Trump e Milei como referências políticas: economia, universidades, direitos e o valor atribuído à vida
Objetivo
Analisar a avaliação pública dos governos de Donald Trump e Javier Milei e examinar como suas decisões afetam a economia cotidiana, a saúde, as universidades públicas, o meio ambiente e a participação da sociedade civil. O artigo considera também suas políticas relativas a gênero e raça, discute a contribuição do conceito de necropolítica para a análise do caso brasileiro e avalia o significado político dessas experiências diante das referências assumidas pela candidatura de Flávio Bolsonaro.
Resumo
Pesquisas divulgadas em agosto de 2026 registraram 62% de desaprovação a Donald Trump nos Estados Unidos e 62,4% de desaprovação a Javier Milei na Argentina. Embora os levantamentos não tenham métodos idênticos e não expliquem, isoladamente, os motivos de cada resposta, seus resultados exigem cautela diante da apresentação dos dois governos como exemplos de sucesso. Trump e Milei conduzem economias e sistemas universitários diferentes, mas ambos colocaram organizações sociais e instituições públicas de conhecimento em conflito com suas prioridades. Suas políticas climáticas favorecem a expansão dos combustíveis fósseis, apesar das diferenças formais entre os países perante o Acordo de Paris. A análise retoma, por fim, o conceito de necropolítica de Achille Mbembe para interrogar a proteção desigual da vida, especialmente à luz da pandemia de Covid-19 e das disputas pelos direitos de povos indígenas e comunidades quilombolas durante o governo Jair Bolsonaro. A inspiração declarada da equipe de Flávio Bolsonaro em Milei e seu alinhamento político com Trump tornam essas questões relevantes para o debate eleitoral brasileiro.

Introdução
Governos que prometem liberdade econômica e eficiência administrativa devem ser avaliados não só pelas intenções anunciadas, mas pelas condições de vida que ajudam a produzir. Reduzir a inflação, atrair investimentos ou equilibrar contas públicas são objetivos cuja importância não dispensa outras perguntas: o que acontece com salários, serviços de saúde, universidades, direitos sociais e capacidade de enfrentar a crise climática? Quem participa das decisões e quem suporta seus custos?
Em agosto de 2026, a pesquisa Economist/YouGov encontrou 62% de desaprovação ao desempenho de Donald Trump. Um levantamento AtlasIntel/Bloomberg registrou 62,4% de desaprovação de Javier Milei. As pesquisas foram realizadas em países diferentes, com amostras e procedimentos próprios. A diferença de 0,4 ponto percentual não permite ordenar os presidentes por grau de rejeição. O resultado relevante é que mais de seis em cada dez entrevistados desaprovavam cada um deles (1) (2).
O artigo examina primeiro a distância entre as promessas econômicas dos governos e a experiência cotidiana das populações. Em seguida, considera saúde e política climática. A terceira seção trata das universidades públicas e da pesquisa científica, dimensão indispensável para compreender a capacidade de uma sociedade de enfrentar epidemias, desigualdades e desastres ambientais. A quarta discute a relação com organizações civis e movimentos sociais, incluindo as críticas feministas e antirracistas. A quinta emprega a necropolítica como questão analítica para revisitar a pandemia e a proteção de indígenas e quilombolas no Brasil. A seção final examina o que se pode afirmar, com base nas declarações disponíveis, sobre Trump e Milei como referências para a candidatura de Flávio Bolsonaro.
1. A economia prometida e a economia vivida
Trump e Milei chegaram ao poder em circunstâncias distintas. Também não aplicam políticas econômicas idênticas: Trump combina incentivos à atividade empresarial com tarifas e intervenção comercial; Milei atribui centralidade explícita ao ajuste fiscal, à desregulação e à redução de gastos públicos. É possível, contudo, examinar uma questão comum a ambos: até que ponto o desempenho econômico apresentado pelo governo corresponde à experiência das famílias?
Nos Estados Unidos, uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada entre 17 e 20 de setembro de 2026 encontrou 32% de aprovação geral a Trump. Quando a pergunta se restringiu à atuação presidencial sobre o custo de vida, a aprovação foi de apenas 17%. Não se trata da mesma medida: a primeira pergunta avalia o presidente; a segunda, um aspecto determinado de sua gestão. A distância entre elas, porém, indica o peso das despesas cotidianas na avaliação popular (3).
