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Religião entre autonomia e autoridade: Jung, Weber, Fromm, Beck e Morin

Nota de apresentação. Este ensaio constitui a primeira parte de uma trilogia sobre religião, autonomia e poder na modernidade contemporânea. Nesta primeira etapa, o objetivo é construir, a partir de Jung, Weber, Fromm, Beck e Morin, uma grade conceitual para compreender a religião entre autonomia e autoridade. O segundo ensaio examina como essa tensão é reconfigurada na modernidade reflexiva pelas relações entre populismo, mercado, pesquisas eleitorais, marketing político, redes digitais e organizações religiosas, incorporando também as contribuições de C. Wright Mills e Guerreiro Ramos. O terceiro aplicará essa grade teórica à análise comparativa de experiências populistas de direita e de esquerda e de suas relações com públicos, organizações e lideranças religiosas. A sequência procura preservar uma opção metodológica: construir os critérios teóricos antes de aplicá-los aos casos empíricos.


Resumo

A secularização não produziu o desaparecimento da religião, assim como a persistência ou revitalização das religiões não significa necessariamente um retorno à pré-modernidade. A relação entre religião e modernidade é mais complexa: crenças e instituições religiosas transformam-se, individualizam-se, reorganizam-se e interagem com processos econômicos, psicológicos, culturais e políticos. Este ensaio propõe uma aproximação entre Carl Gustav Jung, Max Weber, Erich Fromm, Ulrich Beck e Edgar Morin para delinear uma concepção plural, reflexiva e democrática da religião. Jung contribui com os conceitos de individuação, símbolo, sombra e experiência do numinoso; Weber, com a análise das relações entre ética religiosa, racionalização e consequências não intencionais da ação; Fromm, com a crítica das formas autoritárias de religião e a articulação entre necessidades psíquicas e estruturas sociais; Beck, com a individualização religiosa, a modernização reflexiva e a cosmopolitização; e Morin, com a identidade complexa, a autocrítica e a relação entre particularidade e universalidade. Argumenta-se que essas perspectivas, embora epistemologicamente distintas, convergem na possibilidade de pensar a laicidade não como hostilidade à religião, mas como condição institucional da liberdade religiosa, da autonomia reflexiva dos cidadãos e da convivência entre diferentes crenças e não crenças.



Introdução


Uma das expectativas associadas à modernidade foi a de que o desenvolvimento científico, a racionalização das instituições e a secularização conduziriam ao progressivo declínio da religião. A experiência histórica, entretanto, revelou uma situação consideravelmente mais complexa. As instituições religiosas tradicionais perderam parte de sua autoridade em determinadas sociedades, mas a experiência religiosa não desapareceu. Em outros contextos, organizações religiosas adquiriram novas formas de presença social. Globalização, migrações, meios de comunicação e redes digitais intensificaram ainda mais o encontro entre crenças, descrenças e espiritualidades.


A oposição simples entre modernidade secular e religião pré-moderna torna-se, assim, insuficiente. A religião pode ser tradicional e moderna, institucional e individualizada, comunitária e cosmopolita, libertadora e autoritária. Pode favorecer a autonomia ou a submissão, a tolerância ou a exclusão. Pode produzir consequências sociais muito diferentes daquelas pretendidas pelos próprios atores religiosos.


Essa ambivalência exige uma abordagem multidimensional. A experiência religiosa possui dimensões psicológicas, sociais, econômicas, culturais, históricas e políticas que nenhuma disciplina isoladamente parece capaz de esgotar. Por essa razão, este ensaio aproxima cinco autores provenientes de tradições intelectuais bastante distintas: Carl Gustav Jung (1, 2), Max Weber (3), Erich Fromm (4), Ulrich Beck (5) e Edgar Morin (6).


