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Redução ou religação? Trajetória, poder e natureza em Niklas Luhmann e Edgar Morin

Resumo


Este ensaio compara as teorias sociais de Niklas Luhmann (1927-1998) e Edgar Morin (1921-2026) a partir de cinco eixos conceituais que atravessam suas obras — sistemas, sociedade, poder, natureza e autopoiese/auto-organização — e articula essa comparação teórica com as trajetórias biográficas de ambos os autores. Argumenta-se que a formação intelectual e existencial de cada um explica, em boa medida, sua filiação a um modo distinto de fazer teoria social: em Luhmann, um funcionalismo radicalmente descritivo, forjado na experiência da administração pública alemã e na absorção crítica do estrutural-funcionalismo de Talcott Parsons; em Morin, um pensamento crítico e normativamente engajado, forjado na Resistência francesa e na ruptura antiestalinista com o comunismo militante. A partir dessa chave biográfica, o ensaio mostra como Luhmann administra a complexidade social por redução formal — a diferença sistema/entorno —, enquanto Morin a administra por religação dialógica — a religação daquilo que a ciência clássica separou (ordem e desordem, sujeito e objeto, sociedade e natureza). Conclui-se que essa diferença de método não é politicamente neutra: ao eliminar toda pretensão normativa de sua teoria, Luhmann produz uma sociologia estruturalmente incapaz de julgar o poder que descreve, enquanto Morin converte a mesma matriz conceitual (cibernética, sistemas, autopoiese) em instrumento explícito de crítica e transformação civilizacional.



Objetivo


O objetivo deste ensaio é demonstrar, por meio da leitura comparada de textos de Luhmann e Morin e da reconstrução de suas trajetórias intelectuais, de que modo a filiação biográfica de cada autor — a um funcionalismo tecnocrático e avesso ao juízo normativo, no caso de Luhmann, ou a um humanismo crítico forjado na experiência da luta política, no caso de Morin — determina sua respectiva posição teórica diante de cinco problemas centrais da teoria social contemporânea: a definição de sistema, a definição de sociedade, o tratamento do poder, o lugar da natureza e o sentido da autopoiese/auto-organização.


Introdução


Poucos pares de autores permitem observar, com tanta nitidez, como uma trajetória de vida molda uma trajetória de pensamento quanto Niklas Luhmann e Edgar Morin. Contemporâneos — Luhmann nasceu em 1927, Morin em 1921, e ambos atravessaram a Segunda Guerra Mundial na adolescência ou no início da vida adulta —, os dois construíram, a partir de um repertório conceitual parcialmente compartilhado (a teoria dos sistemas, a cibernética de segunda ordem, o conceito biológico de autopoiese), duas sociologias radicalmente distintas em seu método, em seu alcance e, sobretudo, em sua relação com a crítica normativa. Luhmann elaborou uma teoria dos sistemas sociais autorreferenciais e operativamente fechados, que descreve a sociedade moderna como uma rede de comunicações diferenciada em subsistemas funcionais (político, jurídico, econômico), deliberadamente indiferente a qualquer juízo de valor sobre o que descreve. Morin, por sua vez, desenvolveu o “pensamento complexo” como método para religar o que a ciência clássica disjunta — sujeito e objeto, ordem e desordem, sociedade e natureza —, e nunca separou essa tarefa epistemológica de um projeto político explícito de crítica ao capitalismo, ao colonialismo e à destruição ecológica.


Este ensaio parte da hipótese de que essa distância teórica não é acidental, mas biograficamente motivada. Enquanto Luhmann atravessou a adolescência sob o nazismo como Luftwaffenhelfer e prisioneiro de guerra, construiu carreira como funcionário da administração pública alemã antes de ingressar na academia, e absorveu em Harvard o estrutural-funcionalismo de Talcott Parsons — que radicalizaria ao ponto de esvaziá-lo de qualquer conteúdo normativo —, Morin ingressou ainda jovem no Partido Comunista Francês, integrou a Resistência sob as armas, rompeu publicamente com o estalinismo por convicção antitotalitária, e converteu essa experiência de dissidência crítica em método intelectual permanente. A seguir, reconstruo brevemente essas duas trajetórias e, a partir delas, desenvolvo a comparação teórica propriamente dita, eixo por eixo, para finalmente avaliar em que sentido cada autor pode ser lido como mais ou menos “politizado”, e como mais próximo ou mais distante de uma postura crítica frente ao status quo.


