser humano pode ser? A primeira fecha; a segunda abre. A primeira é compatível com o GPO; a segunda exige o paradigma da complexidade.
O dispositivo da teoria P opera por meio de uma epistemologia do oculto: "Toda explicação ou interpretação que se baseie unicamente nos aspectos mais evidentes dos fatos não merece o nome de ciência. Il n'y a science que du caché, disse Gaston Bachelard" [Guerreiro Ramos, 1967, p. 16]. O cientista social deve possuir uma "imaginação treinada e disciplinada que o capacite a enxergar a multiplicidade de caminhos dos fatos consumados" — um requisito que equivale, em termos morinianos, à reintrodução do sujeito cognoscente como condicionante do método científico. O paradigma paraeconômico é a resposta institucional à segunda pergunta.
Tabela 2 – Contribuições singulares e homologia estrutural entre Needham, Morin e Guerreiro Ramos
| Needham | Morin | Guerreiro Ramos |
Registro | Historiografia empírica | Teoria epistemológica | Teoria social e organizacional |
Escala | Civilizacional/histórica | Paradigmática/filosófica | Institucional/prático-política |
Dispositivo central | A questão de Needham | Reforma do pensamento / princípios da complexidade | Teoria N×P / paradigma paraeconômico |
O que recusa | Eurocentrismo e autonomia da ciência | Grande Paradigma do Ocidente (disjunção, redução) | Transplante acrítico, teoria N, subsunção da vida pelo mercado |
Como recusa | Demonstrando a pluralidade histórica dos saberes | Propondo princípios que reconectam o que foi separado | Redução sociológica e delimitação dos sistemas sociais |
Contribuição singular | Base empírica: a ciência sempre foi múltipla e contextual | Teoria: nomeia e articula os princípios da complexidade | Metaciência: método aplicável à periferia epistêmica |
Lócus de enunciação | Norte Global pensando a partir da China | Norte Global repensando a si mesmo | Periferia epistêmica pensando a partir de dentro |
Limite reconhecido | Teleologia progressista residual | Distância do sul epistêmico | Tensão entre universalismo da razão substantiva e singularidade cultural |
O que Guerreiro Ramos acrescenta ao par Needham-Morin é exatamente o que faltava: uma arquitetura epistêmica produzida a partir da periferia que não é apenas crítica do centro, mas proposta de superação da lógica que gerou a periferia. Enquanto Needham desmonta o eurocentrismo pelo inventário histórico e Morin o desmonta pela teoria, Guerreiro Ramos o desmonta pela prática metodológica — pelo exercício concreto de uma ciência social que se sabe situada e, precisamente por isso, pode aspirar a uma validade mais ampla.
IV. Tensões produtivas
5.1 O progressismo residual em Needham
Apesar de sua crítica ao eurocentrismo, Needham permaneceu comprometido com uma narrativa progressista: os rios da ciência oriental e ocidental fluem para o "oceano da ciência moderna" como ponto de chegada. Essa teleologia é problemática à luz do pensamento complexo de Morin — que rejeita linearidades e fins predeterminados — e da teoria P de Guerreiro Ramos, que recusa a identificação entre modernização e progresso humano. Os outros dois autores podem radicalizar e corrigir esse limite de Needham.
5.2 Por que Quijano e Mignolo não são suficientes — e como Guerreiro Ramos os complementa
Esta seção parte de uma hipótese forte, ainda que formulada em caráter exploratório: a de que a obra de Alberto Guerreiro Ramos oferece elementos capazes de complementar e tensionar a crítica decolonial formulada por Aníbal Quijano e Walter Mignolo, especialmente quando o foco recai sobre o caso brasileiro e sobre a relação entre periferia, Estado e produção de conhecimento. Textos como “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina” (Quijano, 2005) e Histórias locais/projetos globais (Mignolo, 2003/2008), bem como “Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política” (Mignolo, 2008), constituem referências centrais para compreender a colonialidade do poder e do saber como padrão global de dominação que articula raça, trabalho, conhecimento e subjetividade.
