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Guerreiro Ramos e a sociedade multicêntrica: da racionalização do trabalho à reconceituação da riqueza

há 7 dias
14 min de leitura

Objetivo

Examinar a evolução do pensamento de Alberto Guerreiro Ramos desde seus primeiros estudos sobre racionalização, trabalho e relações humanas até a formulação da teoria da delimitação dos sistemas sociais, procurando compreender como sua crítica à sociedade centrada no mercado conduz à razão substantiva, à paraeconomia, às noções de isonomia e fenonomia, à ideia de organização resistente e à reconceituação da riqueza das nações. O ensaio estabelece, em segundo plano, um diálogo com Norbert Elias, Serge Moscovici e Edgar Morin e explora a atualidade dessa abordagem para interpretar formas organizacionais contemporâneas, como startups, scaleups, cooperativas populares e empreendimentos de economia social e solidária.


Resumo

Este ensaio dá continuidade ao artigo Interdependência, representação e complexidade: Norbert Elias em diálogo com Moscovici e Morin, deslocando agora Alberto Guerreiro Ramos para o centro da reflexão. O argumento acompanha a transformação histórica de seu pensamento sem pressupor uma continuidade linear entre conceitos formulados em momentos distintos. Nos textos dos anos 1940 e 1950, Guerreiro já tratava a racionalização do trabalho como processo historicamente situado e reconhecia formas de cooperação, reciprocidade e organização da atividade econômica não redutíveis ao mercado. Em 1966, seus modelos heurísticos de evolução tecnológica e administrativa associavam o desenvolvimento técnico à possibilidade de redução do trabalho físico, maior qualificação, comunicação, participação e responsabilidade. Na obra madura, especialmente em A nova ciência das organizações, essa questão é reformulada em termos de delimitação: mercado, burocracia, tecnologia e racionalidade instrumental são necessários, mas não podem converter-se em princípios universais da vida associada. O paradigma paraeconômico daí resultante concebe uma sociedade multicêntrica, na qual economias, isonomias, fenonomias e formas mistas coexistem segundo requisitos próprios de tecnologia, tamanho, cognição, espaço e tempo. O ensaio sugere que startups, scaleups sustentáveis, cooperativas populares e empreendimentos de economia social e solidária podem ser compreendidos como configurações contemporâneas nas quais se combinam, em diferentes proporções, criatividade fenonômica, participação isonômica, exigências econômicas e burocráticas. A noção de organização resistente acrescenta a essa arquitetura a questão da perduração social, humana e ecológica. Elias, Moscovici e Morin permanecem como interlocutores periféricos, contribuindo para pensar, respectivamente, a reconfiguração das interdependências, a naturalização cognitiva do mercadocentrismo e a contextualização complexa das racionalidades.



Introdução


No artigo anterior, Interdependência, representação e complexidade: Norbert Elias em diálogo com Moscovici e Morin (1), anunciei que retornaria ao tema deslocando Alberto Guerreiro Ramos para o centro. A mudança não é apenas de autor principal. Ela altera também a pergunta. Com Elias, interessava compreender como indivíduos e sociedades se constituem em redes de interdependência, como o poder se distribui em figurações móveis e como categorias aparentemente naturais — entre elas o próprio tempo — são produzidas historicamente. Moscovici permitia acrescentar a esse quadro a circulação social de representações, enquanto Morin trazia a exigência de religar aquilo que o pensamento simplificador separa. Guerreiro Ramos introduz um problema adicional: se formas sociais, racionalidades e conhecimentos são histórica e socialmente produzidos, como impedir que uma delas se apresente como medida universal das demais?