Duas trajetórias, duas formações intelectuais


A trajetória de Niklas Luhmann é, antes de tudo, a trajetória de um administrador. Nascido em 8 de dezembro de 1927 em Lüneburg, filho de um cervejeiro local, Luhmann teve sua adolescência inteiramente absorvida pelo aparato de mobilização do Terceiro Reich (1): serviu como Luftwaffenhelfer[1] a partir dos quinze anos e foi formalmente convocado em 1944, ano em que — no contexto da incorporação coletiva de toda a sua geração de nascidos em 1926-1927, episódio que a imprensa alemã descreveu como um “presente de aniversário” burocrático oferecido a Hitler — tornou-se nominalmente membro do NSDAP, fato que só se tornaria público em 2007 (1, 2, 3). Em entrevista posterior, o próprio Luhmann descreveu essa fase com distanciamento crítico, relatando que considerava “repugnante” a autoapresentação do regime nazista (4). Feito prisioneiro de guerra pelos americanos em 1945, estudou Direito em Freiburg entre 1946 e 1949 e, na sequência, construiu carreira como funcionário da administração pública alemã — no Tribunal Administrativo Superior de Lüneburg e depois no Ministério da Cultura da Baixa Saxônia, entre 1954 e 1962 (5). É essa experiência de burocrata — não a de militante ou dissidente — que lhe fornece a primeira lente teórica decisiva: a observação de que sistemas administrativos processam decisões dentro de procedimentos formais, independentemente das convicções pessoais de quem decide. Em 1960-61, um ano sabático o leva a Harvard, onde estuda diretamente com Talcott Parsons (6); Luhmann absorve dali o vocabulário sistêmico-funcionalista, mas o radicaliza progressivamente — deslocando-o da teoria da ação para a teoria da comunicação e, depois, para a autopoiese — em um movimento de formalização crescente que o afasta de qualquer conteúdo normativo residual herdado de Parsons. Tornou-se, em 1968-69, o primeiro professor de sociologia da recém-criada Universidade de Bielefeld, onde permaneceu até se aposentar em 1993, evitando ao longo de toda a carreira qualquer filiação partidária e qualquer tomada pública de posição — inclusive durante a efervescência política de 1968 (7).


A trajetória de Edgar Morin é o inverso dessa história. Nascido Edgar Nahoum em 8 de julho de 1921, em Paris, filho de imigrantes judeus sefarditas vindos da Grécia, Morin ingressou no Partido Comunista Francês em 1941, sob a ocupação nazista, e entre 1942 e 1944 integrou a Resistência armada, adotando ali o pseudônimo que passaria a usar como nome definitivo (8). Ou seja: exatamente na janela histórica em que o adolescente Luhmann era incorporado, sob coerção, à máquina de guerra nazista, o jovem Morin escolhia deliberadamente combatê-la — uma diferença de posicionamento ativo, e não apenas de circunstância. O vínculo de Morin com o Partido Comunista, no entanto, foi tenso e breve: afastou-se a partir de 1949 e foi formalmente excluído em 1951 por posições antiestalinistas, episódio que o deixou, segundo relatos biográficos, com “profunda desconfiança em relação ao doutrinamento” (8). Diferentemente da recusa funcionalista-formal de Luhmann a qualquer conteúdo político, a ruptura de Morin foi interna ao campo crítico: ele deixou de ser estalinista sem deixar de ser um pensador engajado. Ingressou no CNRS em 1950 e, a partir de L’Homme et la Mort (1951), construiu uma obra de ampliação progressiva do campo crítico — da sociologia política ao método transdisciplinar, da crítica ao stalinismo à crítica ao capitalismo neoliberal e ao colonialismo, do humanismo antropológico ao pensamento ecológico-planetário —, culminando na teoria do “pensamento complexo”, cuja primeira formulação sistemática aparece em Science avec conscience (1982). Morin manteve esse engajamento público até o fim de sua vida, falecendo em 30 de maio de 2026, aos 104 anos, “atento ao mundo, aos outros e às grandes questões humanas que alimentavam seu pensamento”, segundo palavras de sua esposa Sabah Abouessalam Morin (8).


