Bancos comunitários, NDB e desenvolvimento endógeno: uma leitura em termos guerreiristas e complexos sobre finanças solidárias
- Sérgio Luís Boeira
- 9 de jul.
- 15 min de leitura
Resumo
Este artigo interpreta o papel de bancos comunitários e do “Banco do BRICS” (Novo Banco de Desenvolvimento - NDB) em um cenário de globalização em crise e finanças em processo de reterritorialização. Em termos guerreiristas, discute-se em que medida essas experiências tensionam o paradigma mercadocêntrico e o padrão financeirizado de desenvolvimento, centrado em crescimento linear e concentrador. A partir de revisão teórica e análise documental, argumenta-se que os bancos comunitários funcionam como arranjos territoriais de democratização do crédito e da moeda, enquanto o NDB expressa uma tentativa de reorganizar fluxos financeiros a partir do Sul Global, ainda marcada por ambivalências institucionais. Conclui‑se que ambos oferecem respostas parciais à crise do desenvolvimento dominante, recolocando mediações entre economia, sociedade, território, política e meio ambiente, sem contudo romper de modo consistente com a lógica hegemônica das finanças.

Em termos guerreiristas, argumenta-se que os bancos comunitários permitem visualizar formas econômicas que não se esgotam na racionalidade instrumental, pois articulam finanças solidárias, vínculos de proximidade, participação local e finalidades substantivas de reprodução da vida. Já o NDB pode ser interpretado como parte de uma reconfiguração mais ampla da ordem internacional, na qual países do Sul buscam ampliar sua margem de autonomia diante das instituições financeiras tradicionais, ainda que permaneçam tensionados pelas lógicas do sistema interestatal e do mercado global.
Em termos morinianos, defende-se que o fenômeno deve ser compreendido como complexo, pois envolve escalas distintas, atores heterogêneos, complementaridades e antagonismos entre circuitos financeiros locais e globais, bem como dinâmicas simultâneas de dependência e autonomia. Conclui-se que a articulação entre bancos comunitários, finanças solidárias e novas institucionalidades internacionais não configura uma superação linear da ordem vigente, mas revela possibilidades emergentes de reorganização econômica, política e socioambiental que merecem ser analisadas à luz da complexidade, do pensamento do Sul e de uma crítica substantiva da sociedade de mercado.
Objetivo geral
Interpretar de modo relacional os bancos comunitários e o NDB, no contexto da globalização insustentável/desglobalização, para discutir em termos guerreiristas e complexos em que medida essas experiências contribuem – ou não – para o desenvolvimento endógeno, a delimitação do mercadocentrismo e o fortalecimento de formas socioambientalmente sustentáveis de organização econômica.
Objetivos específicos
a) Examinar a crise da globalização financeirizada/insustentável e o debate sobre desglobalização como contexto para o surgimento e o fortalecimento de arranjos financeiros alternativos.
b) Interpretar os bancos comunitários como formas territoriais de finanças solidárias e desenvolvimento endógeno, articulando mediações entre economia, necessidades sociais e ambientais e processos de empoderamento em espaços isonômicos com traços fenonômicos.
c) Interpretar o NDB como expressão de rearranjos institucionais no Sul Global, discutindo criticamente os limites da prioridade às moedas nacionais frente às exigências de desenvolvimento interno e de capitalização de bancos comunitários.
d) Ler a relação entre bancos comunitários, NDB e desglobalização à luz do pensamento de Edgar Morin, com destaque para os princípios sistêmico, dialógico, recursivo, retroativo e para o horizonte de um pensamento do Sul.
e) Relacionar finanças solidárias, desenvolvimento endógeno e sustentabilidade socioambiental por meio de uma crítica ao paradigma disjuntor‑redutor e ao predomínio do enclave econômico na sociedade mercadocêntrica.
Introdução
O debate contemporâneo sobre globalização predatória e insustentável passa por uma inflexão importante. Depois de décadas em que a integração econômica internacional foi apresentada como horizonte inevitável e desejável, ganharam força processos de fragmentação, rivalidade geopolítica, reterritorialização produtiva, crise ecológica e contestação das arquiteturas financeiras construídas sob hegemonia liberal-financeira. Nesse cenário, a desglobalização não significa simples fechamento nacional, mas uma recomposição desigual e contraditória das relações entre escalas locais, nacionais, regionais e globais.