Essa questão percorre sua obra, embora assuma configurações diferentes ao longo de quatro décadas. Seria inadequado ler seus textos dos anos 1940 e 1950 como se neles já estivesse pronta a teoria da delimitação formulada em 1981. Mas também seria difícil ignorar a persistência de certas inquietações: o caráter histórico da racionalização, a inadequação da importação acrítica de modelos, a diversidade das formas de vida associada, o problema da autonomia, a tensão entre organização e liberdade e, progressivamente, a necessidade de submeter a racionalidade econômica a critérios mais amplos. É essa trajetória que interessa aqui. Não para demonstrar uma evolução necessária ou linear, mas para acompanhar a transformação de um problema.


1. A racionalização como acontecimento histórico


Em Uma introdução ao histórico da organização racional do trabalho, publicado em 1950, Guerreiro Ramos se recusa a tratar a organização racional do trabalho como simples conjunto de técnicas neutras. O tema é abordado historicamente: a racionalização moderna resulta de um processo secular de transformação das relações entre seres humanos, trabalho, natureza e sociedade (2).


Esse ponto merece atenção porque relativiza leituras que, apoiadas apenas no vocabulário da época, poderiam imputar ao jovem Guerreiro uma adesão simples a uma narrativa ascendente da modernização. Expressões como “primitivo”, “arcaico” ou “evolução” eram amplamente utilizadas nas ciências sociais do período; sua presença, isoladamente, não demonstra que sociedades tecnologicamente menos complexas fossem para ele formas humanas inferiores.


O que sua análise mostra é algo mais interessante: a racionalidade econômica moderna exige condições históricas específicas. Ela supõe diferenciação entre esferas antes entrelaçadas, mercantilização do trabalho, cálculo, previsão, disciplina temporal e permanente abertura à inovação. A passagem à modernidade pode, portanto, ser lida menos como ascensão moral do que como autonomização progressiva de determinadas esferas e racionalidades.


Essa percepção torna-se particularmente rica em Relaciones humanas del trabajo (3). Ao comentar formas de cooperação entre os Tupinambá, Guerreiro menciona o mutirão, no qual o trabalho envolve reciprocidade, alimentação, celebração e compromisso social. A recusa em participar podia ser entendida como ofensa; a ajuda prestada criava a expectativa de ajuda futura. O trabalho não aparecia, portanto, como mercadoria autonomizada, separável das relações sociais que lhe davam sentido.


É nesse contexto que Guerreiro Ramos recorre a Marcel Mauss. Ao mencionar o potlatch, mostra que um mesmo fenômeno pode ser simultaneamente econômico, moral, religioso, simbólico e político (3). Essa referência é relevante porque documenta um contato precoce com uma antropologia que recusava reduzir as trocas sociais à equivalência mercantil.


Não convém, entretanto, transformar esse achado numa genealogia retrospectiva. A teoria da paraeconomia ainda não existia. O que aparece é uma abertura para reconhecer que mercado, salário, lucro e tempo abstrato não esgotam as possibilidades históricas de organizar trabalho e sociabilidade. Essa constatação voltará a adquirir novo significado três décadas depois.


2. Tecnologia, participação e a transformação do trabalho


Outro momento importante encontra-se em Administração e estratégia do desenvolvimento, de 1966, mais tarde republicado, com reformulações, como Administração e contexto brasileiro (4). Guerreiro Ramos apresenta ali modelos heurísticos de evolução tecnológica e administrativa. A linguagem da “evolução” existe e não deve ser ocultada. Mas sua análise não se resume ao aumento da produtividade.


À medida que os sistemas produtivos se tornam tecnologicamente mais complexos, o trabalho diretamente físico tende a diminuir, enquanto aumentam qualificação, responsabilidade e necessidade de coordenação. O modelo que denomina “atualizante” apresenta menos níveis hierárquicos (piramidais) das relações, comunicações mais amplas e participação crescente nas decisões (4).


O interesse do argumento está em relacionar tecnologia a possibilidades humanas que não são estritamente produtivas. O progresso técnico pode liberar seres humanos de atividades repetitivas e pesadas, deslocando a atenção para criatividade, responsabilidade e participação.


