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Fernando González Rey: da personalidade à complexidade

há 6 dias
17 min de leitura

Objetivo

Reconstruir a trajetória biográfica, bibliográfica e acadêmica de Fernando González Rey, buscando compreender como sua formação na psicologia soviética, sua inserção na Psicologia Social Crítica latino-americana, seus estudos sobre personalidade e sua trajetória entre Cuba e Brasil contribuíram para a progressiva construção de uma teoria da subjetividade e de uma epistemologia convergente com o paradigma da complexidade.


Resumo

Fernando González Rey (1949–2019) tornou-se conhecido especialmente por sua Teoria da Subjetividade, pela Epistemologia Qualitativa e pela Metodologia Construtivo-Interpretativa. Entretanto, essas contribuições, desenvolvidas sobretudo a partir da década de 1990, resultaram de uma trajetória intelectual iniciada muito antes, nos estudos sobre motivação, desenvolvimento moral e personalidade. Nascido em Cuba, formado na Universidade de Havana e posteriormente na União Soviética, González Rey conheceu por dentro a psicologia soviética e a tradição histórico-cultural, com as quais estabeleceria progressivamente uma relação crítica. Sua participação na Psicologia Social Crítica latino-americana ampliou seus questionamentos sobre as relações entre indivíduo e sociedade, enquanto sua produção bibliográfica evidencia a passagem dos estudos da personalidade para os problemas epistemológicos da Psicologia e, posteriormente, para a subjetividade. Sua mudança para o Brasil, em 1995, coincide com um período particularmente criativo dessa transformação, marcado pela publicação, em 1997, de Epistemología Cualitativa y Subjetividad. O presente artigo sustenta que González Rey não partiu de uma epistemologia da complexidade para formular sua teoria. Foi, inversamente, o aprofundamento de problemas relacionados à personalidade, ao sujeito e à subjetividade que tornou progressivamente insuficientes as explicações deterministas, positivistas e reducionistas, aproximando-o de uma concepção complexa da produção do conhecimento. Sua trajetória permite, assim, compreender a complexidade menos como uma adesão tardia a determinada escola e mais como uma emergência produzida no interior de sua própria obra.



Introdução — Como González Rey chegou à complexidade?


Em artigo anterior, Entre a integração e a complexidade: Ken Wilber e González Rey na psicologia (1), examinei aspectos centrais da Teoria da Subjetividade e argumentei que a obra de González Rey pode ser compreendida no horizonte do paradigma da complexidade. O propósito deste texto é diferente e, ao mesmo tempo, complementar. Em vez de partir da teoria já constituída, interessa retornar à trajetória do autor e perguntar como ele chegou até ela. Que experiências biográficas, ambientes acadêmicos, problemas de pesquisa e interlocuções teóricas contribuíram para que um pesquisador inicialmente dedicado à motivação e à personalidade desenvolvesse, décadas depois, uma teoria da subjetividade associada a uma profunda reformulação epistemológica e metodológica?


A pergunta exige algum cuidado. Uma biografia intelectual não deve estabelecer relações mecânicas entre acontecimentos da vida e produção teórica, como se determinada experiência política ou institucional explicasse diretamente determinado conceito. Tampouco convém reconstruir retrospectivamente a trajetória como se González Rey soubesse, desde seus primeiros estudos, onde chegaria. O que interessa são os problemas que persistem, as insuficiências que vão sendo percebidas e as reformulações pelas quais conceitos anteriormente centrais adquirem novos significados ou cedem lugar a outros.


Esse cuidado é particularmente importante porque a obra de González Rey não apresenta uma simples passagem de uma teoria para outra. Goulart, Mitjáns Martínez e Esteban-Guitart distinguem três grandes momentos de sua trajetória: os primeiros avanços durante os anos de formação universitária, entre 1968 e 1973; o longo período de investigação da personalidade, entre 1973 e 1997; e a construção da Teoria da Subjetividade e da Epistemologia Qualitativa, de 1997 a 2019 (2). Ao final desse percurso, os autores caracterizam a Teoria da Subjetividade como uma macroteoria complexa, crítica e aberta à produção de novos espaços de inteligibilidade. A questão que se coloca, portanto, é compreender o que ocorreu entre o estudo da personalidade e essa formulação madura.


