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Complexidade, Modernidade e Tradição Simbólica

A epistemologia de Edgar Morin em diálogo com dois enfoques opostos sobre o fenômeno psíquico


O objetivo desse artigo é introduzir uma leitura comparada de dois enfoques sobre o psiquismo — a psicologia analítica de C. G. Jung e uma genealogia histórico-crítica da invenção do psicológico — a partir do paradigma da complexidade.



1. Introdução


A subjetividade humana pode ser abordada a partir de dois enfoques epistemológicos radicalmente distintos, e mesmo diametralmente opostos. Um deles postula a existência de uma camada psíquica coletiva, transindividual e estruturalmente universal — um conjunto de padrões formais que se repetem identicamente em culturas e épocas distintas, sem contato histórico entre si. O outro sustenta que o próprio "psicológico", como campo de saber e como experiência de interioridade, é um efeito datado da modernidade europeia, e não uma essência atemporal a ser descoberta.


Este texto não se limita a justapor os dois enfoques. Toma como ponto de vista central a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, que permite compreender por que os dois enfoques divergem tão radicalmente e o que cada um deles capta, legitimamente, da complexidade do fenômeno psíquico. A estrutura é a seguinte: primeiro, apresenta-se o diagnóstico moriniano sobre a origem dessa dualidade, resumindo os dois enfoques em confronto; em seguida, cada enfoque é exposto em seus próprios termos e interpretado à luz da complexidade; por fim, propõe-se uma síntese na qual o paradigma da complexidade não escolhe entre os dois enfoques, mas os articula.


2. A complexidade diante de dois enfoques opostos


Edgar Morin diagnostica, na base da ciência moderna, o que chama de "paradigma da simplificação": um conjunto de operações lógicas — disjunção (separar o que está ligado), redução (explicar o complexo pelo simples) e uma lógica indutivo-dedutivo-identitária que expulsa a contradição — herdado do cartesianismo, que separou o sujeito cognoscente do objeto a conhecer.[1] Aplicado ao estudo do psiquismo, esse paradigma tende a gerar respostas polarizadas: de um lado, a tentação de tratar o psíquico como uma natureza estável e universal, investigável como um objeto com leis próprias, independentes da história; de outro, a tentação de dissolver essa mesma natureza, mostrando que o "psicológico" nada mais é do que um efeito contingente de processos históricos e discursivos específicos, sem qualquer substrato transcultural.


Os dois enfoques examinados neste texto ocupam exatamente esses dois polos. A psicologia analítica de C. G. Jung, fundada na hipótese dos arquétipos e do inconsciente coletivo, representa o polo essencialista e universalista: postula uma camada psíquica comum a toda a espécie humana. Uma genealogia histórico-crítica da invenção do psicológico — que reconstitui, entre os séculos XVI e XIX, o processo pelo qual a experiência subjetiva moderna se tornou pensável — representa o polo historicista e desnaturalizante: mostra que essa mesma camada psíquica, longe de ser um dado universal, é um produto situado da história europeia.


Morin não resolve esse confronto escolhendo um lado. Seu princípio dialógico afirma que duas lógicas antagônicas podem ser "complementares, concorrentes e antagônicas, porém indissociáveis e indispensáveis" para a compreensão de uma mesma realidade, sem que uma dissolva a outra numa síntese conciliadora — uma ideia que o próprio Morin deriva, em parte, da dualidade onda-partícula de Niels Bohr.[2] É a partir desse princípio, somado ao recursivo — segundo o qual "os produtos e efeitos são, ao mesmo tempo, causas e produtores daquilo que produziram"[3] — e ao hologramático — segundo o qual a parte contém o todo e o todo se manifesta na parte[4] —, que a complexidade lê cada um dos dois enfoques a seguir.


3. O enfoque de Jung: arquétipos e inconsciente coletivo


Jung distingue um inconsciente pessoal, formado pela biografia individual, de um inconsciente coletivo — camada mais profunda, não adquirida pela experiência pessoal, comum a toda a espécie. Os arquétipos são as unidades formais dessa camada: padrões que organizam a experiência psíquica antes de qualquer conteúdo particular, manifestando-se em sonhos, mitos, ritos e produções artísticas de povos distintos e sem contato histórico entre si — como no exemplo do ritual de saudação ao sol observado por Jung entre os elgonyis, no Monte Elgon, e cotejado com simbolismos solares egípcios e cristãos (JUNG, p. 153-154).


