A extrema direita na era da comunidade de destino: reflexões a partir de Cas Mudde e Edgar Morin
- Sérgio Luís Boeira
- 12 de jul.
- 13 min de leitura
Introdução
Este ensaio procura colocar em diálogo duas contribuições contemporâneas que operam em níveis distintos, porém complementares, de compreensão da realidade. Cas Mudde tornou-se uma das principais referências da ciência política ao analisar a extrema direita contemporânea como fenômeno ideológico, eleitoral e institucional, destacando o nativismo, o autoritarismo e o populismo como seus componentes centrais. Edgar Morin, por sua vez, propõe uma reflexão mais ampla sobre a condição histórica da humanidade diante da policrise planetária e da emergência de uma comunidade de destino terrestre. O objetivo deste texto não é comparar criticamente esses autores nem sugerir que um complete ou substitua o outro, mas explorar as possibilidades de diálogo entre suas perspectivas, inspirando-se no princípio moriniano de distinguir sem separar e unir sem reduzir. A hipótese aqui defendida é que a ascensão contemporânea da extrema direita adquire um significado histórico mais profundo quando situada no contexto da crescente interdependência planetária e dos desafios colocados à construção de formas de governança compatíveis com uma humanidade simultaneamente una e diversa.

Vivemos uma época singular. Nunca a humanidade compartilhou tantos problemas comuns e, ao mesmo tempo, nunca pareceu tão dividida quanto às formas de enfrentá-los. As mudanças climáticas, as pandemias, a proliferação nuclear, a degradação acelerada da biodiversidade, a inteligência artificial, a criminalidade transnacional, as migrações internacionais, as crises financeiras globais e o crescimento das desigualdades sociais constituem fenômenos distintos, mas profundamente interdependentes. Nenhum deles pode ser compreendido, muito menos resolvido, exclusivamente no âmbito dos Estados nacionais. A política continua organizada predominantemente segundo fronteiras nacionais, enquanto os principais desafios da humanidade já adquiriram escala planetária.
Essa transformação histórica levou Edgar Morin a desenvolver um dos conceitos mais fecundos de sua obra: a comunidade de destino terrestre. Não se trata de uma utopia cosmopolita nem da defesa de um governo mundial. Trata-se do reconhecimento de uma condição objetiva da humanidade. Pela primeira vez em sua história, os seres humanos passaram a compartilhar riscos, oportunidades e responsabilidades que ultrapassam definitivamente as fronteiras nacionais. A mundialização integrou economias, tecnologias, ecossistemas e sistemas de comunicação, tornando evidente uma interdependência que nenhuma sociedade pode ignorar. Entretanto, essa comunidade de destino ainda convive com instituições políticas, formas de pensamento e culturas de poder construídas para uma realidade histórica muito diferente.
É precisamente nesse contexto que se observa um fenômeno aparentemente contraditório: a expansão da extrema direita em diferentes regiões do mundo. Nas últimas décadas, partidos e lideranças identificados com o nacionalismo radical, o autoritarismo e o populismo conquistaram crescente influência política, alterando agendas públicas, reconfigurando sistemas partidários e desafiando instituições democráticas em diversas sociedades. Trata-se de um processo suficientemente amplo para ultrapassar explicações baseadas exclusivamente em circunstâncias nacionais ou conjunturas eleitorais.
Entre os estudiosos desse fenômeno, Cas Mudde consolidou-se como uma das principais referências internacionais. Sua contribuição consiste em oferecer uma tipologia rigorosa da extrema direita contemporânea, distinguindo suas diferentes correntes e identificando seus principais componentes ideológicos. Sua análise permite compreender como esses movimentos se organizam, quais valores mobilizam e por que deixaram de ocupar posições marginais para se tornar atores permanentes da política contemporânea. Ao fazê-lo, Mudde oferece uma contribuição decisiva para a ciência política comparada.
Entretanto, a questão que orienta este ensaio situa-se em outro plano. A contribuição de Mudde explica como a extrema direita se estrutura e se expande. Edgar Morin convida-nos a formular uma pergunta diferente: em que contexto histórico esse fenômeno adquire tamanha relevância? Não se trata de substituir uma perspectiva pela outra. Ao contrário, trata-se de reconhecer que ambas operam em níveis distintos de inteligibilidade. Enquanto Mudde analisa um importante fenômeno da política contemporânea, Morin procura compreender as transformações da própria condição histórica da humanidade.