Na Argentina, Milei apresenta a desaceleração da inflação e a disciplina fiscal como resultados de sua administração. Esses resultados precisam ser reconhecidos para que a crítica seja consistente. Ao mesmo tempo, inflação menor significa que os preços passam a subir mais lentamente; não significa que retornam ao patamar anterior ou que o salário recupera automaticamente o poder de compra. Na pesquisa AtlasIntel/Bloomberg, a desaprovação ao presidente coexistia com ampla avaliação negativa da situação econômica. Outros levantamentos identificaram o desemprego e os baixos salários entre as preocupações centrais dos argentinos (2) (4).
Essa distância entre indicadores e condições de vida ajuda a compreender o alcance e os limites de uma orientação mercadocêntrica. O investimento privado e o equilíbrio fiscal podem integrar uma política econômica; não oferecem, por si, critérios suficientes para avaliar saúde, educação, segurança material ou igualdade. Também se coloca uma questão de poder: empresários e investidores dispõem frequentemente de canais diretos para negociar com governos, enquanto trabalhadores, aposentados e usuários dos serviços públicos precisam se organizar coletivamente para fazer suas necessidades serem ouvidas. É nesse sentido, relacionado à distribuição desigual da influência política, que a crítica ao elitismo desses governos pode ser desenvolvida.
2. Saúde pública e crise climática
O conflito entre contenção de despesas e proteção social aparece claramente na saúde. Nos Estados Unidos, a administração Trump estabeleceu exigências de atividade ou trabalho para determinados adultos cobertos pelo Medicaid, programa público de assistência à saúde. A medida modifica condições de acesso ou permanência na cobertura para as pessoas atingidas. Avaliar seus efeitos exige acompanhar quantas conseguem cumprir ou comprovar as exigências e se há perdas de cobertura entre pessoas elegíveis (5).
Na Argentina, o financiamento do hospital infantil Garrahan tornou-se um símbolo nacional da disputa entre ajuste fiscal e continuidade dos serviços de saúde. Profissionais e organizações sociais reivindicaram recursos, enquanto Milei defendeu a disciplina das contas públicas. A questão não se resolve apenas anunciando o valor de uma despesa: é necessário verificar o que sua redução significa para as equipes, para o atendimento e para as crianças e famílias que dependem da instituição (6).
No campo climático, há uma diferença formal decisiva. Trump determinou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, revogou compromissos de financiamento climático internacional e promoveu a expansão da produção de petróleo e gás. O Climate Action Tracker classifica o conjunto das metas, políticas e financiamento climático estadunidenses como criticamente insuficiente em relação ao objetivo de limitar o aquecimento global a 1,5 °C (7) (8). Isso não significa que toda iniciativa climática tenha cessado no país: estados, cidades, universidades e organizações civis também atuam nessa área. Significa que a orientação do governo federal se afastou dos compromissos de mitigação.
A Argentina permaneceu no Acordo de Paris, mas a permanência formal não basta para assegurar seu cumprimento. Segundo o Climate Action Tracker, o governo Milei reduziu a capacidade institucional de planejar e executar a política climática, ao mesmo tempo que incentiva a ampliação da exploração de petróleo e gás, inclusive em Vaca Muerta. A organização classifica a política argentina como altamente insuficiente. O governo também promoveu uma reforma da legislação de proteção das geleiras e áreas periglaciais, defendida por seus apoiadores como incentivo ao investimento mineral e criticada por cientistas e ambientalistas por seus possíveis efeitos sobre reservas de água (9) (10).
Mitigação é a redução das emissões que intensificam o aquecimento. Adaptação é a preparação de pessoas, territórios e serviços para secas, enchentes, calor extremo e outros efeitos já observados. O incentivo a novos investimentos fósseis entra em tensão com a primeira tarefa; a perda de capacidade técnica e administrativa pode comprometer também a segunda. Uma avaliação rigorosa da adaptação precisa verificar planos, orçamento e execução nos diferentes níveis de governo.
3. Universidades públicas: financiamento, pesquisa e autonomia
As universidades fazem parte dessa discussão porque produzem conhecimento sobre epidemias, clima, violência, desigualdade e políticas públicas. Formam profissionais para hospitais, escolas, administração estatal e organizações sociais. Sua capacidade de pesquisar e ensinar com autonomia não interessa apenas à comunidade acadêmica; integra a capacidade da sociedade de conhecer seus problemas e deliberar sobre eles.