Esse contexto recoloca o problema do desenvolvimento e das finanças sob novas bases. De um lado, experiências territorializadas, como os bancos comunitários e outras modalidades de finanças solidárias, indicam tentativas de reconstruir circuitos econômicos enraizados em necessidades locais, reciprocidade, inclusão e participação. De outro, novas instituições multilaterais do Sul, como o NDB, sugerem esforços de reorganização da governança financeira internacional, em busca de maior autonomia frente às instituições tradicionais.
Embora pertençam a escalas e lógicas institucionais muito diferentes, esses dois fenômenos podem ser colocados em relação recursiva. Ambos expressam, cada um a seu modo, reações à insuficiência de um sistema financeiro que concentra poder, subordina territórios e frequentemente dissocia a circulação monetária das necessidades substantivas da vida social. Ao mesmo tempo, ambos permanecem atravessados por tensões, ambiguidades e limites estruturais, o que impede leituras celebratórias ou lineares.
É nesse ponto que a obra de Guerreiro Ramos se torna especialmente útil. Sua crítica à sociedade mercadocêntrica e à supremacia da racionalidade instrumental permite compreender que a economia não deveria monopolizar a definição dos fins sociais. Em termos guerreiristas, experiências financeiras alternativas podem ser lidas não apenas por sua eficiência funcional, mas por sua eventual capacidade de favorecer autonomia relativa, deliberação, convivência, criatividade institucional e pluralidade de enclaves sociais.
Também aqui o pensamento de Edgar Morin oferece uma contribuição decisiva. Em vez de reduzir o problema a oposições simples entre local e global, Estado e mercado, autonomia e dependência, o enfoque complexo ajuda a perceber sistemas abertos, interações entre níveis, antagonismos produtivos e relações recursivas entre atores, instituições e territórios. Além disso, a noção de pensamento do Sul reforça a necessidade de religar economia, sociedade, cultura e natureza, reconhecendo reservas históricas e antropológicas capazes de tensionar a homogeneização técnico-econômica.
Diante disso, este artigo se organiza em seis seções, além desta introdução e das considerações finais. A primeira discute desglobalização e crise da ordem financeirizada; a segunda aborda os bancos comunitários; a terceira examina o NDB; a quarta propõe uma leitura em termos guerreiristas; a quinta explora o diálogo com o pensamento complexo; e a sexta sintetiza implicações analíticas para o debate sobre desenvolvimento sustentável, território e finanças solidárias, apresentando uma proposta de política pública multissetorial.
1. Desglobalização e crise da ordem financeirizada
A globalização das últimas décadas consolidou uma arquitetura econômica na qual os mercados financeiros ganharam centralidade inédita na orientação dos investimentos, das políticas públicas e das estratégias empresariais. Esse processo intensificou a circulação internacional do capital, mas também ampliou vulnerabilidades sistêmicas, assimetrias entre países e distanciamento entre fluxos financeiros e necessidades territoriais concretas.
A noção de desglobalização emerge nesse contexto como tentativa de nomear processos de desconcentração, regionalização e contestação da integração neoliberal. Não se trata, necessariamente, de colapso da interdependência mundial, mas de sua reorganização por meio de conflitos geopolíticos, reposicionamentos produtivos, busca de soberania econômica e críticas à dependência financeira.
Essa crise, porém, não é apenas econômica ou geopolítica. Ela também é ecológica, social e epistemológica. O agravamento da degradação ambiental e as lacunas das abordagens disciplinares para compreender a complexidade socioambiental mostram que a crítica à financeirização precisa ser ampliada para incluir a relação entre desenvolvimento, território e sustentabilidade.
Esse movimento reabre a questão sobre quais instituições podem sustentar formas menos subordinadas de desenvolvimento. Daí a relevância de observar tanto experiências locais de finanças solidárias quanto iniciativas interestatais de novo fôlego financeiro, pois ambas sinalizam respostas diferenciadas à crise de legitimidade e de eficácia da ordem financeira convencional.
2. Bancos comunitários e finanças solidárias
Os bancos comunitários podem ser compreendidos como dispositivos territoriais de finanças solidárias voltados à dinamização de economias locais, à inclusão de populações historicamente excluídas do sistema bancário convencional e ao fortalecimento de redes de proximidade. No Brasil, levantamento recente indica a existência de 167 bancos comunitários em atividade, enquanto, no plano internacional, observa-se a disseminação de experiências correlatas de finanças comunitárias e moedas sociais, estimadas em cerca de 10 mil no mundo. Seu significado excede a oferta de serviços financeiros. Tais experiências contribuem para reconstruir mediações entre produção, consumo, sociabilidade e território, ao favorecer formas mais enraizadas de circulação econômica. Além disso, as moedas sociais, inicialmente emitidas em papel, passaram por um processo de digitalização a partir de 2015 com a plataforma E-dinheiro Brasil, ampliando o alcance das operações locais e gerando novas possibilidades de gestão, pagamento e circulação comunitária.