Essa expectativa não elimina a ambivalência tecnológica. A mesma automação que reduz esforço físico pode ampliar vigilância, controle e intensificação do trabalho. A tecnologia não contém em si uma direção emancipatória. Sua significação depende do sistema social no qual é inserida e das finalidades às quais se subordina.


Essa ambivalência será decisiva na obra madura. O problema deixará de ser apenas desenvolver tecnologia ou racionalizar processos e passará a ser delimitar os contextos nos quais determinadas tecnologias e racionalidades são adequadas.


3. Quando a racionalização ultrapassa seus limites


Em A nova ciência das organizações (5), publicada em 1981, a mudança de perspectiva é profunda. Guerreiro Ramos não rejeita os ganhos da racionalização ocidental. Ao contrário, reconhece que a teoria convencional da organização demonstrou a possibilidade de utilizar sistematicamente conhecimento para produzir mais, produzir melhor e até liberar seres humanos de determinadas atividades do trabalho. O problema é que o êxito técnico foi acompanhado por uma concepção estreita de produção, capital e racionalidade.


A crítica, portanto, não se dirige à razão instrumental enquanto tal. Dirige-se à sua transformação em critério universal. O mercado é necessário, mas limitado. Essa formulação aparece de modo explícito quando Guerreiro apresenta a teoria da delimitação: a sociedade deve ser compreendida como composta por múltiplos sistemas sociais, entre os quais o mercado representa apenas um enclave. Isonomias, fenonomias e formas mistas integram a mesma tessitura social.


A consequência é decisiva. Uma forma organizacional não deveria ser julgada exclusivamente segundo critérios formulados para outra. Uma associação comunitária não é uma empresa ineficiente. Uma oficina criativa não é uma burocracia incompleta. Uma cooperativa não precisa ser avaliada apenas pelo retorno sobre capital. Um espaço isonômico não deveria ser considerado lento simplesmente porque a deliberação coletiva consome mais tempo do que uma decisão hierárquica. O problema da racionalidade passa então a ser também um problema de adequação entre critérios e contextos.


4. Isonomia e fenonomia: formas atuais de vida associada


As categorias de isonomia e fenonomia têm interesse justamente porque não são apresentadas como relíquias de um passado comunitário a ser restaurado.


Ao definir isonomia, Guerreiro ressalta explicitamente que não se trata de nostalgia. O termo serve para chamar atenção para possibilidades contemporâneas de ambientes sociais igualitários. Neles, prescrições são reduzidas e, quando inevitáveis, tendem a ser estabelecidas por consenso; as atividades são intrinsecamente gratificantes; a decisão não se separa rigidamente entre dirigentes e dirigidos; e a autoridade circula segundo o problema e a competência dos participantes.


O tamanho, entretanto, importa. Guerreiro adverte que, à medida que a isonomia cresce além de determinado ponto, relações diretas tendem a ceder lugar a relações secundárias e pode ocorrer transformação em democracia representativa, oligarquia ou burocracia.


A fenonomia acentua outra dimensão. Trata-se de sistema social iniciado por indivíduo ou pequeno grupo, caracterizado por ampla autonomia e mínima subordinação a prescrições formais. Sua finalidade é liberar criatividade; suas atividades são automotivadas; e, embora possam produzir resultados comercializáveis, o critério econômico permanece incidental relativamente à motivação de seus participantes. Guerreiro chega a afirmar que fenonomias são ambientes “protegidos” da penetração do mercado.


Isso não significa isolamento social. O membro da fenonomia mantém consciência social e procura compartilhar experiências e criações com outros.


Visto desse ângulo, o paradigma paraeconômico não propõe simplesmente mais tipos organizacionais. Ele questiona a premissa de que todas as formas de vida associada deveriam reproduzir a estrutura e os critérios da empresa econômica.


5. Desenhar organizações significa articular tempo, espaço, tamanho, tecnologia e cognição


Esse argumento se torna mais sofisticado no capítulo dedicado à “lei dos requisitos adequados”. Guerreiro sustenta que cada sistema social possui requisitos próprios de desenho e propõe examinar, de forma relacionada, tecnologia, tamanho, cognição, espaço e tempo.


