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Trump, soberania e eleições: da coerção econômica à disputa de sentidos no Brasil

8 de set.
13 min de leitura

Objetivo

Analisar as formas pelas quais as políticas dos governos de Donald Trump interferiram na economia, na soberania e no ambiente democrático brasileiro, com especial atenção ao segundo mandato iniciado em 2025, examinando os efeitos do tarifaço sobre empresas, trabalhadores, comércio exterior e condições macroeconômicas, bem como as pressões exercidas sobre instituições brasileiras. Busca-se também compreender, com auxílio da Teoria das Representações Sociais (TRS), como acontecimentos econômicos e políticos de origem externa são reinterpretados no debate público brasileiro, podendo converter-se em aprovação ou desaprovação do governo e, consequentemente, em comportamento eleitoral.


Resumo

As relações entre Brasil e Estados Unidos sofreram importantes transformações durante os governos de Donald Trump. No primeiro mandato (2017–2021), prevaleceram pressões comerciais combinadas com uma aproximação político-ideológica entre Trump e Jair Bolsonaro. No segundo mandato, iniciado em 2025, a utilização de tarifas, sanções e instrumentos diplomáticos passou a relacionar-se explicitamente a questões internas brasileiras, incluindo processos judiciais envolvendo Jair Bolsonaro. O tarifaço atingiu empresas exportadoras, cadeias produtivas e trabalhadores brasileiros e acrescentou incertezas ao ambiente macroeconômico, embora seus efeitos agregados tenham sido parcialmente compensados pela diversificação dos mercados externos promovida pelo governo Lula. A expansão das relações com China, Índia e outros países dos BRICS, a abertura de mais de 500 mercados e o avanço do acordo Mercosul–União Europeia expressam uma estratégia de diversificação das interdependências. Paradoxalmente, parte das consequências econômicas experimentadas pela população pode ser atribuída eleitoralmente ao próprio governo brasileiro. A Teoria das Representações Sociais contribui para compreender esse processo: acontecimentos não produzem automaticamente significados políticos; são interpretados e disputados em redes sociais, meios de comunicação, grupos políticos e experiências cotidianas. A interferência externa pode, assim, percorrer um circuito que começa na coerção econômica e termina na disputa eleitoral.



Introdução


A interferência de uma potência estrangeira na política de outro país não ocorre necessariamente por meio de uma ação direta sobre urnas, partidos ou sistemas eleitorais. Em economias fortemente interdependentes e sociedades intensamente conectadas por redes digitais, os mecanismos de influência podem ser econômicos, diplomáticos, jurídicos, comunicacionais e simbólicos.


As relações entre os Estados Unidos de Donald Trump e o Brasil constituem um caso particularmente relevante. Durante o primeiro governo Trump, entre 2017 e 2021, combinaram-se medidas protecionistas — como tarifas sobre aço e alumínio — e uma aproximação político-ideológica crescente com Jair Bolsonaro. No segundo governo, iniciado em janeiro de 2025, ocorreu uma mudança qualitativa. Tarifas e sanções passaram a ser justificadas também por avaliações do governo norte-americano sobre decisões tomadas por instituições brasileiras, especialmente pelo Supremo Tribunal Federal (STF), e sobre processos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro (1)(2).


Este artigo examina inicialmente essa mudança entre os dois governos Trump. Em seguida, analisa os efeitos econômicos e sociais do tarifaço sobre o Brasil e a resposta brasileira por meio da diversificação comercial. A quarta seção discute BRICS, China, Índia e o acordo Mercosul–União Europeia como componentes de uma estratégia de redução de vulnerabilidades externas. A quinta aborda a relação entre tarifas, incerteza macroeconômica, inflação, juros e disputa política interna. A sexta incorpora a Teoria das Representações Sociais para compreender como acontecimentos econômicos são transformados em sentidos políticos. Por fim, discute-se como coerção econômica, soberania e formação das preferências eleitorais podem integrar um mesmo circuito, sem que se suponha uma causalidade automática entre elas.