1. Cuba, revolução e formação de um psicólogo


Fernando Luis González Rey nasceu em Havana, em 27 de junho de 1949. Tinha apenas dez anos quando a Revolução Cubana chegou ao poder, em 1959, e sua adolescência, formação universitária e início da carreira científica transcorreram em uma sociedade submetida a transformações políticas, culturais e institucionais de grande intensidade. Os estudos biográficos sobre sua trajetória destacam sua participação juvenil no processo revolucionário e a importância daquele ambiente na formação de seus interesses intelectuais (2).


Não se deve deduzir daí uma relação causal direta entre a Revolução e sua posterior teoria. Há, entretanto, uma questão que atravessaria sua obra e que encontra nesse contexto uma experiência histórica particularmente intensa: como compreender a relação entre indivíduo e sociedade sem reduzir um ao outro? Em uma sociedade que enfatizava a construção coletiva e na qual o marxismo possuía forte presença institucional, o problema da formação social do indivíduo adquiria relevância tanto científica quanto política.


González Rey ingressou na Universidade de Havana no final da década de 1960 e graduou-se em Psicologia em 1973. Seus primeiros interesses estavam relacionados ao desenvolvimento moral, à motivação e à orientação profissional de adolescentes e jovens. Não havia ainda uma Teoria da Subjetividade, muito menos uma Epistemologia Qualitativa. O problema que se delineava era o da personalidade: como compreender a organização psicológica concreta de pessoas que não poderiam ser reduzidas nem a comportamentos observáveis nem a efeitos passivos das condições sociais?


A pergunta seria levada por González Rey à União Soviética, onde encontraria uma tradição teórica que marcaria profundamente sua formação, mas que posteriormente seria também objeto de suas críticas.


2. A formação soviética: aprender uma tradição para depois reconstruí-la


González Rey realizou seu doutorado no Instituto de Psicologia Geral e Pedagógica de Moscou, concluído em 1979, sob orientação de V. E. Chudnovski. Trabalhou no ambiente acadêmico associado a Lidia I. Bozhovich, que dirigia um laboratório dedicado ao estudo e ao desenvolvimento da personalidade e havia pertencido ao círculo intelectual relacionado a Lev Vigotski. Sua tese utilizou pesquisas realizadas em Cuba sobre o desenvolvimento dos ideais morais e das intenções profissionais de adolescentes e jovens (3).


Esse dado é fundamental para compreender sua trajetória posterior. González Rey não chegou à psicologia histórico-cultural por meio de traduções tardias ou de sua posterior recepção ocidental. Formou-se academicamente dentro do universo soviético, dominava o idioma russo e teve contato com pesquisadores diretamente envolvidos no desenvolvimento daquela tradição. Sua posterior crítica a determinadas interpretações da psicologia soviética seria, portanto, uma crítica produzida no interior de uma formação que conhecia profundamente.


Depois do primeiro doutorado, continuou investigando personalidade, saúde, educação e desenvolvimento humano. Esses estudos levaram-no progressivamente a questionar o modo como o conceito de atividade havia adquirido centralidade na psicologia soviética. O comportamento humano parecia-lhe não poder ser explicado adequadamente por uma relação linear entre condições externas, atividade e interiorização. Comunicação, motivação, emoções e organização singular da personalidade introduziam dimensões que resistiam a esse tipo de determinação (3).


Em 1987, González Rey obteve o grau de Doutor em Ciências pelo Instituto de Psicologia da Academia de Ciências da União Soviética. Já não se tratava apenas de estudar características da personalidade, mas de desenvolver recursos teóricos e metodológicos capazes de compreendê-la em movimento, nas relações sociais e nas situações concretas da vida.