Os mecanismos de pressão sobre o ensino superior diferem entre os países. Nos Estados Unidos, grande parte das universidades públicas pertence aos estados e recebe recursos de diversas fontes, inclusive verbas federais para pesquisa. O governo federal não administra diretamente essas instituições, mas pode afetar suas atividades por meio de financiamentos, regras para sua concessão e investigações. Na Argentina, as universidades nacionais dependem mais diretamente do financiamento nacional para sua operação cotidiana. Essa diferença impede tratar os cortes estadunidenses em projetos de pesquisa e o orçamento geral das universidades argentinas como se fossem medidas equivalentes.
Nos Estados Unidos, o governo Trump condicionou relações com instituições universitárias a mudanças em políticas que considera discriminatórias. A Universidade da Virgínia, instituição pública estadual, firmou um acordo pelo qual recuou em iniciativas de diversidade, equidade e inclusão, enquanto o governo federal suspendeu investigações e preservou sua elegibilidade para receber recursos (11). Para seus defensores, a ação combate práticas discriminatórias; para críticos, o emprego da capacidade federal de financiar e investigar pressiona decisões que pertencem à esfera de autonomia da universidade.
O alcance da disputa se estende à pesquisa. O órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos registrou que os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) encerraram mais de 1.800 financiamentos entre fevereiro e junho de 2025, após diretrizes federais relativas a programas de equidade. O número abrange projetos em instituições de diferentes tipos e não deve ser descrito como uma contagem exclusiva das universidades públicas (12). Em setembro de 2026, uma juíza também anulou a diretriz que havia levado ao cancelamento de mais de US$ 600 milhões em verbas para formação de professores, concluindo que a medida era arbitrária. A decisão judicial é relevante, embora não signifique, por si só, que todos os recursos tenham sido imediatamente restituídos (13).
Na Argentina, a disputa universitária tornou-se um dos conflitos mais persistentes do governo Milei. Em 2024, o presidente vetou uma lei destinada a recompor o financiamento universitário diante da inflação, e a Câmara não reuniu os votos necessários para derrubar aquele veto (14). Em 2025, uma nova lei de financiamento e a reação presidencial mobilizaram estudantes, docentes, técnicos e dirigentes universitários. As reivindicações incluíam salários, bolsas e recursos para manter ensino, pesquisa e serviços, entre eles os prestados por hospitais universitários (15).
Em junho de 2026, após mobilizações, o governo anunciou aumentos para salários, funcionamento das universidades e hospitais universitários. O Conselho Interuniversitário Nacional considerou-os um avanço parcial, pois continuava a reivindicar a aplicação integral da legislação de financiamento (16). A disputa também chegou à Justiça: a Suprema Corte rejeitou uma iniciativa do Executivo para evitar a aplicação da lei, enquanto, em agosto, permanecia a controvérsia sobre o cumprimento efetivo das atualizações previstas (17). Não é exato, portanto, afirmar que nada foi concedido; tampouco é suficiente mencionar os aumentos anunciados sem examinar o que a lei determinava e o que as instituições receberam.
Nos dois países, o problema ultrapassa a disputa salarial ou contábil. Quando projetos são encerrados conforme prioridades políticas do Executivo, ou quando universidades não sabem se terão recursos para cumprir suas funções, a produção independente de conhecimento se torna mais vulnerável. Essa conclusão não dispensa a fiscalização do gasto universitário. Exige que prestação de contas e liberdade de pesquisa sejam tratadas conjuntamente, sem converter o financiamento em instrumento para impor concordância ao governo.
4. Sociedade civil, mulheres e enfrentamento do racismo
Sindicatos, organizações ambientais, movimentos feministas, associações comunitárias e entidades antirracistas exercem uma função democrática própria. Elas representam interesses que não se confundem com os do governo, fiscalizam suas decisões e oferecem conhecimento sobre os efeitos concretos das políticas. Divergências entre presidentes e movimentos sociais são esperadas. A preocupação surge quando o poder estatal é utilizado para reduzir a capacidade dessas organizações de negociar, protestar ou participar.