1. De Trump I a Trump II: uma mudança na natureza da pressão sobre o Brasil


O primeiro governo Trump caracterizou-se pela política denominada America First, pelo questionamento do multilateralismo comercial e pela utilização recorrente de tarifas como instrumento de negociação internacional. O Brasil foi atingido pelas medidas norte-americanas sobre aço e alumínio e por ameaças adicionais durante aquele período.


Entretanto, a relação política entre os governos Trump e Bolsonaro foi marcada simultaneamente por forte afinidade ideológica. Bolsonaro buscou estreitar os vínculos com Washington e assumiu posições de política externa excepcionalmente próximas às do governo norte-americano. Tratava-se, portanto, de uma combinação aparentemente contraditória: alinhamento político do governo brasileiro e utilização unilateral, pelos Estados Unidos, de instrumentos econômicos capazes de atingir interesses brasileiros.


No segundo governo Trump, essa contradição adquiriu outra dimensão. Em julho de 2025, a Casa Branca anunciou tarifa adicional de 40% sobre determinados produtos brasileiros, elevando a carga adicional a 50%, e vinculou oficialmente a medida não apenas a questões comerciais, mas também ao tratamento dispensado pelo Estado brasileiro a Jair Bolsonaro e a decisões do Judiciário envolvendo empresas e cidadãos norte-americanos (1).


A questão ultrapassava, portanto, uma divergência comercial. Uma potência estrangeira utilizava sua capacidade econômica para pressionar instituições de outro Estado em relação a decisões tomadas dentro da ordem jurídica desse país.


Essa dimensão tornou-se ainda mais evidente quando o Departamento do Tesouro norte-americano aplicou sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, com fundamento na Global Magnitsky Act (2). Independentemente das avaliações críticas que possam e devam ser feitas sobre decisões do STF, existe uma questão distinta: quem possui legitimidade para revisar decisões judiciais brasileiras e quais limites devem existir para que um Estado estrangeiro utilize instrumentos econômicos contra autoridades de outro país? É nesse ponto que democracia e soberania se encontram.


2. O tarifaço chega às empresas e aos trabalhadores


As tarifas não permaneceram no campo abstrato da diplomacia. Elas chegaram às empresas, às cadeias produtivas, aos municípios e aos trabalhadores.


Estudo do BNDES demonstra que, entre agosto e dezembro de 2025, após a entrada em vigor das tarifas extraordinárias, as exportações brasileiras de bens para os Estados Unidos recuaram 21,3% em comparação com o mesmo período de 2024. No Sul, onde madeira, móveis, calçados, couro, fumo e máquinas apresentam forte exposição ao mercado norte-americano, a redução chegou a 41,7%. Em Minas Gerais, alcançou 43% (3).


O impacto não se restringiu a empresas de capital brasileiro. A organização contemporânea das cadeias globais de valor torna inadequada a imagem simplificada de empresas “americanas” competindo contra empresas “brasileiras”. Multinacionais norte-americanas produzem no Brasil, compram componentes de fornecedores brasileiros, empregam trabalhadores brasileiros e exportam parte dessa produção para os Estados Unidos. Uma tarifa sobre produtos fabricados no Brasil pode, portanto, prejudicar simultaneamente trabalhadores brasileiros, fornecedores nacionais e empresas de capital norte-americano.


Essa circunstância revela uma das contradições do protecionismo contemporâneo: uma política apresentada como proteção da economia norte-americana pode prejudicar cadeias produtivas constituídas pelas próprias empresas dos Estados Unidos.


O impacto agregado, entretanto, foi menor do que a intensidade inicial do choque poderia sugerir. Segundo o BNDES, apesar da queda de 6,6% das exportações brasileiras para os Estados Unidos em 2025, as exportações brasileiras totais aumentaram 3,5%, e o país encerrou o ano com superávit comercial de US$ 68,3 bilhões (3).


