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Parlamento decaído e juventude contraditória: poder sem responsabilidade, ideologia sem coerência

Objetivo


Nesse artigo busco evidenciar, a partir de dados comparáveis de pesquisas recentes, que o Poder Legislativo brasileiro é hoje o mais degradado dos três poderes — em produtividade, decoro e uso fisiológico do poder —, e que essa degradação ajuda a explicar o comportamento estratégico do centro-direita na corrida presidencial de 2026 e a contradição ideológica da juventude autoidentificada com a direita e com o centro.


Resumo


Diferentemente do que uma leitura simétrica dos "poderes desacreditados" sugere, os dados mostram que o parlamento concentra o maior declínio institucional entre os três poderes: baixa eficácia legislativa, espetacularização, apropriação fisiológica crescente do orçamento via emendas e episódios reiterados de violência física entre parlamentares. Isso explica por que o centro-direita prefere recusar a candidatura de Flávio Bolsonaro e permanecer na "comodidade do poder sem responsabilidade" que o parlamento hoje oferece. Na juventude, a pesquisa da Fundação Friedrich Ebert mostra 38% autoidentificados à direita (17% na extrema direita) — a maior proporção entre 14 países latino-americanos —, mas a maioria desse grupo mantém preferências substantivas (saúde, educação, meio ambiente) incompatíveis com a agenda liberal que a direita parlamentar de fato pratica. Contradição semelhante atinge os 44% que se dizem de centro, categoria esvaziada pela polarização eleitoral brasileira. As mulheres jovens, mais à esquerda e progressistas, aparecem como contraponto relevante.



Introdução


Um dado isolado pode enganar: dizer que a juventude desconfia quase igualmente da Presidência e do Legislativo (1) sugere equivalência de responsabilidade entre os dois poderes. Mas essa equivalência estatística esconde uma assimetria real de desempenho institucional. O artigo desenvolve essa correção em seis movimentos: primeiro, situa o parlamento como o poder mais decaído, com baixa eficácia, espetacularização e violência interna; segundo, conecta essa degradação à disputa de 2026, em que o centro-direita prefere a "comodidade do poder sem responsabilidade" à aliança com Flávio Bolsonaro; terceiro, situa o fisiologismo como fenômeno regional do presidencialismo de coalizão, não singularidade brasileira; quarto, desconstrói o mito do homem cordial; quinto, examina o deslocamento de poder do Estado-nação para o sistema financeiro e as big techs; e sexto, analisa a contradição ideológica da autoidentificação juvenil — direita e centro —, com atenção à diferença de gênero e à incoerência entre rótulo e preferências substantivas.


1. O parlamento como o poder mais decaído


Três ordens de evidência sustentam essa tese. Primeiro, a eficácia: 63,8% das leis aprovadas na Câmara têm efeito neutro na vida da população, mais da metade é meramente honorífica (2). Em 2025 o Congresso aprovou mais de 560 propostas, evitando justamente as reformas estruturais que exigiriam custo político (3). Segundo, o custo: o parlamento brasileiro é o segundo mais caro do mundo em termos absolutos, atrás dos EUA, e o primeiro como proporção do PIB (4). Terceiro, o decoro: 2025 teve pelo menos dez episódios de confronto físico ou quase físico entre parlamentares, alguns com intervenção da Polícia Legislativa (5) — entre eles o confronto entre André Janones e Nikolas Ferreira, o desentendimento entre Glauber Braga e Abílio Brunini, e o tapa de Washington Quaquá em Messias Donato durante a promulgação da Reforma Tributária (6)(7).


O caso Glauber Braga merece registro mais detido. Em abril de 2024, o parlamentar expulsou a chutes e empurrões o militante do MBL Gabriel Costenaro — mas após ter sido provocado por ele sete vezes, na última com ofensas à mãe do deputado, então terminal e que viria a falecer 22 dias depois (7)(40). Já sob risco de cassação por esse episódio, Braga voltou à cena em dezembro de 2025, ocupando a cadeira da presidência da Câmara até ser retirado à força, em protesto contra o que classificou como rigor assimétrico de Hugo Motta, que não puniu parlamentares golpistas que haviam ocupado a Mesa Diretora por mais de trinta horas (35). São, portanto, duas camadas distintas: violência pontual precedida de provocação reiterada, e protesto simbólico contra a aplicação desigual das regras internas — não um padrão avulso de agressividade.


A violência tampouco poupa as mulheres, nem sempre como vítimas de agressores externos: há episódios entre parlamentares mulheres, como a acusação de Coronel Meira de ter sido ferido com uma caneta por Célia Xakriabá, o confronto entre Socorro Neri e Antônia Lúcia na Comissão de Educação, e o quase confronto entre Leila Barros e Coronel Fernanda (8)(9). Soma-se o crescimento de mais de 1.000% no volume real de emendas parlamentares entre 2014 e 2025, hoje cerca de 25% do orçamento discricionário federal (10) — instrumento fisiológico que garante ao parlamento fatia crescente do orçamento público sem a responsabilização eleitoral direta que recai sobre o Executivo.