Essa distinção é fundamental. O pensamento complexo não pretende dissolver as disciplinas nem substituir as análises especializadas por uma teoria geral da sociedade. Sua proposta consiste em religar conhecimentos produzidos em diferentes campos, contextualizando-os sem reduzi-los e articulando-os sem confundi-los. É precisamente nesse espírito que este ensaio aproxima um cientista político e um pensador da complexidade. A intenção não é produzir uma síntese entre ciência política e epistemologia, mas explorar um diálogo que permita ampliar a compreensão de ambos.
A hipótese que orienta esse texto é relativamente simples, embora suas implicações sejam amplas. A ascensão contemporânea da extrema direita coincide historicamente com a consolidação de uma condição inédita da humanidade: a passagem para uma comunidade de destino planetária. Essa coincidência talvez não seja casual. Quanto mais a realidade objetiva se torna interdependente, mais importantes parecem tornar-se debates sobre soberania, identidade, pertencimento, cooperação internacional e governança. O problema central do século XXI talvez já não consista em escolher entre soberania nacional e governança planetária. A questão decisiva passa a ser outra: como articular diferentes escalas de solidariedade, responsabilidade e decisão política numa humanidade que passou a compartilhar problemas comuns sem deixar de ser profundamente diversa?
É essa questão, mais do que a simples comparação entre dois autores, que orienta a reflexão aqui proposta.
1. Cas Mudde e a anatomia política da extrema direita
Entre os pesquisadores dedicados ao estudo da extrema direita contemporânea, poucos alcançaram o reconhecimento internacional de Cas Mudde. Nas últimas décadas, seus trabalhos contribuíram decisivamente para conferir maior precisão conceitual a um campo frequentemente marcado por generalizações e ambiguidades terminológicas. Expressões como "fascismo", "populismo", "ultradireita", "extrema direita" ou "conservadorismo" costumam aparecer indistintamente tanto na imprensa quanto no debate político. Mudde procura justamente evitar esse tipo de simplificação, construindo uma tipologia capaz de distinguir fenômenos que frequentemente são confundidos.
Seu ponto de partida consiste em reconhecer que a extrema direita contemporânea não representa simplesmente uma sobrevivência do fascismo europeu do século XX. Embora mantenha alguns vínculos históricos com experiências anteriores, ela desenvolveu características próprias e passou por sucessivas transformações desde o final da Segunda Guerra Mundial. Em vez de interpretar esses movimentos como anomalias passageiras, Mudde demonstra que eles se consolidaram como componentes permanentes das democracias contemporâneas, influenciando governos, sistemas partidários e debates públicos muito além de sua representação parlamentar.
Uma de suas principais contribuições foi distinguir cuidadosamente a direita radical da direita ultrarradical. A primeira aceita formalmente a democracia eleitoral, mas contesta elementos centrais da democracia liberal, como a proteção das minorias, o pluralismo e determinados mecanismos institucionais de limitação do poder. A segunda rejeita a própria democracia, defendendo formas explicitamente autoritárias ou totalitárias de organização política. Essa distinção permite compreender que a extrema direita contemporânea constitui um universo bastante heterogêneo, no qual diferentes correntes compartilham algumas características fundamentais sem, contudo, apresentarem projetos políticos idênticos.
No caso da direita radical populista, Mudde identifica três componentes ideológicos básicos que aparecem, em diferentes combinações, na maior parte dos movimentos contemporâneos: nativismo, autoritarismo e populismo.
O nativismo talvez seja o conceito mais original de sua análise. Mais do que simples nacionalismo, ele combina a valorização da identidade nacional com a ideia de que o Estado deve pertencer prioritariamente aos considerados nativos, restringindo a influência de grupos percebidos como externos ou culturalmente incompatíveis. Trata-se de uma concepção de pertencimento político que tende a privilegiar a homogeneidade nacional diante da diversidade social e cultural.
O autoritarismo, por sua vez, manifesta-se na valorização da ordem, da disciplina, da autoridade e da punição como fundamentos da estabilidade política. Não implica necessariamente a rejeição imediata das eleições ou das instituições democráticas, mas tende a relativizar direitos individuais e mecanismos de controle do poder quando considerados obstáculos à preservação da ordem.
Já o populismo é compreendido por Mudde como uma ideologia de baixa densidade, estruturada pela oposição moral entre "o povo puro" e "a elite corrupta". Segundo essa perspectiva, a política legítima deveria expressar diretamente a vontade popular, frequentemente apresentada como homogênea e moralmente superior às instituições representativas, aos especialistas, aos meios de comunicação ou às burocracias estatais.