Trump assinou uma ordem que excluiu partes do serviço público federal dos mecanismos de negociação coletiva aplicáveis aos servidores. O governo invocou razões de segurança nacional; a medida restringiu instrumentos de representação dos trabalhadores atingidos (18). Organizações ambientais e comunitárias, por sua vez, recorreram à Justiça contra o encerramento de verbas do programa Solar for All, voltado a ampliar o acesso de famílias de baixa renda à energia solar. Em setembro de 2026, uma juíza concluiu que a agência ambiental federal havia ultrapassado sua autoridade ao cancelar o programa (19).
Na Argentina, sindicatos, aposentados, estudantes e trabalhadores da saúde protagonizaram manifestações contra efeitos do ajuste fiscal. A forma de resposta a esses protestos também passou a integrar o debate público. A Human Rights Watch documentou uso abusivo da força contra uma manifestação de aposentados em 2025 e pediu a revisão do protocolo de segurança empregado pelo governo (20). Isso não autoriza afirmar que todas as manifestações receberam o mesmo tratamento; fornece, porém, um caso documentado para examinar os limites impostos ao direito de protestar.
A crítica feminista identifica nas decisões dos dois governos consequências para a autonomia das mulheres e para a igualdade de gênero. Na Argentina, organizações contestam o enfraquecimento institucional e os cortes em programas de enfrentamento da violência contra mulheres, registrados também pela Human Rights Watch (21). Nos Estados Unidos, organizações de direitos humanos apontam retrocessos em políticas de igualdade e de saúde sexual e reprodutiva durante a administração Trump (22).
No enfrentamento do racismo, atos administrativos oferecem evidência mais sólida que uma leitura baseada apenas na aparência dos ministros. Trump encerrou programas federais de diversidade, equidade e inclusão e revogou, entre outras normas, uma ordem dedicada à justiça ambiental em comunidades minoritárias e de baixa renda. A Casa Branca apresenta essas medidas como combate a preferências ilegais e defesa do mérito; a Human Rights Watch as avalia como enfraquecimento de instrumentos voltados à discriminação estrutural (22) (23).
Milei extinguiu o Instituto Nacional contra a Discriminação, a Xenofobia e o Racismo (INADI). O decreto justificou a decisão com alegações de ineficiência e transferiu formalmente suas atribuições ao Ministério da Justiça (24). Assim, não seria correto dizer que o governo revogou em texto a obrigação de combater o racismo. É necessário investigar se a reorganização preservou pessoal, recursos, canais para denúncias e capacidade de ação, inclusive diante das reivindicações de povos indígenas e outros grupos atingidos pela discriminação.
O racismo pode ser fortalecido não apenas por declarações explícitas, mas pela tolerância diante de denúncias conhecidas e pelo enfraquecimento persistente dos meios de proteção. Essa é uma inferência sobre o possível significado público dos atos e omissões: para vítimas, eles podem sinalizar desamparo; para quem discrimina, menor resistência institucional. Demonstrar a responsabilidade por situações específicas exige sempre identificar quem tinha competência para agir, quais informações estavam disponíveis e o que efetivamente foi feito.
5. Necropolítica, pandemia e proteção desigual no Brasil
Achille Mbembe propôs o conceito de necropolítica para investigar formas de poder que estabelecem quais vidas recebem proteção e quais populações são expostas à morte. Sua elaboração está ligada, entre outros contextos, à escravidão, ao colonialismo e à ocupação territorial (25). Aplicar o conceito a governos atuais não significa atribuir automaticamente a seus dirigentes a intenção individual de matar. Significa investigar como decisões políticas distribuem riscos conhecidos, recursos de proteção e possibilidades reais de sobreviver.
No Brasil, a pandemia de Covid-19 torna essa pergunta incontornável. O país havia registrado mais de 714 mil mortes pela doença até fevereiro de 2025. Esse total não pode ser transformado em uma contagem de óbitos individualmente atribuídos a Jair Bolsonaro. A CPI da Pandemia, contudo, investigou decisões tomadas durante seu governo, e pesquisadores ouvidos pelo Senado apresentaram estimativas de mortes que poderiam ter sido evitadas mediante outra condução das medidas de prevenção e vacinação. A contagem oficial e as estimativas de mortes evitáveis são informações diferentes, ambas relevantes. A dimensão humana continua presente no luto, nas sequelas e nos traumas vividos pelas famílias (26) (27).