Secretaria da Mulher da Câmara registrou 86 denúncias formais de violência política de gênero desde 2013, com pico de 23 casos em 2024. Houve pelo menos quatro episódios distintos de agressão verbal contra Marina Silva no Congresso desde que ela retomou o Ministério do Meio Ambiente, além de um ataque recente fora do parlamento.

 

2. A comodidade do poder sem responsabilidade: o Centrão se afasta de Flávio Bolsonaro


Esse desenho — poder orçamentário crescente sem ônus executivo — explica por que o centro-direita não se apressa a embarcar na candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026. PP, União Brasil, Republicanos e PSD mantêm neutralidade ou resistência aberta, apostando em Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado (11)(12)(13). Dirigentes do próprio Centrão admitem: apoio formal reduziria a capacidade de negociação com o futuro governo, qualquer que seja o vencedor (14). Por que assumir o desgaste de uma candidatura rejeitada nas pesquisas, se o parlamento já garante parcela crescente do orçamento sem cobrança proporcional de resultados? A "comodidade do poder sem responsabilidade" não é percepção subjetiva: é a lógica revelada pelo comportamento observável desses partidos.


3. Presidencialismo de coalizão como fenômeno regional


Essa lógica fisiológica não é exclusividade brasileira, ainda que aqui atinja grau máximo. Um estudo do Kellogg Institute (Notre Dame) classifica Brasil, Chile, Colômbia e Panamá como países em que a coalizão é norma estrutural, com Argentina, Bolívia, Equador, Guatemala, México, Paraguai, Peru e Uruguai alternando entre gabinetes de partido único e multipartidários (15). O Chile, sob a Concertación (1990-2010), sustentou coalizões estáveis sem a mesma fragmentação fisiológica do Centrão (16) — sugerindo que a intensidade brasileira decorre da combinação entre presidencialismo de coalizão e o maior número de partidos com representação parlamentar do mundo, não do modelo institucional em si.


4. O mito do homem cordial e a cidadania inconclusa


Essa fragilidade institucional dialoga com uma genealogia histórica bem documentada — e contestada — pela sociologia brasileira. Sérgio Buarque de Holanda descreveu o "homem cordial" como tipo social movido por relações pessoais e afetivas, para quem o Estado é extensão da esfera privada (17)(18). Trata-se, porém, de representação já desconstruída pela crítica sociológica: Ramatis Jacino e, mais recentemente, Correia, Netz e Andrade argumentam que o conceito naturaliza como "índole nacional" o que são responsabilidades estruturais das elites, obscurecendo o racismo institucional brasileiro sob suposta cordialidade coletiva (19)(37). É significativo que a própria análise clássica reconheça que essa cordialidade não exclui a violência: o “homem cordial” é "dado a atitudes extremas, capaz de agir com extrema violência" quando a lógica pessoal e afetiva é contrariada pela ordem impessoal da lei (18). O comportamento parlamentar descrito na seção 1 — fisiologismo disfarçado de cordialidade, mas também agressão física reiterada — funciona como evidência empírica contra a leitura mitológica da "cordialidade" como harmonia: confirma, ao contrário, o diagnóstico mais duro por trás do conceito — o predomínio do fulanismo (41) e do interesse privado sobre qualquer ordem republicana impessoal, que sob impunidade se expressa não em gentileza, mas em violência e apropriação do bem público. José Murilo de Carvalho complementa: no Brasil os direitos políticos chegaram antes dos civis e sociais plenos, produzindo cidadania inconclusa, sem a mobilização coletiva organizada que, em outros contextos, forjou controle social efetivo sobre o poder (20).


5. Estado-nação, sistema financeiro e big techs


A esse quadro soma-se a perda de centralidade decisória do Estado-nação. A financeirização do Estado descreve como o capital financeiro internacional condiciona a política pública, deslocando decisões antes soberanas para atores de mercado transnacionais (21)(22). As big techs capturam a infraestrutura de circulação de informação — o que Sérgio Amadeu da Silveira chama de "colonialismo de dados" (23) — e um relatório recente fala em "tecnofascismo" para descrever a substituição de processos democráticos por gestão corporativa algorítmica, com o poder público no Brasil gastando cerca de R$ 10 bilhões anuais em contratos com Google, Microsoft e Oracle (24). A atuação da Meta no caso Cambridge Analytica e as intervenções do Google no debate sobre o PL das Fake News ilustram como essas corporações disputam decisões que pertenceriam à soberania estatal (25).