A hipótese aqui sustentada, porém, é que tais formulações não são suficientes, ao menos isoladamente, para pensar a especificidade da dependência intelectual e institucional no interior do Estado periférico brasileiro. Embora Quijano e Mignolo realizem um deslocamento decisivo em relação ao marxismo eurocêntrico e à teoria da modernização, sua crítica tende a privilegiar a geopolítica da colonialidade em escala global, dedicando menos atenção às formas pelas quais a subordinação epistêmica se reproduz no plano interno dos aparelhos estatais, das burocracias nacionais e das elites intelectuais periféricas. Nesse ponto, a reflexão de Guerreiro Ramos — em obras como A redução sociológica (1958), Introdução crítica à sociologia brasileira (1957), seus escritos sobre a “sociologia importada” e, mais tarde, A nova ciência das organizações (1981) — antecipa e aprofunda uma crítica à importação acrítica de categorias e modelos teóricos, insistindo na necessidade de uma ciência social situada, capaz de operar uma “redução sociológica” tanto do pensamento europeu quanto das elites nacionais que o reproduzem.
Mais do que afirmar que Guerreiro Ramos “vai além” de Quijano e Mignolo em termos absolutos, importa sustentar que ele introduz uma dimensão relativamente subexplorada pela literatura decolonial posterior: a da descolonização do próprio Estado periférico, de suas burocracias, de seus aparelhos de planejamento e de suas matrizes de racionalidade administrativa. Sua crítica não se limita à denúncia da exterioridade colonial do poder; ela alcança as mediações internas pelas quais a dependência se estabiliza como hábito intelectual, forma organizacional e estilo de ação estatal. Nesse sentido, a redução sociológica pode ser lida como operação crítica voltada não apenas contra o eurocentrismo abstrato, mas contra a reprodução local, burocrática e tecnocrática de categorias importadas.
Há, contudo, uma segunda hipótese, de natureza mais propriamente epistemológica. Em parte significativa de suas recepções, o par colonialidade/decolonialidade tende a operar por disjunção forte: de um lado, o saber hegemônico; de outro, o saber subalterno; de um lado, o paradigma eurocêntrico; de outro, a alternativa decolonial. A operação crítica consistiria, então, em inverter a hierarquia e deslocar a autoridade de um polo a outro. O problema dessa formulação é que, mesmo quando politicamente fecunda, ela pode conservar uma lógica redutora: o conflito não é propriamente elaborado em sua complexidade, mas reordenado pela substituição de um signo por outro.
É precisamente aqui que a aproximação com Edgar Morin se torna produtiva. Em termos morinianos, o que falta a essa forma de crítica é uma lógica capaz de manter tensões sem resolvê-las por supressão, isto é, uma lógica dialógica; capaz de reconhecer que saberes hegemônicos e saberes subalternos se coproduziram historicamente, isto é, uma lógica recursiva; e capaz de discernir o que pode haver de universalizável em tradições locais sem apagar sua singularidade. A simples inversão entre centro e periferia, hegemonia e subalternidade, não basta para uma crítica da modernidade eurocentrada se a matriz epistemológica continuar operando por exclusões rígidas.
Guerreiro Ramos atua, nesse aspecto, em outro registro. Sua crítica ao transplante acrítico não é apenas uma geopolítica do saber, mas uma epistemologia com consequências políticas. A distinção entre teoria N e teoria P constitui talvez o instrumento mais concreto dessa posição: ela não rejeita simplesmente as teorias do desenvolvimento produzidas no Norte; antes, procura situá-las, delimitar seu alcance histórico e abrir espaço para aquilo que elas não conseguem perceber. Trata-se menos de substituir um paradigma por outro do que de instaurar uma reflexão sobre os próprios paradigmas e sobre as condições de sua validade.
Não por acaso, Guerreiro Ramos enquadra explicitamente a teoria P em termos kuhnianos, como paradigma científico emergente, operando numa fase de transição em que coexistem matrizes contraditórias. Esse movimento é decisivo porque desloca a crítica do plano meramente doutrinário para o plano metaparadigmático. Em chave moriniana, isso significa operar no nível do paradigma, e não apenas no nível das teorias particulares. A redução sociológica, assim compreendida, não é apenas denúncia da dependência cultural, mas exercício de autocrítica epistemológica: um método de filtragem, reapropriação e reinscrição de conceitos no interior de uma experiência histórica periférica específica.