Seu significado excede a oferta de serviços financeiros. Tais experiências podem contribuir para reconstruir mediações entre produção, consumo, sociabilidade e território, ao favorecer formas mais enraizadas de circulação econômica. Nessa perspectiva, o crédito deixa de ser apenas mercadoria financeira e passa a integrar estratégias locais de reprodução social, organização comunitária e estímulo à autonomia relativa e à resiliência diante de vulnerabilidades econômicas e ambientais.
Essa interpretação se fortalece quando se observa que a economia social e solidária procura articular dimensões econômicas, sociais e políticas sem privilegiar unilateralmente nenhuma delas, valorizando práticas mais igualitárias, democráticas, solidárias e éticas. Os bancos comunitários podem, assim, ser compreendidos como experiências que reterritorializam a moeda e reafirmam a centralidade das necessidades coletivas no interior da atividade econômica.
Ao mesmo tempo, esses bancos convivem com limites evidentes. Sua capacidade de escala, sua sustentabilidade institucional, sua dependência de marcos regulatórios e sua inserção em economias desiguais mostram que não constituem solução plena para os impasses do desenvolvimento. Ainda assim, sua relevância analítica reside justamente no fato de encarnarem experiências que desafiam, mesmo que parcialmente, a lógica financeira hegemônica.
3. NDB e rearranjos do Sul Global
O NDB pode ser interpretado como parte de um processo mais amplo de busca de maior capacidade de decisão financeira por parte de países do Sul Global. Nesse sentido, ele expressa uma tentativa de ampliar as opções institucionais de financiamento do desenvolvimento, reduzindo a dependência exclusiva das arquiteturas tradicionais dominadas por potências centrais e por agendas historicamente assimétricas.
Sua relevância não decorre apenas da oferta de crédito para infraestrutura e desenvolvimento, mas do que simboliza em termos de rearranjo da governança internacional. O NDB sugere que a ordem financeira global já não é percebida como única nem como plenamente legítima, abrindo espaço para institucionalidades alternativas, ainda que parciais e inscritas no próprio sistema interestatal.
Nesse ponto, a interlocução com Morin pode ser aprofundada por meio da ideia de pensamento do Sul. Essa perspectiva, centrada na América Latina e em outras experiências históricas do Sul, procura discutir contribuições para uma nova política de civilização e valoriza reservas antropológicas, culturais e políticas frequentemente invisibilizadas pela racionalidade dominante. Sob essa ótica, o NDB pode ser lido como um indício institucional, ainda contraditório, de busca por maior autonomia no interior da ordem mundial.
Contudo, o NDB não deve ser romantizado. Sua atuação se dá dentro de um campo marcado por fortes restrições geopolíticas, interesses nacionais diferenciados e permanência de mecanismos convencionais de financiamento. Por isso, ele representa um movimento de disputa por margens de autonomia e por redefinição de prioridades no interior da economia mundial, e não uma ruptura acabada com a lógica financeira dominante.
O NDB tem representado um contraponto parcial ao predomínio histórico do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, ao ampliar as alternativas institucionais de financiamento para países do Sul Global e ao reforçar a busca por uma governança internacional mais plural. Ainda que opere dentro dos limites do sistema interestatal e financeiro vigente, seu crescimento contraria prognósticos de inviabilidade do bloco BRICS e o apresenta como fonte relevante de recursos para uma transição energética mais sustentável e inclusiva.
No caso brasileiro, por exemplo, o banco aprovou financiamento de USD 300 milhões para projetos de energia renovável e transmissão associados, em operação alinhada ao objetivo de acelerar o financiamento verde.
Entretanto, é precisamente nesse ponto que se impõe uma ressalva crítica. A prioridade atribuída pelo NDB ao uso de moedas nacionais pode ser considerada justificável no plano das trocas e da cooperação financeiras internacionais, sobretudo no contexto da gradual desdolarização e da busca de maior autonomia monetária dos países do Sul. Contudo, essa orientação revela-se insuficiente quando transposta, sem mediações adicionais, para o financiamento do desenvolvimento interno de cada país. No caso brasileiro, por exemplo, o uso do real não implica, por si só, desenvolvimento com envolvimento comunitário, nem qualquer delimitação do mercadocentrismo.