A combinação desses três elementos oferece uma explicação consistente para a diversidade observada entre partidos e lideranças contemporâneas. Ao invés de reduzir a extrema direita a um único traço ideológico, Mudde mostra que ela constitui uma família política relativamente flexível, capaz de adaptar seus discursos às diferentes realidades nacionais sem perder sua identidade básica.
Outro mérito importante de sua abordagem consiste em evitar explicações monocausais. A ascensão da extrema direita não é atribuída exclusivamente às crises econômicas, às transformações culturais, à imigração ou às mudanças tecnológicas. Trata-se de um fenômeno complexo, cuja expansão resulta da interação entre fatores econômicos, sociais, culturais, institucionais e históricos. Essa cautela metodológica constitui uma das razões pelas quais sua obra se tornou referência obrigatória na ciência política comparada.
Entretanto, como ocorre com toda investigação científica, a própria precisão de sua abordagem decorre de uma delimitação rigorosa do objeto de estudo. O interesse de Mudde concentra-se na extrema direita enquanto fenômeno político: seus partidos, suas ideologias, seus eleitores, suas organizações e suas estratégias de atuação. Seu propósito não consiste em elaborar uma teoria da sociedade contemporânea nem interpretar a transformação histórica da humanidade provocada pela mundialização.
Essa delimitação não representa uma limitação da obra, mas precisamente uma de suas maiores qualidades. Explicar bem um fenômeno exige definir cuidadosamente o nível de análise em que ele será observado. É justamente por isso que a contribuição de Mudde permanece plenamente compatível com outra forma de investigação, desenvolvida em escala distinta por Edgar Morin.
Enquanto Mudde procura compreender a reorganização da extrema direita no interior das democracias contemporâneas, Morin dirige sua atenção para uma questão mais ampla: a transformação da própria condição histórica da humanidade diante da emergência de uma comunidade de destino terrestre. Em vez de competir entre si, essas duas perspectivas podem ser compreendidas como momentos distintos de um mesmo esforço de compreensão da realidade.
2. Edgar Morin e a comunidade de destino terrestre
Se Cas Mudde procura compreender uma importante transformação da política contemporânea, Edgar Morin volta sua atenção para uma transformação ainda mais profunda: a mudança da própria condição histórica da humanidade. Seu ponto de partida não é uma ideologia, um partido ou um sistema político específico, mas a constatação de que, nas últimas décadas, a mundialização produziu um novo contexto civilizatório, no qual os destinos das sociedades humanas tornaram-se progressivamente interdependentes.
Essa constatação atravessa praticamente toda a obra madura de Morin, mas ganha especial densidade em Terra-Pátria e em seus escritos posteriores sobre a policrise e a governança do destino comum. Segundo o autor, a humanidade entrou numa fase inédita de sua história. Pela primeira vez, os principais problemas que condicionam sua sobrevivência deixaram de ser predominantemente nacionais para adquirir alcance planetário. As mudanças climáticas, a degradação dos ecossistemas, a perda acelerada da biodiversidade, as pandemias, os riscos nucleares, as tecnologias digitais, as migrações internacionais e a crescente interdependência econômica constituem processos distintos, mas profundamente articulados. Nenhum deles respeita fronteiras políticas; todos produzem consequências que ultrapassam a capacidade de ação isolada dos Estados nacionais.
É nesse contexto que Morin desenvolve a ideia de comunidade de destino terrestre. Trata-se de um conceito simultaneamente descritivo e normativo. Descritivo, porque reconhece uma realidade objetiva: a humanidade passou a compartilhar riscos e responsabilidades comuns. Normativo, porque essa nova condição exige uma transformação correspondente das formas de pensar, de agir e de organizar a vida coletiva. A comunidade de destino não é um projeto voluntarista nem um ideal cosmopolita abstrato; ela decorre da própria evolução histórica da mundialização.
Entretanto, essa nova realidade convive com instituições, formas de pensamento e culturas políticas herdadas de uma época em que os problemas fundamentais permaneciam relativamente circunscritos aos territórios nacionais. A humanidade tornou-se objetivamente interdependente, mas continua pensando e governando como se essa interdependência fosse secundária. Daí decorre uma das principais tensões analisadas por Morin: a distância crescente entre a complexidade do mundo contemporâneo e a insuficiência das formas tradicionais de conhecimento e de organização política para compreendê-lo.
Essa reflexão conduz ao conceito de policrise, cada vez mais presente em seus escritos recentes. Ao contrário da ideia de uma grande crise única, a policrise designa um conjunto de crises relativamente autônomas que se alimentam reciprocamente. A crise climática intensifica deslocamentos populacionais; estes produzem tensões políticas; as tensões dificultam a cooperação internacional; a ausência de cooperação agrava os problemas ambientais; estes aprofundam desigualdades sociais, que, por sua vez, alimentam novas instabilidades políticas. Não existe uma única crise central, mas uma rede dinâmica de interações que torna a realidade cada vez mais difícil de compreender por meio de abordagens fragmentadas.