O resultado não elimina as perdas. Uma empresa que perdeu seu mercado norte-americano ou um trabalhador demitido não é compensado automaticamente porque outro setor passou a exportar mais para a Ásia. Os efeitos distributivos e territoriais precisam ser distinguidos dos resultados agregados.


3. Do choque externo à diversificação comercial


A diversificação dos mercados brasileiros não começou como reação ao tarifaço. Desde 2023, o governo Lula vinha procurando ampliar relações comerciais e diplomáticas com diferentes regiões. Entretanto, a política de Trump tornou essa estratégia ainda mais relevante.


A lógica pode ser expressa de maneira simples: quanto maior a dependência de um país em relação a um único grande mercado, maior a capacidade desse mercado de utilizar o comércio como instrumento de pressão política.


A resposta não precisa ser o isolamento. Ao contrário, pode consistir na multiplicação das interdependências. Essa estratégia produziu resultados visíveis. A retração do comércio com os Estados Unidos foi acompanhada por redirecionamento parcial das exportações para outros mercados. O BNDES atribui explicitamente à diversificação dos destinos parte importante da capacidade brasileira de absorver o choque tarifário (3).


Os números de 2026 reforçam essa tendência. Entre janeiro e agosto, enquanto as exportações brasileiras para os Estados Unidos diminuíram 9,7% em relação ao mesmo período de 2025, as destinadas à China cresceram aproximadamente 15%, e as destinadas à Índia, 98,4%. No mesmo período, as exportações totais brasileiras aumentaram 10,3% (4).


Isso não significa que China e Índia simplesmente tenham comprado as mesmas mercadorias que deixaram de ser exportadas aos Estados Unidos. Fluxos comerciais, produtos e mercados são diferentes. Os números demonstram, contudo, que a economia brasileira possui alternativas externas que reduzem sua vulnerabilidade diante de uma política unilateral norte-americana.


4. BRICS, Mercosul e União Europeia: autonomia pela diversificação


A política comercial relaciona-se, nesse sentido, à política externa. O fortalecimento das relações com China, Índia e outros integrantes dos BRICS amplia possibilidades econômicas que também possuem consequências geopolíticas.


China e Índia são particularmente importantes porque combinam grandes mercados consumidores, dinamismo econômico e participação no BRICS. O extraordinário crescimento das exportações brasileiras para a Índia em 2026 demonstra que essa aproximação não permanece apenas no campo diplomático (4).


Isso não significa substituir dependência dos Estados Unidos por dependência da China. Uma estratégia de soberania baseada na troca de uma dependência por outra permaneceria vulnerável. A alternativa consiste em diversificar simultaneamente relações com Estados Unidos, China, Índia, União Europeia, Mercosul, África, Oriente Médio e Sudeste Asiático.


O acordo Mercosul–União Europeia deve ser compreendido dentro desse quadro. Sua longa negociação atravessou governos de diferentes orientações políticas, e uma etapa decisiva foi anunciada ainda em 2019, durante o governo Bolsonaro. Seria incorreto, portanto, atribuir sua construção exclusivamente ao governo Lula.


Entretanto, a deterioração da política ambiental brasileira durante o governo Bolsonaro e os conflitos diplomáticos decorrentes contribuíram para criar obstáculos políticos adicionais na Europa. A partir de 2023, a reconstrução da agenda ambiental e da diplomacia multilateral brasileira alterou esse ambiente e permitiu retomar negociações que culminaram na assinatura do acordo em 2026.


A diferença relevante, portanto, não é simplesmente “Estados Unidos versus BRICS” ou “Ocidente versus Sul Global”. Trata-se de uma oposição entre alinhamento preferencial e diversificação pragmática das relações internacionais.


Nesse sentido, soberania não significa autarquia. Significa capacidade de preservar autonomia decisória dentro de uma rede diversificada de interdependências.