Não se pretende convertê-los artificialmente em representantes de uma mesma teoria. Ao contrário, sua contribuição reside precisamente nas diferenças. Jung permite examinar a experiência religiosa e a individuação; Weber, a formação religiosa das condutas e suas consequências históricas; Fromm, as relações entre religião, estrutura social e autoridade; Beck, a individualização e a cosmopolitização da religião; e Morin, a complexidade das identidades, das pertenças e do universalismo. O objetivo é explorar as complementaridades e tensões entre essas abordagens para delinear uma concepção plural, moderna e democrática da religião. Para isso, o texto examina inicialmente religião e individuação em Jung; em seguida, religião, racionalização e modernidade em Weber; religião e autoridade em Fromm; individualização e cosmopolitização em Beck; identidade complexa e universalismo em Morin; e, finalmente, procura religar essas contribuições em torno das noções de autonomia, pluralismo e Estado laico.


1. Jung: experiência religiosa, individuação e reconhecimento da sombra


A contribuição de Carl Gustav Jung é particularmente importante porque desloca a discussão da verdade objetiva dos dogmas para a realidade psicológica da experiência religiosa. A psicologia, em sua perspectiva, não tem competência para demonstrar ou refutar metafisicamente a existência de Deus. Pode, entretanto, investigar as imagens de Deus, os símbolos religiosos e as experiências do numinoso como fenômenos psíquicos dotados de extraordinária força sobre indivíduos e coletividades.


Em Resposta a Jó (1), Jung realiza uma das mais radicais aplicações dessa perspectiva à tradição judaico-cristã. Jó, homem justo submetido a sofrimentos que não correspondem às suas ações, confronta-se com uma imagem divina na qual justiça e arbitrariedade, criação e destruição, amor e violência ainda convivem contraditoriamente. A questão decisiva para Jung não consiste em formular uma teologia alternativa, mas em observar como a consciência humana se torna capaz de confrontar moral e reflexivamente a própria representação de Deus.


A leitura junguiana tem uma consequência fundamental para a autonomia religiosa: a consciência individual não deveria ser simplesmente anulada pela autoridade. A experiência religiosa pode exigir justamente o contrário — confronto, interpretação, sofrimento, dúvida e transformação. A individuação não é individualismo nem escolha arbitrária entre crenças; é um processo de diferenciação e ampliação da consciência no qual o indivíduo necessita reconhecer dimensões de si mesmo que o ego preferiria desconhecer.


Nesse processo, o conceito de sombra torna-se especialmente relevante. Indivíduos e coletividades tendem a projetar sobre outros aquilo que recusam reconhecer em si. O mal é localizado no adversário, enquanto o próprio grupo se identifica com o bem. Essa projeção pode adquirir extraordinária força quando recebe legitimação religiosa. A oposição absoluta entre justos e pecadores, puros e impuros, salvos e condenados pode bloquear precisamente o processo reflexivo de reconhecimento das próprias contradições.


Em Psicologia e religião oriental (2), Jung amplia o problema mediante o encontro entre tradições ocidentais e orientais. Hinduísmo, budismo, yoga, meditação e símbolos como as mandalas interessam-lhe não como produtos que o indivíduo ocidental possa simplesmente importar, mas como expressões de diferentes maneiras históricas de relacionar consciência, interioridade e totalidade psíquica. O diálogo intercultural exige, portanto, abertura ao outro sem abandono irrefletido da própria história.


A individuação junguiana oferece, assim, uma primeira dimensão para uma concepção plural da religião: autonomia não significa ausência de vínculos, mas capacidade reflexiva de relacionar-se com símbolos, tradições, instituições e experiências interiores sem entregar integralmente a própria consciência a uma autoridade externa.


2. Weber: religião, racionalização e consequências não intencionais


Max Weber introduz outra dimensão do problema. Em A ética protestante e o espírito do capitalismo (3), seu interesse não está primordialmente na experiência interior do símbolo, mas nas relações entre ideias religiosas, orientação da conduta e transformação histórica.