Ao contrário, quando reinserida no circuito bancário convencional, a moeda nacional tende a recircular segundo a lógica dominante, concentrando-se novamente nos estratos financeiramente hegemônicos e reforçando padrões heteronômicos de desenvolvimento. Em termos guerreiristas, isso significa que a simples substituição da moeda de referência nas operações financeiras não altera a primazia do enclave econômico, nem cria espaços isonômicos ou fenonômicos capazes de sustentar autonomia relativa, participação e finalidades substantivas.
A hipótese sustentada aqui é a de que a prioridade às moedas nacionais pode ser defensável no plano macro das transações internacionais, mas não basta para orientar o desenvolvimento interno. Sem investimento no desenvolvimento endógeno, por meio da capitalização dos bancos comunitários e do fortalecimento de circuitos territoriais de finanças solidárias, não há empoderamento substantivo das comunidades vulneráveis. O que tende a ocorrer, ao contrário, é sua fragilização crescente, na medida em que permanecem dependentes de mecanismos de crédito, circulação monetária e financiamento subordinados à racionalidade instrumental do sistema financeiro dominante.
4. Leitura em termos guerreiristas
Em termos guerreiristas, os bancos comunitários – que estão em franco crescimento no mundo e no Brasil – ganham inteligibilidade quando deixam de ser vistos apenas como instrumentos econômicos compensatórios. Eles podem ser lidos como formas organizacionais em que o econômico se articula com dimensões sociais, políticas e culturais, relativizando a centralidade da racionalidade instrumental e reintroduzindo finalidades substantivas na mediação financeira.
Essa leitura aproxima os bancos comunitários de espaços isonômicos com traços fenonômicos. Isonômicos, porque podem envolver deliberação, horizontalidade relativa, vínculos de proximidade e participação comunitária. Fenonômicos, porque abrem margem para criatividade institucional, soluções locais e iniciativas que não se orientam exclusivamente pela maximização utilitária, ainda que permaneçam em interação com o mercado.
A teoria da delimitação dos sistemas sociais reforça essa interpretação ao criticar a centralidade absoluta do enclave econômico e ao defender uma sociedade multicêntrica, na qual diferentes formas de vida social possam coexistir sem serem absorvidas pela lógica mercantil. Nessa perspectiva, os bancos comunitários podem ser lidos como experiências parciais, mas significativas, de delimitação do mercadocentrismo.
Já o NDB exige um uso mais cauteloso dessas categorias. Não se trata de experiência isonômica em sentido forte, mas de instituição cuja relevância pode ser interpretada a partir da crítica guerreirista à unidimensionalidade mercadocêntrica e à subordinação dos fins sociais às lógicas financeiras. Seu interesse, nessa abordagem, reside em ampliar possibilidades institucionais de desenvolvimento para além do monopólio decisório das finanças dominantes.
5. Leitura moriniana
Em termos morinianos, a relação entre bancos comunitários, NDB e desglobalização deve ser pensada como um sistema aberto e multiescalar. O fenômeno não se reduz à dicotomia entre local e global, porque o local depende de regulações mais amplas e o global se reconfigura a partir de pressões territoriais, políticas e ecológicas que emergem de múltiplos contextos.
O princípio dialógico ajuda a compreender que autonomia e dependência não se excluem absolutamente nesses processos. Os bancos comunitários produzem autonomia relativa, mas operam em ambientes monetários, jurídicos e macroeconômicos que lhes escapam. O NDB amplia capacidade de decisão do Sul Global, mas permanece inscrito em estruturas de poder, competição e interdependência que limitam sua liberdade de ação.
Os princípios sistêmico, dialógico, recursivo e retroativo conferem maior densidade analítica a essa interpretação. O sistêmico permite articular partes e todo sem reducionismo; o dialógico sustenta a coexistência de termos complementares e antagônicos; e os princípios recursivo/retroativo, que superam a noção de regulação com a de auto-organização, evidenciam que produtos e efeitos retroagem sobre os processos que os produzem. Desse modo, iniciativas locais de finanças solidárias e novas instituições multilaterais podem ser vistas como produtos de uma ordem em crise e, simultaneamente, como elementos que influenciam sua transformação futura.