A complexidade ainda não ocupava explicitamente o centro de seu vocabulário. Entretanto, começava a constituir-se o problema que posteriormente tornaria necessária uma perspectiva complexa.


3. A bibliografia como registro de uma transformação


A própria sucessão dos livros publicados por González Rey permite acompanhar essa mudança. Em vez de considerar sua bibliografia como simples inventário, é possível lê-la como registro das perguntas que foram se transformando ao longo da pesquisa.


Suas primeiras obras estão diretamente vinculadas aos problemas que haviam orientado sua formação: Motivación moral en adolescentes y jóvenes (1982), Algunas cuestiones metodológicas sobre el estudio de la personalidad (1982), Motivación profesional en adolescentes y jóvenes (1983) e Psicología de la personalidad (1985) (3). A personalidade aparece nesse período como problema capaz de articular motivação, desenvolvimento e singularidade individual.


Depois do Doutorado em Ciências, entretanto, os próprios títulos revelam uma ampliação. Personalidad, salud y modo de vida (1989) já aproxima personalidade e condições concretas da existência. La personalidad: su educación y desarrollo (1989), escrito com Albertina Mitjáns Martínez, articula personalidade e educação. Psicología: principios y categorías (1989) amplia o horizonte teórico, enquanto Personalidad, comunicación y desarrollo (1995) introduz de maneira mais explícita as relações comunicacionais no desenvolvimento psicológico (3).


Há nesse conjunto uma progressiva abertura do objeto. A personalidade não desaparece, mas torna-se cada vez menos concebível como estrutura interna relativamente autônoma. Saúde, educação, comunicação, desenvolvimento e relações sociais passam a integrar a compreensão do psicológico.


É particularmente significativo que, nesse percurso, apareça em 1993 Problemas epistemológicos de la psicología (11). Quatro anos antes da publicação de Epistemología Cualitativa y Subjetividad (10), González Rey já havia transformado a epistemologia em problema explícito de sua investigação. Isso sugere que a passagem da personalidade à subjetividade não foi apenas uma substituição terminológica. A transformação do objeto psicológico começava a exigir uma transformação na concepção do próprio conhecimento científico.


4. A Psicologia Social Crítica latino-americana e a redescoberta do sujeito


Enquanto desenvolvia sua carreira em Cuba, González Rey também se aproximava dos movimentos críticos que renovavam a Psicologia Social latino-americana. No início da década de 1980, participou ativamente desse ambiente intelectual e publicou em obras coletivas ao lado de autores como Ignacio Martín-Baró, Maritza Montero, Bernardo Jiménez e José Miguel Salazar. Em 1991, recebeu o Prêmio Interamericano de Psicologia (3).


Essa interlocução foi importante porque ampliou o problema que já emergia de seus estudos sobre personalidade. Se a psicologia individualista tendia a separar a pessoa das condições históricas e sociais de sua existência, certas versões estruturalistas ou deterministas do pensamento social produziam o problema inverso: a singularidade desaparecia diante das determinações sociais.


González Rey procuraria progressivamente escapar dessa alternativa. O indivíduo é constituído nas relações sociais e culturais, mas isso não significa que seja simples reflexo delas. É capaz de produzir sentidos, posicionar-se, criar alternativas e participar da transformação dos espaços sociais em que vive. A categoria de sujeito começa, então, a adquirir importância crescente.

Esse movimento também ajuda a compreender por que sua aproximação posterior com a complexidade não pode ser interpretada apenas como influência bibliográfica de Edgar Morin.


Antes de encontrar no pensamento complexo uma importante convergência epistemológica, González Rey já enfrentava, a partir da psicologia histórico-cultural e da Psicologia Social Crítica latino-americana, um problema tipicamente complexo: compreender simultaneamente a constituição social do indivíduo e sua capacidade de produzir algo que não estava previamente determinado pelas condições sociais.