5. Tarifas, incerteza, inflação e juros: uma cadeia complexa


As consequências do protecionismo de Trump não podem ser medidas exclusivamente pelo volume de exportações perdido. A política tarifária norte-americana introduziu incerteza na economia internacional. Empresas que desconhecem quais tarifas estarão vigentes nos meses seguintes encontram maiores dificuldades para planejar produção, investimentos, contratos e cadeias de fornecimento.


Para o Brasil, os mecanismos de transmissão incluem comércio exterior, câmbio, expectativas de inflação, investimentos e atividade econômica. Não seria correto afirmar que o tarifaço de Trump determinou a manutenção da taxa Selic em níveis elevados. A política monetária brasileira responde a diversas variáveis, entre elas inflação corrente e esperada, condições fiscais, câmbio, atividade econômica, mercado de trabalho e ambiente internacional.


Entretanto, também seria inadequado excluir o choque externo da explicação. Tarifas e imprevisibilidade comercial acrescentam incerteza cambial e macroeconômica justamente em um ambiente no qual o Banco Central precisa avaliar as condições necessárias para reduzir os juros.


A questão torna-se politicamente relevante porque parte da oposição brasileira apresenta uma explicação muito mais simples: gastos públicos provocariam deterioração fiscal, que produziria inflação e obrigaria o Banco Central a manter juros elevados.


A situação fiscal é uma variável relevante. O problema surge quando ela é convertida em explicação monocausal e fatores internacionais desaparecem da narrativa.


Produz-se então um paradoxo: forças políticas brasileiras ideologicamente próximas a Trump podem apoiar ou relativizar políticas norte-americanas que prejudicam setores produtivos brasileiros e, simultaneamente, responsabilizar exclusivamente o governo Lula pelas dificuldades econômicas que resultam de uma combinação de fatores internos e externos.


6. Do fato econômico ao sentido político: a contribuição da TRS


É nesse ponto que a Teoria das Representações Sociais oferece uma contribuição particularmente fecunda. Desde Moscovici, as representações sociais podem ser compreendidas como formas socialmente elaboradas de conhecimento que possibilitam aos indivíduos e grupos interpretar acontecimentos, comunicar-se sobre eles e posicionar-se no mundo social (5). Jodelet enfatiza seu caráter simultaneamente cognitivo, social e prático: não se trata simplesmente de opiniões individuais, mas de conhecimentos construídos e compartilhados socialmente (6).


Consequentemente, um acontecimento econômico não transporta consigo uma interpretação política pronta. Uma demissão provocada pela perda de um mercado externo constitui um acontecimento. Mas o significado atribuído a ela pode variar radicalmente. O trabalhador pode responsabilizar Trump, Lula, o empresário, o Banco Central, os impostos, a globalização ou “os políticos”. Entre acontecimento e interpretação existe um campo social de produção de sentidos.


Nesse campo atuam televisão, jornais, plataformas digitais, influenciadores, partidos, igrejas, sindicatos, empresários, grupos familiares e redes de amizade. A experiência individual é continuamente interpretada mediante representações compartilhadas.


É possível, portanto, distinguir fato e sentido sem separá-los. O tarifaço constitui um fato econômico e político verificável. Seus efeitos sobre determinados setores também podem ser empiricamente investigados. Mas a transformação desses acontecimentos em aprovação ou desaprovação presidencial depende de processos de representação social.


7. Por que Lula pode ser responsabilizado por um choque produzido no exterior?


Essa perspectiva ajuda a compreender um aparente paradoxo eleitoral. Pesquisa Quaest divulgada em 7 de setembro de 2026 registra 50% de desaprovação ao governo Lula e 43% de aprovação. Entretanto, apenas 38% classificam o governo negativamente, enquanto 34% o avaliam positivamente e 25% como regular (7).


A diferença já demonstra que desaprovação do presidente e avaliação das políticas governamentais não são fenômenos idênticos. Além disso, o eleitor experimenta a economia principalmente por meio do cotidiano. Preço dos alimentos, aluguel, prestação, cartão de crédito, juros, emprego e renda são experiências imediatamente perceptíveis. A abertura de centenas de mercados externos, a diversificação comercial, a expansão das relações com Índia e China ou um acordo entre Mercosul e União Europeia são acontecimentos importantes, mas seus benefícios são difusos e dificilmente atribuídos diretamente à ação governamental.