A perspectiva moriniana também convida a religar o debate financeiro à questão ambiental. O pensamento complexo resiste à fragmentação disciplinar e à separação entre economia, sociedade e natureza, reconhecendo que a reprodução da vida depende de interações ecológicas, sociais e culturais que não podem ser tratadas como variáveis externas. Com isso, finanças solidárias e desenvolvimento endógeno deixam de aparecer como temas meramente econômicos e passam a integrar uma problemática mais ampla de reorganização civilizatória.
6. Desenvolvimento sustentável, território e finanças solidárias: uma política pública multissetorial
A articulação entre bancos comunitários e debate sobre desenvolvimento sustentável permite recolocar o território no centro da análise. O desenvolvimento deixa de ser visto apenas como crescimento agregado ou expansão do investimento e passa a envolver capacidades locais de decisão, circulação econômica ancorada, fortalecimento de vínculos e construção de margens de autodeterminação.
Essa inflexão analítica se fortalece quando se incorpora a dimensão socioambiental. O debate sobre ambientalismo complexo-multissetorial mostra que a questão ambiental envolve múltiplos setores, classes sociais e escalas de ação, exigindo uma nova cultura, uma nova visão de mundo e uma nova forma de pensar a ciência. Isso significa que o desenvolvimento endógeno não pode ser adequadamente pensado sem considerar a sustentabilidade ecológica e a pluralidade dos atores territoriais.
Nesse quadro, o NDB aparece como peça de outra escala do mesmo problema: a necessidade de criar condições institucionais para que projetos de desenvolvimento não sejam totalmente subordinados às prioridades do capital financeiro global. Sua existência reforça a percepção de que o debate sobre finanças não pode ser dissociado de soberania, planejamento, cooperação internacional e disputas sobre o futuro da ordem mundial.
A principal implicação analítica é que finanças solidárias locais e rearranjos multilaterais do Sul não devem ser pensados como alternativas equivalentes, mas como fenômenos distintos que se iluminam mutuamente. Um mostra a importância da proximidade, da participação e da reinserção social da moeda; o outro evidencia que, sem mudanças na arquitetura mais ampla de financiamento, as alternativas territoriais tendem a encontrar limites severos.
Essa inflexão analítica se fortalece quando se incorpora a dimensão socioambiental. O debate sobre ambientalismo complexo-multissetorial mostra que a questão ambiental envolve múltiplos setores, classes sociais e escalas de ação, exigindo uma nova cultura, uma nova visão de mundo e uma nova forma de pensar a ciência.
Nesse quadro, o NDB aparece como peça de outra escala do mesmo problema. Sua existência reforça a percepção de que o debate sobre finanças não pode ser dissociado de soberania, planejamento, cooperação internacional e disputas sobre o futuro da ordem mundial. Ao mesmo tempo, os bancos comunitários e outras formas de finanças solidárias revelam, no plano territorial, tentativas de reinscrever a moeda e o crédito em circuitos de proximidade, participação e sustentabilidade, evidenciando que não se trata apenas de “trazer crédito para a base”, mas de redefinir o próprio sentido da mediação financeira.
A partir da tipologia proposta por Genauto França Filho (2007) de quatro níveis ou instâncias organizativas que compõem o campo da economia solidária no Brasil, busco a seguir aplicar tal tipologia para o caso tratado nesse artigo. Os bancos comunitários e os empreendimentos de reciclagem popular se configuram como empreendimentos econômicos solidários (EES), isto é, organizações de primeiro nível que combinam trabalho associado, cooperação e gestão democrática. A Rede Brasileira de Bancos Comunitários (RBBC), o Instituto E‑Dinheiro e as incubadoras universitárias de economia solidária atuam como entidades de apoio e fomento (EAF), ou seja, estruturas de segundo nível que oferecem assessoria, tecnologia social e suporte organizativo. O Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR), as redes e fóruns de economia solidária expressam formas de auto‑organização política de terceiro nível, que disputam sentidos de política pública e demandam reconhecimento institucional. Por fim, SENAES/MTE, CIISC (que sucedeu o CIIS) e demais instâncias governamentais constituem a “nova institucionalidade pública” de quarto nível, responsável por formular e coordenar políticas de economia solidária e inclusão socioprodutiva.
Vistos em conjunto, esses quatro níveis permitem imaginar uma arquitetura de política pública multissetorial (e multinível) em que o BNDES, apoiado por recursos do NDB, funcione como agente estruturador de programas nacionais voltados às redes de associações e cooperativas de catadoras e catadores, sem se limitar à infraestrutura física tradicional. Em termos operacionais, isso implicaria desenhar programas similares ao Cataforte e a editais do MMA/FNMA em que a infraestrutura produtiva das cooperativas (galpões, equipamentos, logística, unidades de compostagem) seja articulada, desde o início, a uma infraestrutura financeira solidária territorial, ancorada em bancos comunitários vinculados às redes de catadores.