5. Cuba e a experiência da tensão entre sujeito e sistema


A trajetória acadêmica de González Rey em Cuba foi intensa. Entre 1985 e 1990, dirigiu a Faculdade de Psicologia da Universidade de Havana e, entre 1990 e 1995, foi vice-reitor da mesma universidade. Também presidiu a Sociedade de Psicólogos de Cuba. Sua atividade científica, portanto, desenvolveu-se paralelamente a uma experiência institucional relevante, envolvendo gestão universitária, política científica e participação nos debates da psicologia latino-americana (3).


Essa dimensão biográfica adquire interesse particular quando observada à luz de sua posterior valorização do sujeito. González Rey viveu não apenas teoricamente, mas institucionalmente, as tensões entre criação intelectual e sistemas organizacionais. Seria inadequado transformar conflitos políticos posteriores em explicação direta de sua teoria, mas também seria artificial separar completamente sua experiência de vida de uma concepção que insiste na capacidade do sujeito de gerar alternativas diante de estruturas instituídas.


Em 1995, González Rey e Albertina Mitjáns Martínez vieram ao Brasil como professores visitantes. González Rey passou a atuar no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. O que inicialmente era uma permanência acadêmica temporária acabou adquirindo outro significado. Segundo a reconstrução biográfica realizada por Goulart, Mitjáns Martínez e Esteban-Guitart, no ano 2000, em consequência de tensões políticas com setores mais ortodoxos do Ministério da Educação Superior e do Partido Comunista cubano, González Rey e Mitjáns Martínez não foram autorizados a retornar a Cuba (2).


Esse episódio impede que sua mudança para o Brasil seja descrita simplesmente como migração acadêmica voluntária. A partir daquele momento, foi necessário reconstruir no Brasil parte importante de sua vida pessoal e profissional. O Centro Universitário de Brasília tornou-se seu principal espaço institucional, ao mesmo tempo que se ampliaram suas relações com pesquisadores brasileiros e estrangeiros.


A experiência é particularmente sugestiva quando relacionada, com a necessária prudência, a uma teoria que recusava compreender o sujeito como mero resultado das estruturas que o constituíram. González Rey havia sido formado pelo sistema acadêmico cubano e soviético, exercera posições de direção naquele sistema e, posteriormente, viveria um conflito com algumas de suas estruturas políticas. A autonomia do sujeito em relação aos sistemas sociais deixava de ser apenas um problema abstrato.


6. O Brasil e a passagem da personalidade à subjetividade


O ano de 1997 representa um marco bibliográfico e teórico. Dois anos depois de sua chegada ao Brasil, González Rey publicou Epistemología Cualitativa y Subjetividad (10), simultaneamente em São Paulo e Havana. O próprio acervo dedicado à sua obra considera essa publicação o início de um novo momento, no qual as consequências dos estudos anteriores sobre personalidade passam a ser desenvolvidas na direção de uma Teoria da Subjetividade em perspectiva cultural-histórica (3).


Albertina Mitjáns Martínez identifica nessa obra um momento de transição particularmente importante. Os avanços realizados nos estudos da personalidade haviam produzido conceitos capazes de integrar, no plano psicológico, diferentes dimensões da vida social da pessoa, compreendendo a personalidade na ação e evitando concebê-la como entidade determinista anterior ao comportamento. Entretanto, esse avanço teórico e metodológico ainda carecia de uma reflexão epistemológica correspondente. Epistemología Cualitativa y Subjetividad procura justamente responder a esse vazio (4).


Essa observação ajuda a compreender o sentido da passagem indicada no título deste artigo. González Rey não abandonou simplesmente a personalidade para aderir a uma nova categoria que estivesse em circulação. A categoria de subjetividade emerge quando o objeto anteriormente estudado já não cabe nos limites conceituais da personalidade centrada na pessoa. O novo sistema teórico deveria compreender simultaneamente a singularidade individual, os processos sociais, a história, as emoções e a produção simbólica.