Surge uma assimetria cognitiva e comunicacional. Quando um alimento aumenta de preço, o consumidor percebe a mudança naquela semana. Quando a abertura de um mercado asiático impede que determinada cadeia produtiva perca milhares de empregos, o trabalhador que permaneceu empregado dificilmente experimenta isso como um acontecimento.


Os custos são frequentemente visíveis e individualizados; os benefícios da prevenção de perdas podem ser invisíveis e coletivos.


A oposição política pode ocupar esse espaço interpretativo oferecendo explicações simples para fenômenos complexos. A fórmula “o governo gasta demais e por isso os juros são altos” possui uma vantagem comunicacional sobre uma explicação envolvendo política fiscal, expectativas, câmbio, política monetária norte-americana, tarifas, comércio internacional, inflação e decisões autônomas do Banco Central.


Não se conclui daí que a primeira afirmação seja necessariamente falsa. Conclui-se apenas que a realidade macroeconômica é mais complexa do que a narrativa política que procura representá-la.


8. Da coerção econômica à disputa eleitoral


A partir dessas relações, torna-se possível propor um circuito interpretativo:


protecionismo norte-americano → tarifas → perda de mercados → efeitos sobre empresas e empregos → incerteza econômica → câmbio e expectativas → inflação e política monetária → crédito, renda e consumo → experiência cotidiana → representações sociais → atribuição de responsabilidades → aprovação/desaprovação → comportamento eleitoral.


As relações entre essas etapas não são lineares nem deterministas. Existem retroações, mediações e efeitos contraditórios. A diversificação comercial constitui uma dessas retroações. A tarifa reduz determinado mercado; empresas e governo procuram outros mercados; a dependência original diminui; a capacidade futura de coerção do país que impôs a tarifa também pode diminuir.

Outro efeito de retroação ocorre politicamente. Uma medida destinada a pressionar o governo brasileiro pode produzir reação nacionalista e fortalecer o discurso de defesa da soberania. Em outras circunstâncias, porém, seus efeitos econômicos podem ser atribuídos ao governo atingido pela pressão e enfraquecê-lo eleitoralmente.


A interferência econômica externa pode, portanto, produzir consequências eleitorais internas sem que seja necessário afirmar que cada consequência tenha sido planejada pelo agente externo.


Essa distinção é fundamental. Há evidências documentais de que o governo Trump vinculou medidas econômicas de 2025 à situação política e judicial brasileira (1). Isso permite falar em utilização de instrumentos econômicos para pressionar instituições brasileiras. Não permite concluir automaticamente que todo efeito inflacionário, toda perda de emprego ou toda variação na aprovação de Lula tenha sido intencionalmente produzida para alterar as eleições de 2026.


A complexidade está justamente na emergência de consequências que ultrapassam as intenções iniciais dos atores.


9. Soberania como capacidade de diversificar interdependências


A experiência brasileira sugere também a necessidade de atualizar o conceito de soberania. Em uma economia mundial interdependente, nenhum país de porte médio pode compreender soberania como independência absoluta. Brasil e Estados Unidos dependem de mercados, investimentos, tecnologia, matérias-primas, cadeias produtivas e instituições internacionais.


A questão fundamental passa a ser o grau de vulnerabilidade existente dentro dessas relações.

Quando uma potência consegue utilizar unilateralmente o acesso ao seu mercado para tentar modificar decisões judiciais, políticas ou institucionais de outro Estado, uma relação de interdependência transforma-se potencialmente em instrumento de coerção.


A resposta estratégica não precisa consistir em rompimento. Pode consistir na diversificação. Sob essa perspectiva, a expansão das relações brasileiras com China e Índia, o fortalecimento dos BRICS, a abertura de novos mercados e o acordo Mercosul–União Europeia integram uma mesma estratégia potencial de redução de vulnerabilidade.