É precisamente diante dessa situação que Morin propõe aquilo que denomina reforma do pensamento. Diferentemente do que frequentemente se afirma, essa proposta não consiste na elaboração de uma nova teoria geral da sociedade nem na substituição das disciplinas científicas por um conhecimento unificado. Ao contrário, Morin insiste que os saberes especializados são indispensáveis. O problema surge quando permanecem isolados, incapazes de dialogar entre si e de contextualizar seus próprios objetos. O pensamento complexo nasce justamente da necessidade de religar conhecimentos produzidos em diferentes campos, preservando sua autonomia sem perder de vista o contexto mais amplo em que se inserem.
Essa perspectiva possui consequências importantes para a política. Se os problemas fundamentais da humanidade tornaram-se interdependentes, também as respostas políticas precisam adquirir novas formas de articulação. Morin não propõe um governo mundial nem a dissolução das soberanias nacionais. Sua preocupação dirige-se à construção de formas de governança do destino comum, capazes de coordenar diferentes escalas de decisão — local, nacional, regional e planetária — preservando simultaneamente a diversidade das sociedades humanas e a consciência de sua crescente interdependência.
É nesse ponto que emerge um dos princípios mais característicos de seu pensamento: a dialógica entre unidade e diversidade. A comunidade de destino terrestre não elimina a pluralidade das nações, das culturas, das religiões ou dos regimes políticos. Ao contrário, torna essa diversidade ainda mais preciosa. O desafio consiste justamente em construir formas de cooperação capazes de preservar as diferenças sem perder de vista aquilo que passou a ser comum. A unidade não deve produzir homogeneização; a diversidade não pode conduzir à fragmentação. Ambas precisam ser pensadas conjuntamente.
Essa compreensão possui também uma dimensão epistemológica. O pensamento complexo não procura fundir saberes nem eliminar suas especificidades. Seu objetivo consiste em distinguir sem separar e unir sem reduzir, reconhecendo que diferentes níveis de análise podem ser simultaneamente legítimos e necessários. Uma investigação sobre partidos políticos, por exemplo, não responde às mesmas perguntas formuladas por uma reflexão sobre a condição histórica da humanidade. Ambas, entretanto, podem dialogar.
É precisamente essa possibilidade de diálogo que interessa ao presente ensaio. A contribuição de Morin não consiste em oferecer uma nova explicação da extrema direita. Sua preocupação dirige-se a outro problema: compreender a época em que vivemos. Mas é justamente essa mudança de escala que permite situar a análise de Cas Mudde num horizonte mais amplo, sem alterar sua identidade como ciência política. O que está em jogo não é a substituição de uma perspectiva por outra, mas a possibilidade de religar dois níveis distintos de compreensão da realidade contemporânea.
3. A extrema direita na era da comunidade de destino
Até aqui procurei apresentar duas contribuições que operam em planos distintos de análise. Cas Mudde oferece uma interpretação rigorosa da extrema direita como fenômeno político contemporâneo. Edgar Morin procura compreender a transformação da própria condição histórica da humanidade diante da emergência de uma comunidade de destino terrestre. Nenhuma dessas perspectivas invalida a outra. Ao contrário, elas parecem tornar-se ainda mais fecundas quando colocadas em diálogo.
A contribuição de Mudde permite compreender um importante ator político do século XXI. A de Morin permite compreender o cenário histórico em que esse ator atua. Essa mudança de escala modifica significativamente o horizonte da reflexão.
Ao longo da história moderna, a política organizou-se fundamentalmente em torno dos Estados nacionais. A soberania, as fronteiras, os sistemas jurídicos e as instituições representativas constituíram os principais referenciais da vida política. Mesmo quando surgiram organizações internacionais, estas permaneceram fortemente condicionadas pela lógica interestatal. Essa arquitetura institucional correspondeu, em grande medida, aos problemas predominantes da época.
Entretanto, a mundialização alterou profundamente esse quadro. As mudanças climáticas não respeitam fronteiras; pandemias espalham-se em poucas semanas; os fluxos financeiros atravessam continentes em segundos; redes digitais conectam bilhões de pessoas; a degradação da biodiversidade compromete ecossistemas planetários; conflitos regionais podem produzir impactos globais sobre energia, alimentos e cadeias produtivas. A realidade tornou-se progressivamente transnacional, enquanto grande parte das instituições políticas continua organizada segundo uma lógica predominantemente nacional.