É justamente nesse momento que a questão epistemológica se torna inevitável. Se a subjetividade não é uma entidade interna, se não é determinada linearmente pelo social e se não pode ser diretamente observada, então os procedimentos tradicionais de coleta e classificação de dados deixam de ser suficientes para conhecê-la. Uma transformação ontológica do objeto exige uma transformação epistemológica da relação com esse objeto.


7. A complexidade como chegada e não como ponto de partida


Essa trajetória permite reconsiderar a relação entre González Rey e o paradigma da complexidade. Seria historicamente inadequado supor que ele tivesse partido de Edgar Morin ou de alguma teoria previamente constituída da complexidade e aplicado seus princípios à Psicologia. Mitjáns Martínez chama atenção justamente para esse aspecto: a noção de complexidade que aparece na obra de González Rey não teve origem numa derivação da teoria de Morin. Sua gênese encontra-se antes no pensamento dialético e na tradição histórico-cultural, particularmente nas questões abertas por Vigotski e por outros autores dessa tradição (5).


Isso não diminui a relevância de Morin para uma leitura epistemológica posterior de González Rey. Ao contrário, permite compreender uma convergência mais interessante, porque alcançada por trajetórias distintas. Morin chega à complexidade enfrentando a fragmentação do conhecimento, o reducionismo e as separações entre sujeito e objeto, partes e todo, indivíduo e sociedade. González Rey chega a problemas semelhantes a partir da investigação psicológica concreta da personalidade, do desenvolvimento, da comunicação e, posteriormente, da subjetividade.


O percurso de González Rey mostra que a complexidade pode emergir do próprio esforço de compreender um objeto que resiste às simplificações. Quanto mais a personalidade era investigada em suas relações com a comunicação, a educação, a saúde e a sociedade, menos sustentável se tornava a ideia de uma organização psicológica individual explicável isoladamente. Quando a subjetividade passa ao centro da teoria, as relações entre indivíduo e sociedade, simbólico e emocional, história e presente, singularidade e cultura tornam-se constitutivas do próprio objeto.


A complexidade, nesse sentido, não é sinônimo de complicação ou de multiplicação de variáveis. Ela implica reconhecer relações constitutivas, emergências, contradições e processos que não podem ser explicados mediante causalidades lineares. É nesse ponto que o pensamento de González Rey passa a convergir de maneira profunda com o paradigma da complexidade.


Estudos posteriores sobre sua Epistemologia Qualitativa identificaram explicitamente essa convergência e observaram que o próprio González Rey reconhecia, entre os fundamentos de sua epistemologia, o marxismo, a epistemologia histórica francesa, Feyerabend e a teoria da complexidade (5). O ponto importante é a ordem histórica dessa aproximação: a complexidade não explica retrospectivamente toda a obra anterior; ela oferece um horizonte epistemológico compatível com problemas que a própria obra vinha produzindo.


8. Quando o novo objeto exige uma nova epistemologia


A Teoria da Subjetividade torna particularmente visível essa necessidade. A subjetividade, para González Rey, não é uma dimensão interior oposta à objetividade, mas uma forma de produção humana que articula processos simbólicos e emocionais e se constitui tanto individual quanto socialmente. Por isso, a subjetividade social não é uma realidade externa que determina a subjetividade individual, assim como esta não existe independentemente das relações sociais.


Em seu artigo de 2008 sobre subjetividade social, sujeito e representações sociais, González Rey afirma que vinha trabalhando havia aproximadamente quinze anos numa concepção de subjetividade que encontrava uma de suas fontes essenciais no último período da obra de Vigotski. Seu objetivo era precisamente articular subjetividade individual e social sem eliminar a capacidade geradora do sujeito (6). No mesmo artigo, apresenta subjetividade social, sujeito e representações sociais como componentes de um sistema complexo e dinâmico, reforçando que a complexidade já não aparece apenas como referência epistemológica externa, mas atravessa a própria constituição do objeto psicológico.