A insuficiência relativa de Quijano e Mignolo, portanto, não decorre de falta de radicalidade crítica, mas do fato de que sua crítica, em muitos momentos, permanece orientada por uma cartografia macrossociológica da colonialidade e por uma contraposição forte entre matrizes epistêmicas. Guerreiro Ramos complementa esse quadro porque introduz a análise das mediações internas do Estado periférico e porque propõe uma crítica menos disjuntiva e mais reflexiva da dependência intelectual. Sua contribuição permite articular com maior precisão a escala global da dominação, destacada por Quijano e Mignolo, e as formas específicas pelas quais essa dominação se reproduz no interior do pensamento social, da administração pública e da racionalidade organizacional brasileira.
Nessa perspectiva, uma leitura cruzada entre colonialidade do poder/saber e redução sociológica não implica hierarquizar autores de modo apriorístico, mas abrir um campo comparativo em que a tradição decolonial e o pensamento social brasileiro possam mutuamente se iluminar. O ganho analítico dessa aproximação está em permitir uma crítica simultaneamente geopolítica e interna, histórica e epistemológica, periférica e reflexiva. É nesse sentido preciso que se pode sustentar, como hipótese de trabalho, que Guerreiro Ramos não substitui Quijano e Mignolo, mas os complementa onde sua elaboração se mostra menos densa para pensar a complexidade do caso brasileiro.
5.3 A amizade intelectual como fato epistemológico
A amizade entre Morin e Guerreiro Ramos desde os anos de 1950 não é dado biográfico menor. Ela documenta que as convergências entre os dois projetos não são retroativas — eram reconhecidas pelos próprios autores. Boeira registra que os dois "compartilhavam muitas ideias" e que "eram também críticos de suas ambivalências, do fechamento disciplinar e favoráveis à articulação dialógica, inter e transdisciplinar entre ciências, filosofia e senso comum" [Boeira, 2023, seção "Referencial teórico-epistemológico"]. Isso significa que o mapa aqui construído não é uma projeção extemporânea — é a explicitação de uma convergência que os autores viveram, ainda que sem sistematizá-la nestes termos.
5.4 A razão substantiva e a condição poética como nó de convergência
O conceito de razão substantiva em Guerreiro Ramos — herdado de Karl Mannheim e radicalizado — é o nó que articula os três projetos. Ela é a faculdade que permite ao ser humano situar-se no cosmos e julgar os próprios fins à luz de valores éticos — não apenas adequar meios a fins.
Essa razão substantiva ressoa com o organicismo que Needham documenta na tradição chinesa — onde ética, cosmologia e ciência não estão separadas, e o conhecimento serve à harmonia e não apenas à dominação. Ressoa também com o que Morin denomina condição poética — distinta da condição prosaica —, em que o ser humano não se reduz a operador lógico ou produtor econômico, mas mantém a abertura ao mistério, à criação e à totalidade da experiência. Boeira observa que já no primeiro livro de Guerreiro Ramos (1939), a concepção de poesia — como "estado", como "conexão profunda com o universo" — "lembra a que Morin denomina condição poética" [Boeira, 2023, seção "A fase religiosa, personalista e culturalista"]. Essa convergência, que vai da fase juvenil de Guerreiro Ramos até a maturidade de Morin, é uma das mais surpreendentes do mapa.
5.5 A incompletude como condição do saber complexo
Needham trabalhou 50 anos em um projeto que nunca pôde completar — os volumes foram terminados por colaboradores após sua morte. Morin dedicou 27 anos aos seis volumes d'O Método sem pretender esgotar o tema. Guerreiro Ramos morreu em 1982 deixando o paradigma paraeconômico como esboço a ser desenvolvido — e Boeira, ao mapear as gerações de guerreiristas até 2021, documenta que esse esboço continua sendo elaborado por pesquisadores em administração, sociologia, ciência política e estudos organizacionais [Boeira, 2023, seção "4.2. Novas Gerações de Guerreiristas no Scielo.br (1997 a 2021)"].