É justamente nesse contexto que a análise de Mudde adquire um significado mais amplo. Os conceitos de nativismo, autoritarismo e populismo descrevem formas específicas de organização política diante dessa nova realidade histórica. O nativismo reafirma a comunidade nacional como espaço privilegiado de pertencimento; o autoritarismo enfatiza a ordem e a autoridade como respostas à insegurança; o populismo opõe "o povo" às elites e frequentemente estende essa crítica a instituições internacionais, organismos multilaterais e especialistas. Esses elementos não explicam toda a política contemporânea, mas ajudam a compreender por que determinados setores da sociedade encontram nesses movimentos respostas convincentes para um mundo percebido como cada vez mais incerto.
Sob a perspectiva de Morin, contudo, surge uma questão adicional. A comunidade de destino terrestre não elimina as identidades nacionais nem dissolve as soberanias estatais. Ela apenas torna evidente que essas dimensões, embora continuem fundamentais, já não são suficientes para enfrentar problemas cuja natureza é planetária. A política passa então a confrontar uma tensão inédita: preservar a diversidade das comunidades políticas e, simultaneamente, construir formas de cooperação compatíveis com a crescente interdependência da humanidade.
Talvez seja precisamente essa tensão que ajuda a compreender parte do êxito contemporâneo da extrema direita. Não porque ela constitua uma simples reação irracional à mundialização, nem porque represente uma continuidade automática dos fascismos do século XX. Seu crescimento pode ser interpretado também como uma resposta política à insegurança produzida por um mundo cujas transformações ultrapassam cada vez mais a capacidade de controle dos Estados nacionais. A reafirmação da identidade nacional, da soberania e do pertencimento oferece, para muitos grupos sociais, referências relativamente estáveis diante de processos econômicos, tecnológicos, culturais e ambientais percebidos como difíceis de controlar.
Essa interpretação permite evitar dois equívocos frequentes. O primeiro consiste em reduzir a ascensão da extrema direita a fatores exclusivamente econômicos ou culturais. O segundo consiste em atribuir-lhe um significado puramente moral, como se bastasse qualificá-la como democrática ou antidemocrática para compreender sua expansão. O diálogo entre Mudde e Morin sugere outra possibilidade: compreender a extrema direita como um dos modos pelos quais diferentes sociedades procuram responder às profundas transformações produzidas pela mundialização.
Isso não significa que essa resposta seja suficiente para enfrentar os desafios da comunidade de destino terrestre. Ao contrário. É justamente nesse ponto que emerge uma das principais questões políticas do século XXI.
O problema central já não consiste em escolher entre soberania nacional e governança da comunidade de destino. Essa oposição simplifica excessivamente uma realidade muito mais complexa. A questão decisiva passa a ser outra: como articular diferentes escalas de solidariedade, responsabilidade e decisão política numa humanidade que passou a compartilhar problemas comuns sem deixar de ser profundamente diversa?
Essa pergunta modifica inteiramente o horizonte da reflexão. Ela desloca o debate da contraposição entre nacionalismo e globalização para a busca de formas de coordenação capazes de preservar simultaneamente autonomia e cooperação. A comunidade de destino não exige homogeneização política nem uniformidade cultural. Exige, isso sim, instituições capazes de coordenar responsabilidades compartilhadas entre sociedades que permanecem distintas em sua história, em suas culturas, em seus regimes políticos e em seus projetos de desenvolvimento.
Nessa perspectiva, a categoria central deixa de ser simplesmente soberania ou multilateralismo. Torna-se articulação. Articulação entre escalas de governo, entre saberes especializados, entre instituições nacionais e organismos internacionais, entre unidade e diversidade. Em termos morinianos, trata-se menos de substituir uma forma de organização por outra do que de aprender a pensar conjuntamente realidades que durante muito tempo foram tratadas como alternativas excludentes.
Talvez seja essa a principal contribuição do diálogo aqui proposto. Cas Mudde explica de maneira convincente a lógica interna da extrema direita contemporânea. Edgar Morin ajuda-nos a compreender por que essa lógica adquire tamanha importância precisamente numa época em que a humanidade descobre, talvez pela primeira vez de maneira plenamente consciente, que passou a compartilhar um destino comum.
Para expressar essa conclusão de uma forma sintética, penso que a humanidade tornou-se uma comunidade de destino antes de tornar-se uma comunidade de consciência.
P.S.: Usei IA Chat GPT 5.5 no levantamento de informações e articulação de argumentos, além de Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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