O problema ontológico repercute diretamente sobre a epistemologia. Se o sujeito é produtor de sentidos e se as configurações subjetivas são singulares, históricas e emergentes, não é possível imaginar que o pesquisador simplesmente recolha, por meio de instrumentos neutros, informações já prontas na realidade. O conhecimento também precisa ser concebido como processo.


É nesse contexto que ganha sentido o caráter construtivo-interpretativo da Epistemologia Qualitativa. A interpretação não constitui uma etapa posterior à coleta dos dados; ela participa da própria construção da informação. A teoria não é reservada ao início da pesquisa como quadro conceitual a ser posteriormente confirmado, nem ao final como explicação aplicada aos resultados. Ela participa continuamente da relação entre pesquisador, participantes e campo empírico.


Dessa forma, a passagem da personalidade à subjetividade acaba produzindo uma transformação que alcança o próprio estatuto do conhecimento. A pergunta deixa de ser apenas “como é constituída a personalidade?” e passa também a envolver “como podemos produzir conhecimento sobre processos subjetivos que não estão diretamente disponíveis à observação?”. A mudança teórica torna-se epistemológica.


9. Epistemologia Qualitativa e Metodologia Construtivo-Interpretativa


É importante distinguir, sem separar, três dimensões que se consolidam na maturidade da obra de González Rey. A Teoria da Subjetividade constitui seu sistema teórico; a Epistemologia Qualitativa fundamenta uma concepção específica de produção do conhecimento; e a Metodologia Construtivo-Interpretativa desenvolve as consequências metodológicas dessa epistemologia. As três dimensões são diferentes, mas se desenvolveram articuladamente (7).


Essa articulação impede que a proposta de González Rey seja reduzida a um novo conjunto de técnicas qualitativas. Em Investigación cualitativa y subjetividad (14), a discussão do compromisso ontológico da pesquisa qualitativa é articulada ao caráter construtivo-interpretativo do conhecimento, ao papel da teoria e à crítica do instrumentalismo. O problema, portanto, não consiste em preferir entrevista a questionário ou conversação a mensuração. Sua crítica dirige-se ao instrumentalismo que transforma técnicas em garantias de cientificidade e tende a imaginar que o instrumento oferece acesso direto ao objeto.


Na pesquisa construtivo-interpretativa, a relação entre pesquisador e participante torna-se dialógica, o singular adquire legitimidade para a produção do conhecimento e as informações são interpretadas dentro de um processo de construção teórica. Em Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação (8), González Rey desenvolve justamente essa concepção, na qual indicadores não correspondem a dados elementares encontrados na realidade, mas a construções interpretativas que ganham significado pelas relações estabelecidas com outras informações e com o modelo teórico em desenvolvimento.


Aqui se fecha, provisoriamente, um longo percurso iniciado décadas antes. As dificuldades encontradas para compreender a personalidade conduziram à ampliação do objeto psicológico; essa ampliação contribuiu para a emergência da subjetividade; a nova concepção de subjetividade exigiu uma nova epistemologia; e esta, por sua vez, tornou necessária outra compreensão do método. Não se trata de uma sequência linear, pois teoria, epistemologia e metodologia passaram a retroagir continuamente umas sobre as outras. É justamente essa recursividade que permite reconhecer a maturidade do pensamento complexo de González Rey.


10. A maturidade de uma obra construída entre fronteiras


A permanência no Brasil correspondeu ao período de maior consolidação e internacionalização de sua obra. Depois de atuar como professor visitante na Universidade de Brasília entre 1995 e 2000, González Rey tornou-se professor titular e pesquisador do Centro Universitário de Brasília. A partir de 2010, também atuou como pesquisador colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação da UnB, onde coordenou o grupo de pesquisa “A subjetividade na saúde e na educação” (3).