Quanto maior a diversidade das interdependências econômicas brasileiras, menor tende a ser a capacidade de uma única potência transformar dependência econômica em pressão política.


Considerações finais


A interferência do governo Trump sobre o Brasil não pode ser reduzida ao tarifaço, assim como o tarifaço não pode ser compreendido apenas como política comercial.


Durante o segundo mandato de Trump, instrumentos econômicos e diplomáticos foram explicitamente associados pelo governo norte-americano a processos políticos e judiciais internos brasileiros. A imposição de tarifas e sanções aproximou economia, política externa, democracia e soberania.


Seus efeitos, entretanto, não seguiram trajetória linear. Empresas perderam mercados e determinados trabalhadores e regiões sofreram consequências importantes, mas a economia brasileira também reagiu. A diversificação das exportações, o crescimento das relações com China e Índia e a ampliação de mercados contribuíram para reduzir os efeitos agregados do choque. É precisamente nessa combinação entre vulnerabilidade e capacidade de resposta que a soberania deve ser analisada.

A dimensão eleitoral acrescenta outra camada de complexidade. A população não experimenta diretamente conceitos como geopolítica, balança comercial ou diversificação de mercados. Experimenta preços, salários, emprego, crédito e juros. A transformação dessas experiências em avaliações políticas ocorre através de processos sociais de interpretação.


A Teoria das Representações Sociais permite compreender por que a origem objetiva de um problema não determina automaticamente quem será considerado responsável por ele. Acontecimento, experiência, representação e comportamento político integram um circuito no qual mídia, redes sociais, partidos, lideranças, grupos sociais e experiências pessoais disputam a atribuição de causas e responsabilidades.


Por isso, é perfeitamente possível que uma pressão econômica estrangeira prejudique empresas e trabalhadores brasileiros e que parte desses efeitos seja posteriormente atribuída eleitoralmente ao governo brasileiro que resistiu à pressão.


Também é possível o movimento inverso: quando a população interpreta a pressão estrangeira como agressão à soberania nacional, a tentativa de enfraquecer determinado governo pode fortalecê-lo.


Não existe, portanto, uma passagem automática do fato ao voto. Entre ambos encontra-se a produção social do sentido.


É justamente aí que economia, soberania, democracia e Teoria das Representações Sociais se encontram. A interferência externa contemporânea não precisa terminar na fronteira nem atingir diretamente a urna. Ela pode atravessar mercados, empresas, empregos, expectativas, instituições e sistemas de comunicação até ingressar no campo das representações sociais. Nesse campo ocorre uma segunda disputa: não mais apenas sobre o que aconteceu, mas sobre o que aconteceu significa, quem o provocou e quem deve responder politicamente por suas consequências.


Referências

(1) THE WHITE HOUSE. Fact Sheet: President Donald J. Trump Addresses Threats to the United States from the Government of Brazil. Washington, 30 jul. 2025.

(2) UNITED STATES DEPARTMENT OF THE TREASURY. Treasury Sanctions Alexandre de Moraes. Washington, 30 jul. 2025.

(3) BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL – BNDES. Impactos do tarifaço na balança comercial brasileira. Estudo Especial n. 66. Rio de Janeiro, 10 mar. 2026.

(4) BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Balança Comercial Brasileira: resultados consolidados – agosto de 2026. Brasília: MDIC, 2026.

(5) MOSCOVICI, Serge. La psychanalyse, son image et son public. Paris: Presses Universitaires de France, 1961.

(6) JODELET, Denise (org.). Les représentations sociales. Paris: Presses Universitaires de France, 1989.

(7) QUAEST. Pesquisa Genial/Quaest – avaliação do governo e cenário eleitoral. Pesquisa realizada em setembro de 2026, registro TSE BR-01720/2026. Resultados divulgados em 7 set. 2026.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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