Nessa configuração, os recursos captados pelo BNDES junto ao NDB para “infraestrutura sustentável” e “agenda do clima” poderiam alimentar não apenas contratos de crédito convencionais, mas também fundos de crédito solidário operados por bancos comunitários em parceria com a RBBC, o Instituto E‑Dinheiro, o MNCR e projetos acadêmicos de economia solidária. Em termos guerreiristas, o que está em jogo é deslocar a primazia do enclave econômico: a moeda nacional utilizada nas operações NDB‑BNDES deixa de recircular exclusivamente nos circuitos bancários hegemônicos e passa a ser parcialmente reterritorializada em circuitos de proximidade, nos quais o crédito se orienta por finalidades substantivas de reprodução da vida, fortalecimento comunitário e transição socioambiental.
Em perspectiva moriniana, trata‑se de explorar a recursividade entre escalas: decisões tomadas em instituições financeiras internacionais do Sul (como o NDB) retroalimentam arranjos territoriais de finanças solidárias, que por sua vez podem reforçar capacidades locais de enfrentar a crise socioambiental e de tensionar o mercadocentrismo. Bancos comunitários e NDB deixam, assim, de ser lidos como experiências isoladas ou mutuamente exclusivas e passam a compor um campo de possibilidades em que desenvolvimento, território e finanças solidárias podem ser religados sob o horizonte de uma outra economia, ainda em disputa.
Considerações finais
O exame conjunto dos bancos comunitários, do NDB e da desglobalização revela que as finanças contemporâneas estão longe de constituir um campo homogêneo ou encerrado em uma única lógica. Ao contrário, elas expressam disputas entre escalas, projetos políticos, racionalidades e formas de organização econômica, o que exige abordagens capazes de apreender contradições, assimetrias e possibilidades emergentes.
Em termos guerreiristas, os bancos comunitários mostram que a mediação financeira pode ser reconectada a finalidades substantivas, sobretudo quando articulada a sociabilidades locais, participação e desenvolvimento territorial. Ainda que limitados, eles evidenciam que o econômico não precisa ser pensado exclusivamente sob o primado da utilidade mercantil e da acumulação abstrata.
Em termos morinianos, a articulação entre fenômenos locais e institucionais globais reforça a necessidade de uma leitura complexa. Bancos comunitários e NDB não compõem uma trajetória linear de superação da ordem vigente, mas um campo de experiências tensionado por antagonismos, complementaridades e relações recursivas. Justamente por isso, sua análise pode contribuir para repensar desenvolvimento, finanças e território em um mundo marcado por crises sistêmicas e por buscas ainda abertas de reorganização civilizatória.
A incorporação mais explícita do pensamento do Sul e da dimensão socioambiental fortalece o argumento central do texto. Desenvolvimento endógeno, finanças solidárias e autonomia institucional passam, assim, a ser compreendidos não apenas como respostas econômicas, mas como partes de uma busca mais ampla por formas de vida coletiva menos subordinadas ao mercadocentrismo, mais sensíveis à diversidade dos territórios e mais comprometidas com a sustentabilidade da vida.
Algumas referências usadas para a elaboração do texto
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BOEIRA, S. L. Ambientalismo complexo‑multissetorial no Brasil: emergência e declínio na década de 1990? Revista Ibero‑Americana de Ciências Ambientais, v. 7, n. 3, p. 170‑188, 2016.
BOEIRA, S. L. Atualidade da obra de Guerreiro Ramos: as novas gerações de guerreiristas. Curitiba: Appris, 2023.
FRANÇA FILHO, G. Teoria e prática em economia solidária: problemática, desafios e vocação. Civitas – Revista de Ciências Sociais, v. 7, n. 1, jan.-jun. 2007.
GUERREIRO RAMOS, A. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 1. ed. rev. Tradução de Francisco Heidemann e Ariston Azevedo. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.
MORIN, E. Para um pensamento do sul : diálogos com Edgar Morin. — Rio de Janeiro : SESC, Departamento Nacional, 2011. 228 p.
SIMON, V. P.; BOEIRA, S. L. Economia social e solidária e empoderamento feminino. Ciências Sociais Unisinos, São Leopoldo, v. 53, n. 3, p. 532‑542, 2017.
P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.



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