Weber rejeita explicações monocausais. O protestantismo não "criou" simplesmente o capitalismo. O problema consiste em compreender determinadas afinidades entre formas do protestantismo ascético e o desenvolvimento de uma conduta econômica racionalizada. O conceito de Beruf — simultaneamente profissão e vocação — expressa uma transformação decisiva: a atividade cotidiana no mundo pode adquirir significado religioso.


O ascetismo deixa, assim, de exigir necessariamente o afastamento do mundo. O indivíduo disciplina metodicamente sua existência dentro dele. Trabalho, tempo, consumo e comportamento tornam-se objetos de autocontrole. Particularmente no protestantismo ascético, essa racionalização da conduta favorece hábitos compatíveis com a expansão do capitalismo moderno.


O aspecto teoricamente mais importante para o presente argumento está nas consequências não intencionais da ação. Motivações religiosas podem produzir resultados econômicos e institucionais que não estavam originalmente presentes nas intenções dos atores. Posteriormente, as instituições podem autonomizar-se das motivações religiosas que contribuíram para sua formação. A disciplina vocacional religiosa participa da constituição de uma ordem econômica que passa a funcionar independentemente da fé.


Weber impede, portanto, que a religião seja compreendida exclusivamente por aquilo que afirma sobre si mesma. É necessário observar suas práticas, formas de conduta, organizações e consequências históricas. Entre intenção religiosa e resultado social existe uma mediação complexa.

A modernidade, nesse sentido, não é simplesmente o contrário da religião. Algumas de suas instituições foram historicamente constituídas por processos nos quais religião e racionalização se interpenetraram. O desencantamento do mundo não significa necessariamente que a religião nunca tenha participado da construção desse mesmo mundo moderno.


3. Fromm: religião, autoridade e autonomia


Erich Fromm acrescenta ao quadro uma perspectiva simultaneamente psicanalítica e sociológica. Em O dogma de Cristo (4), publicado originalmente em 1930, procura compreender como transformações das condições sociais e das necessidades psicológicas podem corresponder a transformações das representações religiosas.


O dogma deixa de ser considerado exclusivamente como proposição teológica. Torna-se também fenômeno social e psicológico. É necessário perguntar quais grupos acreditam, em que condições vivem, que esperanças possuem, que frustrações experimentam e que relações estabelecem com diferentes formas de autoridade.


Fromm interpreta as transformações da cristologia em conexão com mudanças ocorridas entre as primeiras comunidades cristãs e a posterior institucionalização do cristianismo. Independentemente das discussões historiográficas que sua interpretação suscita, permanece uma contribuição metodológica importante: as representações religiosas podem simultaneamente expressar necessidades psíquicas e relações sociais de poder.


Essa abordagem introduz uma questão que complementa Jung. Uma experiência religiosa pode ser psicologicamente intensa e, ainda assim, integrar uma estrutura autoritária. Não basta perguntar pelo significado interior do símbolo; é necessário investigar que relações entre pessoas e instituições esse símbolo ajuda a produzir ou legitimar.


Na evolução posterior do pensamento de Fromm, essa questão conduzirá à distinção entre orientações autoritárias e humanistas da religião. A primeira tende a fundamentar-se na submissão a um poder superior diante do qual o indivíduo experimenta sua própria impotência; a segunda valoriza o desenvolvimento das potencialidades humanas, da razão, do amor e da solidariedade.


Fromm acrescenta, portanto, outra dimensão à autonomia religiosa: não basta escolher uma crença; importa saber se as relações constituídas em torno dela favorecem o desenvolvimento da autonomia ou a submissão da pessoa a autoridades que reivindicam poder sobre sua consciência.


4. Beck: individualização religiosa e cosmopolitização


Em O Deus de cada um (5), Ulrich Beck questiona a interpretação linear segundo a qual modernização e secularização conduziriam necessariamente ao desaparecimento da religião. Para ele, a perda de autoridade de determinadas instituições religiosas pode coexistir com a persistência e transformação da experiência religiosa.