A proteção dos povos indígenas e das comunidades quilombolas explicita a distribuição desigual desses riscos. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil recorreu ao Supremo Tribunal Federal na ADPF 709, questionando falhas e omissões no enfrentamento da Covid-19 entre povos indígenas (28). Na ADPF 742, proposta pela CONAQ e outros autores, o STF determinou que o governo federal elaborasse um plano nacional de enfrentamento da pandemia para comunidades quilombolas, com participação de seus representantes e medidas relativas à vacinação (29).
A situação Yanomami acrescenta a essa questão a defesa do território. Um relatório oficial publicado em 2023 examinou omissões de órgãos federais entre 2019 e 2022; o Ministério Público Federal já havia cobrado providências para coibir o garimpo ilegal e retirar invasores das terras indígenas (30) (31). A proteção de um povo não se resume à assistência prestada depois do agravamento da crise: depende também de assegurar território, água, alimentação e condições para que suas instituições e modos de vida continuem existindo.
A necropolítica permite, nesse contexto, perguntar o que revela a necessidade de recorrer à Justiça para obter proteção específica contra ameaças já conhecidas. O conceito orienta a investigação, mas não substitui a apuração: é preciso identificar as obrigações de cada autoridade, as decisões tomadas ou omitidas e seus efeitos. É assim que a crítica à conivência com o racismo se torna mais precisa do que uma acusação baseada apenas em intenção presumida.
6. A escolha brasileira e as referências da candidatura de Flávio Bolsonaro
A relação da candidatura de Flávio Bolsonaro com Trump, Milei e o legado de Jair Bolsonaro exige distinguir fatos de inferências. Milei participou do lançamento da candidatura, em julho de 2026, e manifestou apoio político à continuidade do grupo Bolsonaro. Flávio declarou seu compromisso com o legado do pai (32). Em setembro, Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, apontou expressamente o governo argentino como exemplo para a política econômica brasileira, relacionando essa inspiração à revogação de normas e à redução de impostos (33). O alinhamento político com Trump também é público; isso, por si, não demonstra a intenção de reproduzir cada medida administrativa dos Estados Unidos.
As referências declaradas impõem, portanto, perguntas que a campanha deve responder em termos concretos. Quais normas pretende revogar e com que efeitos sobre trabalhadores e consumidores? Como financiaria o SUS, as universidades e a pesquisa? Qual seria a relação do governo com sindicatos, movimentos de mulheres, organizações antirracistas e entidades ambientais? Como cumpriria compromissos de mitigação e adaptação climática, protegeria territórios indígenas e quilombolas e responderia ao legado da gestão da pandemia? Perguntar isso não equivale a antecipar as ações de um governo que ainda não existe. É exigir que a inspiração política venha acompanhada de compromissos passíveis de avaliação.
Considerações finais
A desaprovação superior a 60% registrada para Trump e Milei em pesquisas de agosto de 2026 não demonstra que todos os entrevistados desaprovem os presidentes pelas mesmas razões. Tampouco permite prever o resultado de políticas semelhantes no Brasil. Ela torna, porém, inadequado apresentar esses governos como experiências de sucesso social inequívoco.
O exame de suas decisões mostra por que universidades públicas e pesquisa científica devem integrar a avaliação democrática de um governo, ao lado da economia, da saúde, do clima e dos direitos humanos. Uma sociedade precisa dessas instituições para identificar riscos, formar profissionais, produzir respostas e também contestar erros do poder público. Quando financiamento e autonomia se tornam objeto de conflito político persistente, a consequência potencial ultrapassa os campi universitários.
Para o debate brasileiro, a pergunta central não é somente quanto Estado cada candidatura promete reduzir ou ampliar. É a quem suas decisões concederiam proteção e voz, quais conhecimentos estariam dispostas a ouvir e quem suportaria os riscos de suas escolhas. As experiências de Trump e Milei, as mobilizações de suas populações e a memória brasileira da pandemia oferecem elementos para fazer essas perguntas antes da eleição.
Referências
(1) MONTGOMERY, David. Donald Trump’s job approval falls to 33%. YouGov, 11 ago. 2026. Disponível em: https://yougov.com/en-us/articles/55344-donald-trumps-job-approval-falls-to-33. Acesso em: 23 set. 2026.
(2) ATLASINTEL; BLOOMBERG. Latam Pulse: Argentina — julio de 2026. Levantamento realizado entre o fim de julho e o início de agosto de 2026. Disponível em: https://cdn.atlasintel.org/39865b10-c10c-43c6-a1e2-e2b864962ffc.pdf. Acesso em: 23 set. 2026.