O arquétipo é descrito como "natureza pura e genuína" (JUNG, p. 154), um princípio formal cujo conteúdo, se existe, não é representável diretamente — só se conhece por seus efeitos ordenadores sobre a consciência. Jung reconhece, no entanto, um limite epistemológico decisivo: a psicologia "carece de uma base situada fora de seu objeto" (JUNG, p. 167), pois o sujeito que investiga é ele mesmo feito de psiquismo. Para sustentar esse realismo sem recair num objetivismo ingênuo, recorre à física quântica — em diálogo com o físico Wolfgang Pauli — argumentando que, tal como a microfísica precisou incluir o efeito do observador sobre o sistema observado, a psicologia enfrenta uma situação análoga de complementaridade entre sujeito e objeto do conhecimento (JUNG, p. 175-178).


Leitura a partir da complexidade


O princípio hologramático oferece uma chave imediata para entender o arquétipo: um padrão que se repete de forma idêntica em manifestações particulares e historicamente dispersas é, estruturalmente, um invariante hologramático — cada atualização particular "contém" a forma total. E o recurso de Jung à complementaridade quântica de Bohr e Pauli é, de fato, a mesma fonte de onde Morin deriva seu próprio princípio dialógico — o que valida, do ponto de vista moriniano, a intuição de que sujeito e objeto do conhecimento psíquico não podem ser inteiramente separados.


Mas a complexidade corrige Jung por meio do princípio recursivo: nenhuma estrutura organizadora é dada de uma vez por todas, fora do processo que ela organiza. Um invariante psíquico, se existe, não pode ser concebido como uma essência transcendente e imutável que apenas "recebe" roupagens históricas variáveis; precisa ser pensado como um atrator produzido e continuamente reorganizado em circuito com a própria história biológica e cultural da espécie — auto-eco-organizado, e não anterior à história.


4. O enfoque genealógico da invenção do psicológico


Esse segundo enfoque não descreve o psiquismo como objeto dado, mas interroga historicamente a própria emergência desse objeto. Sua tese central é que o "psicológico" — e, por extensão, as diversas psicologias contemporâneas — nasceram de um processo datável: a intensificação da experiência de ruptura e diversidade a partir do final do século XV, que produziu sucessivas tentativas de sustentar um sujeito moderno unitário e soberano, sujeito que entra em crise já no final do século XIX, quando se desmorona a ilusão renascentista de um homem central e autotransparente. O "psicológico" teria sido inventado a partir do que precisou ser excluído desse sujeito unitário para que sua identidade se sustentasse — os impulsos, o caos, a alteridade não assimilável.


O método é genealógico, de filiação nietzschiana e foucaultiana: em vez de perguntar "o que é" o psiquismo, pergunta-se "como se tornou possível" pensar e viver a experiência subjetiva do modo como a pensamos hoje — investigando a "proveniência" dos objetos psi antes de qualquer teorização sobre eles (FIGUEIREDO, p. 163-164). Uma das conclusões mais incisivas desse enfoque é que quase todas as psicologias, incluindo a psicanálise, "não compreendem a proveniência de seu objeto" e, por isso, "tendem a naturalizá-lo" — e que escolher entre teorias psicológicas disponíveis, sem entender essa proveniência, é "um ato de pura arbitrariedade" (FIGUEIREDO, p. 14-15 e 164). Coerente com essa crítica, recusa-se a posição instituída de especialista em saberes psi, propondo, em seu lugar, um ponto de vista deliberadamente não especializado, na fronteira entre os saberes psi, a história, a filosofia e as artes (FIGUEIREDO, p. 164).


Leitura a partir da complexidade


A convergência com Morin aqui é direta: a crítica moriniana ao princípio de disjunção — que separa o sujeito cognoscente do objeto de estudo, como se a ciência do psiquismo pudesse ser neutra e exterior ao que investiga — corresponde exatamente à recusa da posição de especialista que já pressupõe aceito o objeto que deveria ser questionado. Morin também exige que o observador seja incluído dentro do fenômeno observado, e não posicionado fora dele, num ponto de vista único e absoluto desde o qual dominar a realidade.[5]


O limite, para a complexidade, aparece no ponto em que a historicização se torna radical a ponto de eliminar qualquer permanência. O princípio dialógico exige manter a dualidade "no seio da unidade" — dois termos complementares e antagônicos, sem que um elimine o outro.[6] Um historicismo que dissolve inteiramente qualquer invariante psíquico em nome da contingência histórica elimina um dos polos dessa dialógica — a ordem, a unidade, a recorrência — em favor exclusivo do outro. Para Morin, isso reproduziria, de forma invertida, o mesmo pensamento por disjunção que esse enfoque pretende superar: em vez de separar sujeito e objeto, separaria história e natureza, cultura e biologia — pois a complexidade não exclui a simplificação, mas a integra como um dos elementos do pensamento complexo; ela não é feita de puro devir sem qualquer organização recorrente.