Sistemas e sociedade: formalização versus complexidade dialógica


É a partir dessas duas trajetórias que se compreende a divergência conceitual entre os dois autores no que diz respeito à noção mesma de sistema. Para Luhmann, um sistema não é um “todo” composto de “partes”, mas o resultado de uma operação de distinção: “Un sistema es la diferencia entre el sistema y el entorno, distinción que el propio sistema introduce y en la cual él mismo reaparece como parte de la distinción” (9, p. 16). Trata-se de uma teoria formal e operativa que deliberadamente evacua qualquer referência a totalidade viva ou a sujeito — um gesto teórico que replica, no plano conceitual, a experiência do administrador para quem os procedimentos importam mais do que as convicções de quem os executa. Morin, ao contrário, sem negar a centralidade da complexidade, enriquece a noção de sistema com o antagonismo interno e a emergência: “El pensamiento sistémico […] tiene dos vertientes: una vertiente pobre en la que el sistema se concibe como conjunto funcional […] y una vertiente rica, en la que el concepto de sistema lleva en su seno, no solamente las complementariedades, sino los antagonismos” (10, p. 85-86). Essa mesma lógica é projetada, em La Vía, para a escala planetária: a humanidade é pensada como um “sistema Terra” que, incapaz de resolver seus próprios problemas, tende a degradar-se, desintegrar-se ou metamorfosear-se em um metassistema (11, p. 29) — uma ambição totalizante que a formalização luhmanniana rejeitaria como recaída na metafísica da totalidade.


A mesma oposição reaparece, com ainda mais força, no tratamento da sociedade. A tese mais radical de Luhmann é sua desumanização programática: “El hombre es considerado como parte del entorno y no como parte del sistema social” (9, p. 17); a sociedade é o sistema de comunicação operativamente fechado, e “no existe ninguna comunicación fuera del sistema de comunicación de la sociedad […] y en esta medida es real y necesariamente cerrado” (9, p. 57-58). Morin recusa explicitamente essa exclusão do sujeito: “Los individuos dependen de la sociedad que, a su vez, depende de ellos […] los individuos y la sociedad se coproducen” (10, p. 86) — uma circularidade constitutiva, não uma relação de exclusão. Em La Vía, essa circularidade se projeta para a escala planetária como horizonte normativo explícito: a globalização criou apenas a infraestrutura de uma “sociedade-mundo”, ainda inexistente por faltarem autoridade legítima e controle sobre a economia mundializada (11, p. 19-20) — um diagnóstico que só é formulável porque Morin mantém, desde o início, o sujeito humano como polo ativo e responsável da vida social, e não como mero “entorno” de um sistema que se autorreproduz.


O poder: código formal ou fenômeno histórico-concreto


O eixo do poder é, talvez, aquele em que a distância entre as duas trajetórias produz consequências teóricas mais visíveis. Luhmann trata o poder como um meio de comunicação simbolicamente generalizado, distinto por definição da força física: “la violencia física no puede ser poder, pero conforma el caso extremo inevitable de una alternativa de evitación que forma poder” (12, p. 58). É significativo que esse conceito esteja quase ausente dos demais textos luhmannianos analisados — aparecendo como objeto teórico autônomo apenas em Poder (1975), obra anterior à incorporação da autopoiese à sua teoria —, o que sugere que, ao amadurecer, a teoria dos sistemas deslocou o poder político concreto para um plano secundário diante da diferenciação funcional.


Morin, ao contrário, trata o poder sempre em sua textura histórico-política concreta. Defende a democracia participativa como complemento da democracia representativa (11, p. 58); mobiliza o caso Eichmann, via Hannah Arendt, para mostrar como a fragmentação burocrática de tarefas dissolve a responsabilidade moral — “Hannah Arendt se dio cuenta de que Eichmann no era más que un burócrata mediocre que ‘obedecía órdenes’” (11, p. 113) —; e denuncia, com dados de organismos de direitos humanos, uma justiça “más dura en los suburbios, y más blanda con los delincuentes financieros” (11, p. 124). Essa diferença ilustra, de modo direto, a diferença de fundo entre as duas trajetórias: um código formal e simetricamente distribuído entre ego e alter, como o de Luhmann, simplesmente não possui vocabulário para nomear a desigualdade concreta de tratamento que Morin, com sua história de resistência à opressão, torna tema central de sua obra.


A natureza: ausência formal e crítica civilizacional


Nenhum eixo revela de modo mais nítido o contraste entre as duas sociologias do que o tratamento dado à natureza. Nos textos analisados de Luhmann, a natureza no sentido ecológico está praticamente ausente; quando aparece, é tratada em sentido puramente formal, como “eco-complexo” em vez de “ecossistema” (9, p. 51-52), e descrita, em última instância, como “expresión de un proceso de diferenciación del sistema” (9, p. 117) — um efeito residual da autoprodução social, nunca um polo autônomo dotado de exigências próprias.