Sua produção se expandiu para a psicologia social, educação, saúde e psicoterapia e intensificou o diálogo com a Teoria das Representações Sociais. Obras como Sujeito e subjetividade: uma aproximação histórico-cultural (12), O social na psicologia e a psicologia social: a emergência do sujeito (13) e Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação (8) evidenciam uma produção em que as fronteiras entre campos da Psicologia se tornam cada vez menos rígidas.


Em 2017, vinte anos depois de Epistemología Cualitativa y Subjetividad (10), González Rey e Albertina Mitjáns Martínez publicaram Subjetividade: teoria, epistemologia e método (9). O próprio título sintetiza a configuração alcançada pela obra madura: teoria, epistemologia e metodologia são diferenciadas, mas sua inteligibilidade depende das relações que mantêm entre si.


Fernando González Rey morreu em 26 de março de 2019, aos 69 anos. Sua produção ultrapassava então dezenas de livros, numerosos capítulos e mais de uma centena de artigos publicados em diferentes idiomas (3). Mais importante que a quantidade, entretanto, é a trajetória intelectual que essa bibliografia permite reconstruir.


Considerações finais — Uma trajetória de complexificação


A trajetória de Fernando González Rey sugere que a complexidade não apareceu em sua obra como uma escolha epistemológica realizada de uma vez por todas. Ela foi sendo produzida à medida que os objetos de sua investigação resistiam às explicações disponíveis.


O jovem pesquisador interessado na motivação moral e profissional encontrou na personalidade uma categoria capaz de compreender a organização singular do indivíduo. O aprofundamento desse estudo, entretanto, mostrou que a personalidade não poderia ser separada da comunicação, da educação, da saúde, das relações sociais e da história. A formação soviética ofereceu instrumentos fundamentais para esse percurso, mas também produziu questões que o levaram a criticar formas deterministas da psicologia histórico-cultural. A participação na Psicologia Social Crítica latino-americana tornou ainda mais evidente a necessidade de compreender o indivíduo como socialmente constituído sem eliminar sua condição de sujeito.


A própria biografia acrescentou experiências a essa tensão. González Rey foi simultaneamente produto e crítico da tradição acadêmica na qual se formou; ocupou posições importantes nas instituições cubanas e, posteriormente, viveu conflitos com estruturas políticas daquele país; chegou ao Brasil como professor visitante e acabou reconstruindo aqui sua vida acadêmica. Não seria adequado deduzir seus conceitos dessas experiências, mas tampouco parece razoável imaginar que a reflexão sobre sujeito, autonomia, produção de sentidos e capacidade de gerar alternativas tenha ocorrido completamente à margem delas.


A bibliografia registra essa transformação com especial clareza. Entre os estudos sobre motivação e personalidade dos anos 1980, Problemas epistemológicos de la psicología (11), de 1993, e Epistemología Cualitativa y Subjetividad (10), de 1997, há mais do que uma sucessão de temas. Há uma progressiva mudança da própria maneira de formular o objeto da Psicologia e, consequentemente, de conceber como esse objeto pode ser conhecido.


É nesse sentido que se pode falar de uma passagem da personalidade à complexidade. Não porque González Rey tenha abandonado a personalidade e aderido posteriormente a uma teoria externa da complexidade, mas porque a investigação da personalidade abriu problemas que exigiram categorias cada vez mais relacionais, históricas e processuais. A subjetividade individual passou a ser inseparável da subjetividade social; o simbólico, do emocional; o sujeito, dos espaços sociais que simultaneamente o constituem e são por ele transformados; a teoria, do processo de pesquisa; o conhecimento, da atividade construtivo-interpretativa do pesquisador.


A complexidade aparece, assim, menos como destino previamente estabelecido e mais como resultado de uma trajetória intelectual. Essa interpretação também ajuda a compreender a convergência entre González Rey e Edgar Morin sem transformar o primeiro em discípulo do segundo. Ambos chegam, por caminhos diferentes, ao enfrentamento das disjunções e reducionismos que marcaram a ciência moderna. No caso de González Rey, porém, esse caminho começa no interior da Psicologia e passa pela experiência histórico-cultural soviética, pela Psicologia Social Crítica latino-americana e pela construção de uma teoria própria da subjetividade.