Essa incompletude compartilhada não é contingência biográfica — é a ilustração do princípio da incerteza e incompletude: o conhecimento é sempre processo aberto, nunca totalidade fechada. Os três projetos são, paradoxalmente, monumentos à impossibilidade de qualquer monumento definitivo do saber.
Tabela 3 – Correspondência entre os princípios de Morin, de Needham e de Guerreiro Ramos
Princípio de Morin | Em Needham | Em Guerreiro Ramos |
Dialógico | Ciência orgânica chinesa × mecânica ocidental; Taoísmo × Confucionismo | Teoria N × Teoria P; economia × isonomia × fenonomia × comunidade |
Hologramático | Cada campo científico chinês contém a totalidade da cosmovisão correlativa | Cada enclave contém o conflito entre razão substantiva e funcional; cada caso político contém a opção paradigmática N×P |
Recursivo | Invenções chinesas → Europa → Revolução Científica → imperialismo → China | Teoria N produz instituições que legitimam a teoria N; a teoria P rompe o loop |
Sistêmico-organizacional | "Hierarquia de todos" como padrão cósmico (Needham, apud Grinter, 2018, p. 314); emergências do li e do qi | A riqueza das nações como emergência da pluralidade dos enclaves |
Auto-eco-re-organização | Organicismo taoísta e neo-confuciano; ciência como parte do tecido social | A enduring organization e o industrialismo orgânico como sistemas que se renovam sem destruir o entorno |
Incerteza e incompletude | O SCC inacabado; a questão de Needham sem resposta definitiva | O paradigma paraeconômico como esboço aberto; quatro gerações de guerreiristas em elaboração contínua |
Reintrodução do sujeito | Needham como sujeito situado; Lu Gwei-Djen como co-produtora | O lócus periférico como condição da redução sociológica; o referencial crítico-sistêmico-complexo como posição situada |
O ponto de convergência mais profundo é este: para Morin, o conhecimento é complexus — o que foi tecido junto. Para Needham, a história da ciência é tecida de múltiplas tradições que o paradigma disciplinar separou artificialmente. Para Guerreiro Ramos, a vida social é tecida de múltiplos enclaves que o modelo da necessidade subsume violentamente — e o modelo da possibilidade busca, ao contrário, preservar e cultivar. Os três projetos, lidos em conjunto, propõem que a integração não é um método entre outros: é a condição de possibilidade de um conhecimento que faça jus à realidade — e de uma vida social que faça jus ao ser humano.
Para finalizar, cabe destacar que a obra de Needham oferece uma abordagem fundamental para compreender-se a atual fase de inovações da China. Vista em perspectiva histórica, essa emergência tecnológica aparece menos como irrupção súbita do que como rearticulação contemporânea de uma longa tradição civilizacional de inventividade técnica, engenharia, pensamento relacional e articulação entre saberes distintos. Sob esse prisma, o protagonismo chinês em infraestrutura, terras raras, eletrônica, robótica, inteligência artificial e combinações entre medicina ocidental e oriental não apenas redefine o presente geopolítico, mas também exige uma história da ciência mais abrangente, complexa e compreensiva do que aquela legada pela narrativa eurocêntrica dominante.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Copilot na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.
Referências centrais
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[i] A eudaimonia é um conceito grego que ultrapassa a simples ideia de “felicidade”e representa um estado de realização plena que se atinge pela excelência e pela prática da virtude em consonância com a razão. Para Aristóteles, esse é o bem supremo da existência humana, alcançado pelo equilíbrio entre virtudes morais e intelectuais, permitindo ao indivíduo uma autossatisfação duradoura. Já Sócrates acredita que a eudaimonia se encontra no autoconhecimento e na busca pela virtude, onde a verdadeira felicidade reside no aprimoramento da alma e no domínio das paixões.



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