Sol, vento e hidrogênio: quem ganha com a nova transição energética?
- Sérgio Luís Boeira
- 14 de mai.
- 5 min de leitura
O Brasil pode virar potência da energia limpa com a combinação entre sol, vento e hidrogênio verde. Mas isso só será uma boa notícia se a transição for também justa para quem vive nos territórios afetados.

A nova promessa: um triângulo de ouro energético
Nos últimos anos, a combinação entre sol, vento e hidrogênio verde ganhou status de “triângulo de ouro” da nova energia brasileira. A narrativa é sedutora: o país teria tudo para liderar a transição climática global, trocando combustíveis fósseis por fontes renováveis e ainda exportando energia limpa para o mundo.
A lógica técnica é relativamente simples. A energia solar e a eólica geram eletricidade de forma limpa, mas são intermitentes: o Sol não brilha o tempo todo e o vento não sopra sempre no mesmo ritmo. Quando há sobra de eletricidade, essa energia pode ser usada para separar a água em hidrogênio e oxigênio, num processo chamado eletrólise. O hidrogênio produzido – o chamado hidrogênio verde – funciona como uma “reserva” de energia: pode ser armazenado e depois usado para gerar eletricidade, mover veículos pesados ou produzir fertilizantes e insumos industriais sem emitir gás carbônico.
Em tese, essa triangulação permitiria ao Brasil usar sol e vento para abastecer a própria economia e ainda vender energia limpa e produtos “verdes” para outros países, ganhando relevância na geopolítica do clima.
Uma potência da energia limpa… para quem?
O problema é que energia renovável não é sinônimo automático de justiça social. A transição pode ser tecnicamente moderna e, ao mesmo tempo, reproduzir velhos padrões: concentração de renda, decisões tomadas longe dos territórios afetados, comunidades tratadas como obstáculo e não como sujeito político.
O Nordeste brasileiro é hoje a vitrine dessa ambivalência. Ao mesmo tempo em que se tornou referência em parques eólicos e solares, a região acumula denúncias de comunidades rurais e tradicionais sobre impactos dos empreendimentos.
Levantamentos jornalísticos e acadêmicos registram casos de ruído, poeira, alteração de rotas de gado e de pesca, restrição de acesso a áreas usadas há gerações, além de conflitos por terra e falta de informação clara sobre contratos e indenizações. Em muitos lugares, a promessa de “progresso” chegou antes da consulta, invertendo a ordem básica de qualquer projeto minimamente democrático.
Quando a transição vira conflito
Na Bahia, por exemplo, comunidades de fundo e fecho de pasto em municípios como Canudos, Jeremoabo e Euclides da Cunha relatam pressão de empresas para instalação de parques eólicos, grilagem, cercamentos e abertura de estradas em áreas tradicionalmente usadas de forma coletiva. O Mapa de Conflitos da Fiocruz registra que esses grupos vêm enfrentando processos de desterritorialização em nome da energia “limpa”.
Situação semelhante aparece em áreas do semiárido e do litoral nordestino, onde a chegada de torres eólicas alterou o cotidiano local sem garantir benefícios proporcionais. Estudos apontam restrição de acesso a áreas de pesca e extrativismo, mudanças na paisagem sonora e visual, divisão comunitária e o paradoxo de territórios produtores de energia renovável onde parte da população segue com dificuldade de acesso à eletricidade barata e estável.
Pesquisadores que acompanham o tema têm alertado para o risco de uma “transição energética de costas para as comunidades”, na qual o discurso de descarbonização encobre conflitos territoriais e injustiças socioambientais.
O que significa, afinal, uma transição energética justa?
Organizações da sociedade civil, movimentos e centros de pesquisa vêm usando cada vez mais a expressão “transição energética justa”. Na prática, ela significa pelo menos quatro coisas.
Participação real de quem é afetado
Projetos de energia precisam ser discutidos desde o início com comunidades locais, povos indígenas, quilombolas, agricultores familiares e moradores de periferias urbanas. Não basta uma audiência pública protocolar ao final do processo.
Distribuição dos benefícios
A nova energia não pode ser apenas um bom negócio para grandes empresas. Ela precisa gerar empregos decentes, formação profissional, melhorias em serviços públicos, tarifas de energia mais acessíveis e fundos comunitários para os territórios que abrigam usinas, linhas de transmissão e plantas de hidrogênio.
Reconhecimento dos territórios
Áreas rurais, costeiras e tradicionais não são “vazios demográficos”. São espaços com histórias, modos de vida, religiosidades e formas coletivas de uso da terra que precisam ser respeitados e incorporados ao planejamento.
Articulação com o combate à desigualdade
Energia não está separada de saneamento, moradia, transporte, alimentação e trabalho. Uma transição justa precisa dialogar com esses temas e ajudar a reduzir desigualdades históricas, em vez de apenas pintar de verde um modelo concentrador.
Quando a triangulação se aproxima da justiça
Por outro lado, há experiências que apontam caminhos mais promissores. Em Florianópolis, a UFSC vem desenvolvendo um conjunto de projetos que conectam energia solar, hidrogênio verde e uso social do conhecimento.
No Sapiens Parque, ligado à universidade, existe uma usina de hidrogênio verde em escala de demonstração, que produz hidrogênio e amônia a partir de energia solar e água da chuva; um laboratório multiusuário voltado a todo o ciclo do hidrogênio; e um sistema agrifotovoltaico que combina produção de alimentos com geração solar no mesmo terreno, em parceria com instituições de pesquisa agrícola.
Esse tipo de arranjo é importante por pelo menos três motivos. Primeiro, ele mostra que é possível pensar a transição energética como política de desenvolvimento territorial, unindo energia, agricultura, ciência e formação técnica. Segundo, ele abre espaço para parcerias com bancos públicos e multilaterais em projetos que não se limitam a megainfraestruturas, mas incluem laboratórios regionais, capacitação de municípios e monitoramento de impactos sociais. Terceiro, ele fortalece a ideia de que universidades e institutos federais podem funcionar como ponte entre tecnologia e sociedade, ajudando a traduzir o discurso da transição em práticas concretas de justiça energética.
Outras iniciativas pelo país vão na mesma direção: programas de universidades e institutos que trabalham com energia renovável em comunidades rurais, projetos de geração distribuída em campi públicos, estudos sobre transição justa na Amazônia e redes que conectam pesquisadores, movimentos sociais e gestores públicos.
O ponto de virada: tecnologia ou política?
O Brasil tem condições reais de se tornar protagonista da transição energética global com a triangulação sol–vento–hidrogênio. Os potenciais de geração são altos, os custos tendem a cair e há crescente interesse internacional em importar energia limpa e produtos de baixo carbono produzidos no país.
Mas nada disso garante, por si só, que essa transição será justa. A experiência dos parques eólicos no Nordeste mostra que é possível descarbonizar e, ao mesmo tempo, aprofundar desigualdades e conflitos territoriais. Por outro lado, experiências como as da UFSC e de outras instituições indicam que é possível usar a mesma agenda para fortalecer capacidades locais, democratizar o acesso à energia e construir novas formas de desenvolvimento regional.
No fim, o verdadeiro ponto de virada não está apenas nos eletrolisadores, nas turbinas ou nas placas solares. Está em uma pergunta política simples e incômoda: a transição energética brasileira será feita para quem – e com quem?
A forma como o país responder a essa pergunta vai definir se o triângulo sol–vento–hidrogênio será lembrado como motor de uma nova justiça energética ou como mais um capítulo de uma velha história de promessas para poucos e impactos para muitos.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e na preparação desse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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