No artigo anterior, Entre a integração e a complexidade: Ken Wilber e González Rey na psicologia (1), a aproximação entre González Rey e o paradigma da complexidade foi examinada a partir de sua obra madura. A reconstrução de sua trajetória permite agora acrescentar outra dimensão: compreender como ele chegou até ali. E talvez essa seja uma das características mais fecundas de seu legado. Sua epistemologia não resultou simplesmente da aplicação de um paradigma previamente escolhido a um objeto. Foi o próprio objeto, progressivamente reconstruído, que exigiu uma epistemologia capaz de reconhecer incerteza, emergência, singularidade, contradição, recursividade e criação.


A vida e a obra de González Rey mostram, nesse sentido, que a complexidade pode ser menos um ponto de partida do que uma conquista intelectual.


Referências

(1) BOEIRA, Sérgio Luís. Entre a integração e a complexidade: Ken Wilber e González Rey na psicologia. 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/entre-a-integração-e-a-complexidade-ken-wilber-e-gonzález-rey-na-psicologia.

(2) GOULART, Daniel M.; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina; ESTEBAN-GUITART, Moisés. The trajectory and work of Fernando González Rey: paths to his Theory of Subjectivity. Studies in Psychology, v. 41, n. 1, 2020.

(3) GONZÁLEZ REY, Fernando. Trajetória acadêmica. Acervo Fernando González Rey. Disponível em: Acervo Fernando González Rey — Trajetória acadêmica.

(4) GONZÁLEZ REY, Fernando; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. Epistemologia Qualitativa: seus caminhos, avanços e desafios nos últimos vinte anos. In: GONZÁLEZ REY, Fernando; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. Subjetividade: teoria, epistemologia e método. Campinas: Alínea, 2017.

(5) ROSSATO, Maristela; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. Contribuições da Epistemologia Qualitativa de González Rey para estudos transdisciplinares. Psicologia & Sociedade, v. 30, 2018.

(6) GONZÁLEZ REY, Fernando. Subjetividad social, sujeto y representaciones sociales. Diversitas: Perspectivas en Psicología, v. 4, n. 2, p. 225-243, 2008.

(7) MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. Epistemologia Qualitativa: dificuldades, equívocos e contribuições para outras formas de pesquisa qualitativa. In: MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina; GONZÁLEZ REY, Fernando; PUENTES, Roberto Valdés (org.). Epistemologia qualitativa e teoria da subjetividade: discussões sobre educação e saúde. Uberlândia: EDUFU, 2019.

(8) GONZÁLEZ REY, Fernando. Pesquisa qualitativa e subjetividade: os processos de construção da informação. São Paulo: Thomson Learning, 2005.

(9) GONZÁLEZ REY, Fernando; MITJÁNS MARTÍNEZ, Albertina. Subjetividade: teoria, epistemologia e método. Campinas: Alínea, 2017.

(10) GONZÁLEZ REY, Fernando. Epistemología cualitativa y subjetividad. São Paulo: EDUC; Havana: Pueblo y Educación, 1997.

(11) GONZÁLEZ REY, Fernando. Problemas epistemológicos de la psicología. México: Colegio de Ciencias y Humanidades, Universidad Nacional Autónoma de México, 1993.

(12) GONZÁLEZ REY, Fernando. Sujeito e subjetividade: uma aproximação histórico-cultural. São Paulo: Thomson, 2003.

(13) GONZÁLEZ REY, Fernando. O social na psicologia e a psicologia social: a emergência do sujeito. Petrópolis: Vozes, 2004.

(14) GONZÁLEZ REY, Fernando. Investigación cualitativa y subjetividad. Guatemala: Oficina de Derechos Humanos del Arzobispado de Guatemala, 2006.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração de ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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