A noção de individualização é fundamental. Não significa individualismo ou isolamento. Refere-se ao processo pelo qual identidades e biografias deixam de ser inteiramente determinadas de antemão por instituições tradicionais. A religião herdada pode transformar-se em religião interpretada, escolhida e reconstruída biograficamente.


A distinção entre religião institucional e fé individual torna-se, portanto, fundamental. O indivíduo pode manter vínculos com uma tradição sem aceitar integralmente todas as suas prescrições. Pode também atravessar fronteiras simbólicas e estabelecer contato com outras tradições.


Essa individualização ocorre simultaneamente à cosmopolitização. Migrações, globalização e comunicação fazem com que diferentes religiões convivam cada vez mais dentro dos mesmos espaços sociais. O outro religioso deixa de ser uma abstração distante e torna-se vizinho, colega, cidadão.

Esse encontro contém possibilidades contraditórias. Pode favorecer reflexividade, tolerância e reconhecimento da diversidade; mas pode igualmente provocar fechamento identitário e fundamentalismo. A modernidade reflexiva não elimina as certezas absolutas: pode produzir reações destinadas justamente a restaurá-las.


Beck torna possível pensar a liberdade religiosa para além da simples tolerância concedida por uma maioria a minorias. Em sociedades cosmopolitizadas, a pluralidade torna-se uma condição estrutural. A questão democrática passa a ser como indivíduos portadores de convicções diferentes podem compartilhar instituições comuns sem que nenhuma dessas convicções adquira o direito de eliminar as demais.


5. Morin: identidade complexa, autocrítica e universalidade


Edgar Morin introduz uma dimensão epistemológica e antropológica particularmente importante. Em O mundo moderno e a questão judaica (6), a discussão sobre judaísmo, antissemitismo, sionismo, Israel e identidade judaica constitui também uma reflexão sobre os perigos da redução identitária.


Para Morin, a identidade humana é constitutivamente multidimensional. Um indivíduo pode ser simultaneamente membro de uma tradição religiosa, cidadão de um país, participante de uma cultura, integrante de uma história familiar e membro da humanidade. Nenhuma dessas dimensões deveria necessariamente eliminar as demais.


O problema surge quando uma pertença é absolutizada. O "sou também" transforma-se em "sou essencialmente". A identidade complexa é reduzida a uma identidade exclusiva.


Essa perspectiva permite compreender a importância da autocrítica. Pertencer a uma comunidade não deveria significar suspender a capacidade de julgar criticamente suas ações. Ao contrário, quanto mais significativa a pertença, mais importante pode tornar-se a capacidade de reconhecer suas contradições.


A experiência histórica do sofrimento tampouco produz automaticamente superioridade moral. A memória das injustiças sofridas é indispensável, mas não pode transformar-se em autorização para ignorar injustiças praticadas contra outros. A compreensão complexa exige reconhecer simultaneamente particularidades históricas e princípios universalizáveis.


Morin aproxima, assim, identidade e universalidade sem dissolver uma na outra. O universalismo não exige indivíduos abstratos, privados de cultura, memória ou religião. Exige que nenhuma pertença particular reivindique para si um valor humano exclusivo.


6. Cinco perspectivas, diferentes níveis de análise


As contribuições desses autores não deveriam ser homogeneizadas. Elas operam em níveis diferentes e justamente por isso podem tornar-se complementares.


Jung pergunta como o indivíduo se relaciona com símbolos, inconsciente, sombra e experiência do sagrado. Fromm pergunta como necessidades psíquicas, estruturas sociais e relações de autoridade se articulam. Weber pergunta como ideias religiosas orientam condutas e produzem consequências históricas, inclusive não pretendidas. Beck pergunta como modernização reflexiva, individualização e cosmopolitização transformam a experiência e as instituições religiosas. Morin pergunta como identidades e pertenças podem ser reconhecidas sem redução, fechamento e perda da capacidade de autocrítica.