Em Morin, ao contrário, a relação entre sociedade e natureza é um pilar histórico-político de todo o projeto teórico. Em La Vía, denuncia o etnocídio “de dimensiones planetarias” sofrido por povos indígenas — os alakaluf da Terra do Fogo, os inuit do norte de Quebec, os povos amazônicos — e formula a tese de que “la integración desintegra” (11, p. 67), propondo em seu lugar uma “via de integração autonomizante”. Traça ainda a genealogia histórica da “grande disjunção” ocidental entre humanidade e natureza, do monoteísmo judaico-cristão a Descartes, que consuma essa disjunção fazendo do homem “amo y señor de la naturaleza” (11, p. 69), e interpreta a crise financeira de 2008 como “la primera crisis socio-ecológica del capitalismo financiero” (11, p. 72).


Onde a formalização luhmanniana neutraliza a questão ecológica, a experiência de Morin, como sobrevivente de uma catástrofe histórica (a ocupação nazista), parece tê-lo tornado sensível a outras catástrofes históricas em curso — o etnocídio colonial e a destruição ambiental —, convertendo-as em crítica civilizacional urgente.


Autopoiese: o mesmo vocabulário, dois destinos opostos


É precisamente no eixo em que o vocabulário dos dois autores mais se aproxima — a autopoiese e a auto-organização, ambos derivados da cibernética de segunda ordem — que a diferença de fundo entre seus projetos se revela com maior clareza. Para Luhmann, a clausura operativa autorreferencial de um sistema autopoiético é condição de sua própria continuidade, e a abertura ao entorno é efeito, não negação, desse fechamento: “la cerradura como manera operativa autorreferencial es […] una forma de ampliación de los posibles contactos con el entorno” (9, p. 59). Morin parte de uma inversão lógica semelhante — “su independencia es proporcional a su dependencia respecto al ecosistema” (10, p. 98) —, mas desloca a ênfase da fórmula: para ele, é a dependência ecológica que é constitutiva da autonomia, não o fechamento operativo. E é esse mesmo princípio epistemológico que Morin eleva, em La Vía, à condição de programa civilizacional explícito, exigindo substituir “el paradigma que impone conocer por disyunción y reducción por un paradigma que exija conocer por distinción y conjunción” (11, p. 130) — a “reforma do pensamento” como pré-condição de toda reforma política, cristalizada no conceito de “metamorfose”, deliberadamente contraposto ao de revolução: “la noción de metamorfosis es más rica que la de revolución. Tiene la misma radicalidad innovadora, pero la combina con la conservación” (11, p. 31). O mesmo vocabulário cibernético produz, assim, em Luhmann, uma teoria fechada sobre si mesma e deliberadamente descritiva; em Morin, uma teoria que se converte, por decisão do próprio autor, em proposta explícita de ação política.


Funcionalismo descritivo e crítica normativa: a questão do status quo


As trajetórias e o confronto teórico convergem, por fim, para a questão da filiação político-teórica de cada autor. Luhmann formulou explicitamente sua recusa a qualquer pretensão normativa da teoria sociológica, posição que assumiu no célebre debate de quatro décadas com Jürgen Habermas, iniciado com o volume conjunto Theorie der Gesellschaft oder Sozialtechnologie (1971): enquanto Habermas defendia uma ética procedimental fundada na ação comunicativa, “Luhmann […] afirma que as operações dos sistemas diferenciados funcionalmente são indiferentes à moral, pelo que a possibilidade de qualquer ética se dissipa” (13). Essa posição não é apenas metodológica: tem consequências políticas precisas, evidenciadas por sua teoria da legitimidade, que define legitimidade não como justificação normativa do poder, mas como “a generalized willingness to acquiesce […] in decisions whose content remains to be determined” (14) — uma “teoria da estabilidade”, nas palavras do próprio comentador, que elimina da legitimidade justamente aquilo que a distingue da mera conformidade: a pergunta pela justificabilidade do poder. É exatamente esse ponto que Habermas ataca ao afirmar que a teoria de Luhmann “complementa a ideologia dominante da tecnocracia justamente porque não deixa espaço para a discussão de questões práticas” (14). Morin, ao contrário, jamais abandonou a pretensão normativa: de sua ruptura antiestalinista à crítica ao colonialismo, ao capitalismo financeiro e à “hegemonia da quantidade”, sua obra nunca deixou de perguntar se aquilo que descreve deveria continuar a existir como existe.


Conclusão


A comparação entre Niklas Luhmann e Edgar Morin revela duas apropriações radicalmente distintas de um repertório conceitual parcialmente comum — teoria dos sistemas, cibernética, autopoiese, complexidade —, e mostra como essa distinção teórica está enraizada em duas trajetórias biográficas opostas. Luhmann, formado como administrador público sob o nazismo e depois no aparato burocrático do pós-guerra alemão, e absorvendo em Harvard o estrutural-funcionalismo de Parsons, radicalizou a formalização até fazer de sua sociologia uma teoria operativamente fechada, deliberadamente pós-humanista e estruturalmente incapaz de julgar normativamente o que descreve — não por convicção política pessoal (que sempre evitou declarar), mas por desenho teórico.