(3) LANGE, Jason. Trump approval falls to record low of 32% as high costs bite, Reuters/Ipsos poll finds. Reuters, 21 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/us/trump-approval-falls-career-low-32-high-costs-bite-reutersipsos-poll-finds-2026-09-21/. Acesso em: 23 set. 2026.
(4) LORCA, Javier. Los salarios y el empleo son las nuevas preocupaciones de los argentinos, según los sondeos. El País, 21 ago. 2026. Disponível em: https://elpais.com/argentina/2026-08-21/los-salarios-y-el-empleo-son-las-nuevas-preocupaciones-de-los-argentinos-segun-los-sondeos.html. Acesso em: 23 set. 2026.
(5) CENTERS FOR MEDICARE & MEDICAID SERVICES. Medicaid Community Engagement Requirement for Certain Individuals: Interim Final Rule with Comment Period. 1º jun. 2026. Disponível em: https://www.cms.gov/newsroom/fact-sheets/medicaid-community-engagement-requirement-certain-individuals-interim-final-rule-comment-period-cms. Acesso em: 23 set. 2026.
(6) REUTERS. Milei’s vow to veto Argentine public hospital funding risks midterm backlash. 29 ago. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/business/healthcare-pharmaceuticals/mileis-vow-veto-argentine-public-hospital-funding-risks-midterm-backlash-2025-08-29/. Acesso em: 23 set. 2026.
(7) UNITED STATES. THE WHITE HOUSE. Putting America First in International Environmental Agreements. 20 jan. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/putting-america-first-in-international-environmental-agreements/. Acesso em: 23 set. 2026.
(8) CLIMATE ACTION TRACKER. USA: country assessment. Disponível em: https://climateactiontracker.org/countries/usa/. Acesso em: 23 set. 2026.
(9) CLIMATE ACTION TRACKER. Argentina: country assessment. Disponível em: https://climateactiontracker.org/countries/argentina/. Acesso em: 23 set. 2026.
(10) ARGENTINA. Ley 27.804: protección de glaciares. Texto publicado em 8 abr. 2026. Disponível em: https://www.argentina.gob.ar/normativa/nacional/ley-27804-425121/texto. Acesso em: 23 set. 2026.
(11) REUTERS. University of Virginia strikes deal with White House on DEI. 22 out. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/government/university-virginia-roll-back-dei-programs-deal-with-white-house-2025-10-22/. Acesso em: 23 set. 2026.
(12) UNITED STATES. GOVERNMENT ACCOUNTABILITY OFFICE. B-337203: National Institutes of Health—grant terminations. 5 ago. 2025. Disponível em: https://www.gao.gov/products/b-337203. Acesso em: 23 set. 2026.
(13) REUTERS. US judge strikes down Education Department’s anti-DEI grant policy. 17 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/government/us-judge-strikes-down-education-departments-anti-dei-grant-policy-2026-09-17/. Acesso em: 23 set. 2026.
(14) REUTERS. Argentina lawmakers fail to overturn Milei veto of university funding. 9 out. 2024. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/milei-faces-test-argentinas-congress-votes-university-funding-2024-10-09/. Acesso em: 23 set. 2026.
(15) REUTERS. Argentines march to demand increased education, healthcare funding. 17 set. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/argentines-march-demand-increased-education-healthcare-funding-2025-09-17/. Acesso em: 23 set. 2026.
(16) EL PAÍS. Milei cede a más de dos años de reclamos y aumenta el presupuesto universitario. 10 jun. 2026. Disponível em: https://elpais.com/argentina/2026-06-10/milei-cede-a-mas-de-dos-anos-de-reclamos-y-aumenta-el-presupuesto-universitario.html. Acesso em: 23 set. 2026.
(17) EL PAÍS. Ni la ley ni un fallo judicial bastan: Milei se resiste a cumplir con el financiamiento universitario. 13 ago. 2026. Disponível em: https://elpais.com/argentina/2026-08-13/ni-la-ley-ni-un-fallo-judicial-bastan-milei-se-resiste-a-cumplir-con-el-financiamiento-universitario.html. Acesso em: 23 set. 2026.