Podemos, portanto, distinguir provisoriamente cinco níveis: psíquico — Jung; psicossocial — Fromm; socioeconômico-histórico — Weber; sociológico-reflexivo — Beck; epistemológico-antropológico — Morin.


A religação desses níveis não constitui uma teoria unificada da religião. Constitui uma grade multidimensional de interrogações. Diante de qualquer fenômeno religioso, torna-se possível perguntar simultaneamente: que experiência subjetiva está ocorrendo? Que símbolos estão sendo mobilizados? Que relações de autoridade são constituídas? Que comportamentos sociais são estimulados? Que consequências não pretendidas emergem? Que relações são estabelecidas com outras crenças? Que identidades são construídas? Existe capacidade de autocrítica?


7. Individualização, individuação e autonomia: conceitos próximos, mas não equivalentes


É particularmente importante evitar a fusão entre conceitos provenientes desses diferentes autores. A individuação de Jung é um processo psicológico de diferenciação e integração da personalidade, envolvendo a relação entre consciência e inconsciente. A individualização de Beck é um processo sociológico da modernidade no qual biografias e identidades tornam-se menos determinadas pelas instituições tradicionais. A autonomia em Fromm envolve a superação de relações autoritárias que produzem submissão e impotência. A identidade complexa de Morin significa reconhecer a multiplicidade das pertenças e impedir sua redução a uma identidade exclusiva. A racionalização estudada por Weber, finalmente, demonstra que o crescimento da autonomia formal e da racionalidade institucional não produz necessariamente indivíduos substantivamente mais livres: as próprias instituições racionalizadas podem adquirir caráter coercitivo.


As diferenças são fundamentais. Entretanto, elas permitem identificar uma preocupação transversal: as condições sob as quais o indivíduo pode constituir-se como sujeito reflexivo sem ser absorvido pela instituição, pelo dogma, pela autoridade, pela identidade coletiva ou pelas estruturas racionalizadas que ele próprio ajudou historicamente a produzir.


8. Estado laico: da separação institucional à autonomia reflexiva


A aproximação entre esses cinco autores permite ampliar a própria concepção de Estado laico. Em seu sentido jurídico e institucional, a laicidade exige que o Estado não seja subordinado a uma religião e assegure liberdade de consciência e de crença. Essa dimensão permanece indispensável.


Mas uma concepção democrática mais ampla pode acrescentar outro aspecto: a laicidade constitui uma condição institucional da autonomia religiosa e não religiosa dos cidadãos.


O Estado laico não determina em que Deus o indivíduo deve acreditar. Tampouco determina que ele deva acreditar em algum Deus. Não decide qual tradição possui a verdade metafísica. Sua função é preservar um espaço público no qual diferentes respostas a essas questões possam coexistir sob direitos comuns.


Nessa perspectiva, laicidade não significa hostilidade à religião. Ao contrário, protege a experiência religiosa contra a imposição de outras religiões e protege simultaneamente o indivíduo contra a imposição religiosa do próprio Estado.


A liberdade religiosa possui, portanto, duas faces inseparáveis: liberdade para crer e liberdade para não crer, mudar de crença, interpretar uma tradição ou afastar-se dela.

Essa concepção aproxima institucionalmente aquilo que Jung, Fromm, Beck e Morin observam em diferentes níveis: a consciência individual não deveria ser inteiramente apropriada por autoridades externas. Weber acrescenta a advertência de que mesmo instituições formadas em nome de determinados valores podem adquirir lógicas próprias de dominação.


9. Religião, modernidade e complexidade


Chegamos, assim, a uma conclusão diferente tanto do secularismo simplificador quanto do tradicionalismo religioso. A alternativa não precisa ser: modernidade ou religião. Pode ser: que formas de religião são compatíveis com uma sociedade moderna, plural e democrática?


Essa reformulação modifica profundamente o problema. Uma religião pode conservar tradições milenares e simultaneamente reconhecer a liberdade de consciência. Pode possuir convicções fortes sem pretender transformá-las coercitivamente em convicções universais. Pode formar comunidades sem negar a individualidade de seus membros. Pode participar da esfera pública sem reivindicar monopólio sobre ela.