Morin, formado na luta armada contra o nazifascismo e na dissidência crítica dentro do próprio campo comunista, manteve a teoria dos sistemas aberta ao sujeito, à história e à natureza, pagando o preço inverso: menor formalização conceitual, mas maior capacidade crítica diante das questões de poder, desigualdade e crise ecológica.


Do ponto de vista epistemológico, essa diferença pode ser resumida em uma fórmula: em Luhmann, a complexidade é administrada por redução — o sistema simplifica seletivamente seu entorno para sobreviver, e a teoria social o acompanha, recusando-se a ultrapassar a pura descrição; em Morin, a complexidade é administrada por religação — o pensamento complexo busca articular, e não separar, o que a ciência clássica dissociara (ordem e desordem, sujeito e objeto, sociedade e natureza), e essa mesma operação epistemológica se converte, ao final, em programa de ação política e civilizacional. Essa diferença de método não é neutra: ao eliminar da teoria toda pergunta pela justificação do poder, Luhmann produz, independentemente de suas intenções pessoais, um instrumento estruturalmente favorável à estabilização do que existe; ao recusar-se a separar compreensão e julgamento, Morin produz, com a mesma consistência, um instrumento voltado à sua transformação. Compreender essa diferença — e sua raiz biográfica — é compreender, em última instância, por que duas das mais influentes teorias sociais do século XX, partindo de um vocabulário técnico parcialmente comum, chegaram a destinos políticos tão distantes.


Referências

1.      LUHMANN, Niklas. Verbete biográfico. Wikipédia (alemão). Disponível em: https://de.wikipedia.org/wiki/Niklas_Luhmann.

2.      WELT. Generation Flakhelfer: Gab es Kollektivaufnahmen in die NSDAP? Disponível em: https://www.welt.de/kultur/article989523/Generation-Flakhelfer-Gab-es-Kollektivaufnahmen-in-die-NSDAP.html.

3.      NDR. Niklas Luhmann: Der Mann mit dem Zettelkasten. Disponível em: https://www.ndr.de/geschichte/Niklas-Luhmann-Der-Mann-mit-dem-Zettelkasten,luhmann100.html.

4.      HAGEN, Wolfgang. Entrevista com Niklas Luhmann: “Es gibt keine Biografie” (1997). Disponível em: https://www.whagen.de/PDFS/11256_LuhmannEsgibtkeineBiogra_1997.pdf.

5.      SUHRKAMP VERLAG. Biografia de Niklas Luhmann. Disponível em: https://www.suhrkamp.de/ebook/niklas-luhmann-die-grenzen-der-verwaltung-t-9783518769829.

6.      LUHMANN, Niklas. Verbete biográfico. Wikipédia (português). Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Niklas_Luhmann.

7.      NZZ. GUMBRECHT, Hans Ulrich. Was von Niklas Luhmann bleibt. Disponível em: https://www.nzz.ch/feuilleton/hans-ulrich-gumbrecht-was-von-niklas-luhmann-bleibt-ld.1511004.

8.      EURONEWS. Edgar Morin, le “grand-père” intellectuel de la France, s’éteint à l’âge de 104 ans (30 mai 2026). Disponível em: https://fr.euronews.com/culture/2026/05/30/edgar-morin-le-grand-pere-intellectuel-de-la-france-seteint-a-lage-de-104-ans.

9.      LUHMANN, Niklas. Sistemas Sociales (cap. 1).

10. MORIN, Edgar. Sociología (1994/ed. esp. 1995).

11. MORIN, Edgar. La Vía: para el futuro de la humanidad (ed. esp. Paidós, 2011).

12. LUHMANN, Niklas. Poder (1975).

14. NOMOS-ELIBRARY.DE. Niklas Luhmann’s Theory of Procedural Legitimation. Disponível em: https://www.nomos-elibrary.de/661141.pdf.


[1] Luftwaffenhelfer é um termo que se refere a estudantes alemães utilizados como soldados juvenis durante a Segunda Guerra Mundial. O programa, oficialmente implementado em 1943, exigia matrícula de estudantes nascidos entre 1926 e 1929. Tal corpo militar era supervisionado pela Juventude Hitlerista e pela Luftwaffe.


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.


 
 
 

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