(18) UNITED STATES. THE WHITE HOUSE. Exclusions from Federal Labor-Management Relations Programs. 27 mar. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/03/exclusions-from-federal-labor-management-relations-programs/. Acesso em: 23 set. 2026.
(19) REUTERS. Trump’s EPA unlawfully terminated $7 billion solar grant program, judge rules. 18 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/legal/litigation/trumps-epa-unlawfully-terminated-7-billion-solar-grant-program-judge-rules-2026-09-18/. Acesso em: 23 set. 2026.
(20) HUMAN RIGHTS WATCH. Argentina: Abusive Response to Protest. 3 abr. 2025. Disponível em: https://www.hrw.org/news/2025/04/03/argentina-abusive-response-protest. Acesso em: 23 set. 2026.
(21) HUMAN RIGHTS WATCH. World Report 2026: Argentina — Events of 2025. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2026/country-chapters/argentina. Acesso em: 23 set. 2026.
(22) HUMAN RIGHTS WATCH. World Report 2026: United States — Events of 2025. Disponível em: https://www.hrw.org/world-report/2026/country-chapters/united-states. Acesso em: 23 set. 2026.
(23) UNITED STATES. THE WHITE HOUSE. Ending Illegal Discrimination and Restoring Merit-Based Opportunity. 21 jan. 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/01/ending-illegal-discrimination-and-restoring-merit-based-opportunity/. Acesso em: 23 set. 2026.
(24) ARGENTINA. Decreto 696/2024: disolución del Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo. Boletín Oficial, 6 ago. 2024. Disponível em: https://www.argentina.gob.ar/normativa/nacional/decreto-696-2024-402470/texto. Acesso em: 23 set. 2026.
(25) MBEMBE, Achille. Necropolitics. Tradução de Libby Meintjes. Public Culture, v. 15, n. 1, p. 11–40, 2003. Disponível em: https://warwick.ac.uk/fac/arts/english/currentstudents/postgraduate/masters/modules/theoryfromthemargins/mbembe_22necropolitics22.pdf. Acesso em: 23 set. 2026.
(26) RADIS COMUNICAÇÃO E SAÚDE. Meia década sem justiça e reparação. Fiocruz, 11 mar. 2025. Disponível em: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/covid-5-anos/meia-decada-sem-justica-e-reparacao/. Acesso em: 23 set. 2026.
(27) SENADO FEDERAL. Pesquisas apontam que 400 mil mortes poderiam ser evitadas; governistas questionam. Senado Notícias, 24 jun. 2021. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2021/06/24/pesquisas-apontam-que-400-mil-mortes-poderiam-ser-evitadas-governistas-questionam. Acesso em: 23 set. 2026.
(28) SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADPF 709: arguição relativa à proteção dos povos indígenas na pandemia. Registro do processo. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/peticaoInicial/verPeticaoInicial.asp?base=ADPF&numProcesso=709. Acesso em: 23 set. 2026.
(29) SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. Supremo determina que Governo Federal elabore plano de combate à Covid-19 para população quilombola. 25 fev. 2021. Disponível em: https://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=461129&ori=1. Acesso em: 23 set. 2026.
(30) BRASIL. MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS E DA CIDADANIA. Relatório preliminar sobre a omissão do MMFDH nos anos 2019–2022: povo Yanomami. 2023. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/arquivos/2023_mdhc_relatorio_omissaommfdh-yanomami-2019-2022_v2/view. Acesso em: 23 set. 2026.
(31) MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL. Notas técnicas e públicas da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão. Inclui nota pública de 8 mar. 2022 sobre garimpo ilegal em terras indígenas. Disponível em: https://www.mpf.mp.br/atuacao/ccr6/documentos-e-publicacoes/notas-tecnicas-publicas. Acesso em: 23 set. 2026.
(32) REUTERS. Flavio Bolsonaro launches Brazil presidential campaign, touts support from Milei, Netanyahu. 25 jul. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/business/media-telecom/flavio-bolsonaro-launches-brazil-presidential-campaign-touts-support-milei-2026-07-25/. Acesso em: 23 set. 2026.
(33) MOURA, Júlia. “Milei é um ótimo exemplo”, diz assessora econômica de Flávio Bolsonaro. Folha de S.Paulo, 14 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/09/milei-e-um-otimo-exemplo-diz-assessora-economica-de-flavio-bolsonaro.shtml. Acesso em: 23 set. 2026.
Usei a IA GPT 5.6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.



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