5. Síntese: a complexidade abraça modernidade e tradição simbólica


Os dois enfoques correspondem, em última análise, a duas grandes atitudes epistemológicas diante do fenômeno psíquico: a atitude simbólico-tradicional, que reconhece nos mitos, ritos e produções culturais de povos distantes entre si a marca de regularidades antropológicas profundas — uma sabedoria que atravessa culturas precisamente porque não se reduz a nenhuma delas; e a atitude crítico-moderna, que desconfia de toda naturalização, exige a genealogia de cada objeto de saber e recusa qualquer verdade psicológica que não explicite sua própria proveniência histórica e as relações de poder que a produziram.


O paradigma da complexidade não pede que se escolha entre essas duas atitudes — pede que se pense sua coexistência dialógica. O princípio hologramático permite reconhecer que, mesmo dentro do processo histórico mais radicalmente contingente, cada configuração particular da subjetividade humana "contém" e reatualiza traços de uma organização antropobiológica mais ampla — o que Morin chama de unitas multiplex, uma organização que é "ao mesmo tempo uma unidade e uma multiplicidade".[7] Isso dá à intuição simbólico-tradicional, representada pelos arquétipos, um lugar legítimo, sem exigir que ela seja lida como essência metafísica fixa. E o princípio recursivo permite reconhecer que essa mesma organização antropobiológica não preexiste à história, mas é produzida e retrabalhada por ela a cada configuração cultural — o que dá à suspeita crítico-moderna, representada pela genealogia histórica, um lugar igualmente legítimo, sem exigir que ela dissolva toda regularidade em pura contingência.


Nesse sentido, a complexidade abraça modernidade e tradição simbólica não como duas fases sucessivas — em que a crítica moderna teria superado e tornado obsoleta a sabedoria simbólica tradicional — mas como dois componentes necessários e permanentemente em tensão de um mesmo fenômeno: o psiquismo humano é, a um só tempo, uma organização que se repete (por isso a linguagem simbólica e mítica consegue captar algo de verdadeiro sobre ele através de culturas e épocas distintas) e uma invenção que se historiciza (por isso nenhuma configuração psíquica particular pode ser tomada como definitiva ou universalmente válida sem exame crítico de sua proveniência). Manter as duas afirmações juntas, sem resolvê-las numa síntese que elimine a contradição, é precisamente o que Morin chama de pensar dialogicamente — e é esse gesto, mais do que a adesão a qualquer um dos dois enfoques, que a epistemologia da complexidade oferece como ponto de vista mais abrangente sobre o fenômeno psíquico.


Referências


JUNG, Carl Gustav. Arquetipos e inconsciente colectivo. Barcelona: Paidós.

FIGUEIREDO, Luís Cláudio Mendonça. A invenção do psicológico: quatro séculos de subjetivação (1500-1900). 7. ed. São Paulo: Escuta/EDUC.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina.

MORIN, Edgar. O Método 1: a natureza da natureza. Porto Alegre: Sulina.

MORIN, Edgar. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.


[1]MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Discussão do "paradigma da simplificação" cartesiano (disjunção, redução, lógica identitária). In: Revista Teoria e Evidência, https://revistas.ufg.br/teri/article/download/23013/13627/97234

[2]MORIN, Edgar. O princípio dialógico e a derivação a partir da complementaridade onda-partícula de Niels Bohr. In: MENDES, Iba. O pensamento complexo de Edgar Morin, http://www.ibamendes.com/2011/03/o-pensamento-complexo-de-edgar-morin.html

[3]MORIN, Edgar. O princípio recursivo. In: MENDES, Iba. A teoria do pensamento complexo de Edgar Morin, http://www.ibamendes.com/2011/03/teoria-do-pensamento-complexo-de-edgar.html

[4]MORIN, Edgar. O princípio hologramático (a parte no todo, o todo na parte). In: Edgar Morin. Wikipédia, a enciclopédia livre, https://pt.wikipedia.org/wiki/Edgar_Morin

[5]MORIN, Edgar. Complejidad y sujeto humano: a inclusão do sujeito cognoscente no objeto investigado; a complexidade como integração, e não exclusão, da simplificação. In: Cervantes Virtual, https://www.cervantesvirtual.com/s3/BVMC_OBRAS/ff7/29f/ec8/2b1/11d/fac/c70/021/85c/e60/64/mimes/ff729fec-82b1-11df-acc7-002185ce6064.pdf

[6]MORIN, Edgar. O princípio dialógico como manutenção da dualidade "no seio da unidade". In: MENDES, Iba. A teoria do pensamento complexo de Edgar Morin, http://www.ibamendes.com/2011/03/teoria-do-pensamento-complexo-de-edgar.html

[7]MORIN, Edgar. A organização como "unitas multiplex" — unidade e multiplicidade simultâneas. In: Revista Valore, O pensamento complexo de Edgar Morin, https://revistavalore.emnuvens.com.br/valore/article/download/1944/1321/5436


P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, tendo revisado a versão final, sobre a qual assumo inteira responsabilidade.


 
 
 

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