Um caso concreto ilustra a articulação entre esses dois sistemas: fintechs investigadas por vínculos com o crime organizado (Operação Carbono Oculto, ligada ao PCC) financiaram a desinformação sobre a falsa "taxação do Pix", amplificada por vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL) com mais de 200 milhões de visualizações, levando o governo a revogar instrução normativa que ampliaria o monitoramento de transações suspeitas (26). É preciso, porém, não generalizar indevidamente: fintechs movimentaram R$ 28 bilhões para PCC e Comando Vermelho em seis anos (27), e outras operações revelam esquemas de lavagem com empresas de fachada, "laranjas" e bancários corrompidos, sem vínculo ideológico específico (28)(29). Os dados sustentam não que "a direita" seja intrinsecamente ligada ao crime financeiro, mas que existem pontos de contato documentados entre interesses financeiros desregulados, crime organizado e amplificação política oportunista — mecanismo acionável por qualquer campo político disposto a servir de caixa de ressonância, mas que, no caso investigado, teve a extrema direita parlamentar como veículo.


6. A contradição ideológica da juventude


Nesse ecossistema informacional — 57% dos jovens buscam informação política nas redes, mais que na TV (45%) (30) — forma-se a autoidentificação revelada pela FES: 44% no centro, 38% à direita (17% extrema direita, 21% direita/centro-direita) e 18% à esquerda (30). O Brasil tem, entre 14 países latino-americanos e caribenhos, a maior proporção de jovens de direita e a menor de centro — os demais superam 50% de identificação centrista, e o Uruguai lidera à esquerda, com 25% (31). Há diferença de gênero relevante: mulheres jovens se posicionam mais à esquerda (20%) e adotam visões progressistas, enquanto os homens se alinham mais à direita e a valores tradicionais (32)(33) — sugerindo que as jovens despontam como contraponto justamente num cenário parlamentar de violência majoritariamente masculina.


Mas o próprio dado dos 44% de centro merece igual desconfiança. O Brasil vive o auge de sua polarização eleitoral, caminhando pela primeira vez para disputa presidencial sem candidatura de centro viável, com a esquerda concentrada em Lula e a direita fragmentada em múltiplos nomes (38). Estudos sobre polarização descrevem esse esvaziamento do centro com crescimento e radicalização da direita (39). Uma juventude majoritariamente "de centro" não reflete necessariamente projeto coerente e moderado: é mais provável que essa autoidentificação funcione como recusa de rotulagem ou refúgio diante de um sistema percebido como hostil e binário do que como adesão a um programa de centro real. A ingenuidade dos 38% de direita tem, assim, contraparte especular nos 44% de centro: em ambos os casos, o rótulo parece dizer mais sobre estética política do momento do que sobre coerência programática.


A contradição mais reveladora está na distância entre rótulo e preferências substantivas: 86% dos jovens entendem que o Estado deve garantir saúde, educação e proteção ambiental — agenda que, segundo a pesquisadora Elisa Guaraná, não corresponde à que a extrema direita neoliberal de fato defende no Congresso (34). Parcela significativa dos 38% de direita sustenta, na prática, posições incompatíveis com o programa real da direita parlamentar — sugerindo que a adesão ideológica é mais identidade estética ou afetiva, moldada pelas redes, do que projeto informado sobre o que a direita legislativa efetivamente pratica: fisiologismo, resistência a reformas estruturais e, no caso investigado, cumplicidade involuntária com interesses financeiros escusos.


Conclusões


O parlamento não deveria ser tratado como equivalente à Presidência na desconfiança institucional da juventude, pois é, por eficácia legislativa, decoro e captura fisiológica do orçamento, o poder mais degradado dos três. Isso explica a estratégia do centro-direita em 2026: recusar Flávio Bolsonaro para preservar a comodidade do poder sem responsabilidade que o Legislativo oferece. Na juventude, a autoidentificação — 44% centro, 38% direita, 18% esquerda — não deve ser lida como adesão programática coerente em nenhum polo: a contradição entre o rótulo de direita (e, especularmente, o de centro, em cenário de polarização que praticamente extinguiu essa opção eleitoral) e o apoio majoritário a políticas sociais e ambientais revela ingenuidade real, mas de natureza distinta da inicialmente suposta — não ignorância sobre quem governa, mas dissociação entre identidade performada nas redes e conteúdo programático efetivo. As mulheres jovens, mais à esquerda e progressistas, emergem como o setor menos capturado por essa dissociação — dado positivo em quadro institucional, informacional e financeiro que dificulta a formação de juízo político coerente para qualquer geração.


Referências

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P.S.: Usei IA Perplexity tanto na busca de informações quanto na elaboração da ilustração do texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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