Da mesma maneira, modernidade não garante autonomia. Instituições modernas podem produzir conformismo, racionalização instrumental, massificação e novas formas de dependência.


Por isso, talvez seja inadequado interpretar certos fenômenos contemporâneos simplesmente como "retorno à pré-modernidade". O que encontramos são frequentemente mosaicos de temporalidades, racionalidades e instituições: tecnologias digitais convivem com crenças tradicionais; organizações empresariais administram experiências religiosas; racionalização econômica convive com experiências do numinoso; identidades comunitárias são reconstruídas em redes globais. A complexidade está justamente nessa coexistência.


Considerações finais


Jung, Weber, Fromm, Beck e Morin não formularam conjuntamente uma teoria democrática da religião. Suas diferenças históricas, metodológicas e epistemológicas são profundas. Entretanto, colocados em diálogo, oferecem elementos para construir uma grade conceitual capaz de compreender a religião para além das alternativas simplificadoras entre crença e descrença, modernidade e tradição, indivíduo e comunidade.


Jung mostra que a experiência religiosa envolve símbolos, numinosidade, sombra e individuação e que a consciência necessita confrontar suas próprias contradições. Weber demonstra que crenças religiosas produzem formas de conduta e consequências históricas que podem ultrapassar as intenções dos próprios atores. Fromm revela como dogmas e experiências religiosas podem relacionar-se a necessidades psíquicas, estruturas sociais e formas de autoridade. Beck demonstra que secularização institucional pode coexistir com individualização da fé e cosmopolitização religiosa. Morin, finalmente, permite compreender a identidade religiosa como uma entre múltiplas dimensões da identidade humana e sustenta a necessidade permanente da autocrítica e da abertura ao universal.


Dessa aproximação emerge uma concepção de religião que poderíamos denominar plural, reflexiva e democrática. Plural, porque reconhece a legitimidade da coexistência entre diferentes crenças e não crenças. Reflexiva, porque nenhuma tradição, instituição ou indivíduo deveria considerar-se dispensado de examinar suas próprias contradições. Democrática, porque a liberdade religiosa depende da liberdade dos demais, e não de sua submissão.


O conceito articulador talvez seja autonomia reflexiva. Não se trata do indivíduo isolado imaginado por certas concepções liberais, mas de uma pessoa constituída por relações, símbolos, tradições, instituições e pertenças que, apesar disso, preserva capacidade de interpretação, crítica e escolha.


A laicidade pode então ser compreendida em sentido mais amplo: não apenas como separação jurídico-institucional entre Estado e organizações religiosas, mas como garantia pública de um espaço no qual nenhuma autoridade política ou religiosa possa apropriar-se integralmente da consciência dos cidadãos.


Essa formulação oferece também uma base para uma etapa posterior da investigação. Somente depois de explicitar os critérios de autonomia, pluralismo, reflexividade, tolerância, identidade complexa e laicidade torna-se teoricamente mais seguro examinar situações concretas nas quais religião e poder político se aproximam. Nesse segundo momento, será possível investigar empiricamente se — e de que maneira — determinadas formas contemporâneas de liderança e mobilização política fortalecem ou enfraquecem essas condições democráticas, sem antecipar as conclusões a partir de rótulos ideológicos.


Referências

(1) JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó. Petrópolis: Vozes.

(2) JUNG, Carl Gustav. Psicologia e religião oriental. Petrópolis: Vozes.

(3) WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.

(4) FROMM, Erich. O dogma de Cristo e outros ensaios sobre religião, psicologia e cultura. Rio de Janeiro: Zahar.

(5) BECK, Ulrich. O Deus de cada um: a capacidade das religiões de promover a paz e o seu potencial de violência. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

(6) MORIN, Edgar. O mundo moderno e a questão judaica. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol para buscar informações e elaborar a ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim. 

 
 
 

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