A importância dessa formulação está justamente em impedir explicações monocausais. Não existe tamanho ideal em abstrato. Não existe tecnologia apropriada independentemente das finalidades. Não existe espaço neutro. Não existe temporalidade organizacional universal. Não existe cognição inteiramente separável da forma de organização.


Na própria dimensão tecnológica, Guerreiro insiste que todo sistema social possui alguma tecnologia — família, igreja, vizinhança, escola ou fábrica — e que a pergunta relevante é saber se essa tecnologia favorece ou dificulta a finalidade do sistema.


A cognição também varia. Sistemas econômicos tendem a privilegiar uma cognição funcional, orientada para produção e controle do ambiente; isonomias, uma cognição política, voltada ao bem-estar coletivo; fenonomias, uma cognição personalística, ligada ao autoconhecimento e ao desenvolvimento pessoal. Essas orientações, contudo, podem coexistir no mesmo cenário.


Essa última observação é particularmente importante: a teoria da delimitação não é uma teoria de compartimentos puros. Ela permite pensar misturas, fronteiras e combinações, desde que não se confundam os critérios próprios de cada racionalidade.


6. Startup, scaleup e os limites da expansão


É nesse ponto que formas organizacionais contemporâneas se tornam interessantes. A palavra startup foi banalizada pela mídia e pelo discurso empresarial. Muitas empresas consolidadas continuam sendo apresentadas como startups porque o termo adquiriu conotações positivas de juventude, tecnologia, inovação e dinamismo.


Do ponto de vista organizacional, porém, o momento mais interessante talvez seja justamente aquele em que a startup deixa de ser pequena. Enquanto poucos participantes concebem, experimentam, executam e decidem conjuntamente, uma startup pode apresentar forte componente fenonômico. Não porque toda startup seja uma fenonomia, mas porque pequena escala, autonomia, criatividade e reduzida burocracia podem aproximá-la desse tipo ideal.


A passagem para a scaleup altera o problema. Encontrado um nicho de mercado, cresce o número de clientes, contratos, trabalhadores e operações. Com o tamanho, reaparecem divisão de funções, procedimentos, controles, especialização e níveis de coordenação. A burocracia retorna.


Isso não significa necessariamente perda ou regressão. A questão guerreiriana seria outra: a burocracia reaparece como instrumento delimitado ou volta a converter-se em princípio dominante?

A scaleup é, por isso, mais interessante do que a startup como objeto organizacional. Ela permite observar se o crescimento preserva espaços de criatividade e participação ou se reconduz a organização à velha dicotomia entre quem concebe e quem executa.


Esse problema é ainda mais relevante em empresas orientadas à sustentabilidade. Uma organização de energia renovável, economia circular, regeneração ambiental ou tratamento de resíduos pode ter boas razões para ampliar sua escala. Mas escala não é sinônimo de valor substantivo. Uma empresa ambientalmente inovadora pode permanecer inteiramente submetida à lógica da valorização financeira, expansão permanente e externalização de custos. A pergunta não é apenas como escalar, mas o que merece ser escalado e dentro de quais limites.


7. Cooperativismo popular, economia solidária e isonomia


A aproximação com as cooperativas populares e os empreendimentos de economia social e solidária amplia o argumento. Se as startups evidenciam com maior nitidez a dimensão fenonômica da criatividade e da autonomia, cooperativas populares e empreendimentos solidários tornam mais visível a possibilidade isonômica da participação.


Na isonomia, Guerreiro descreve relações entre iguais, decisões abrangentes e ausência de uma agência diretora permanente e exclusiva. Essa formulação apresenta afinidade evidente com ideais de autogestão e cooperativismo, embora não permita identificar automaticamente cooperativa e isonomia.


A forma jurídica não resolve o problema. Uma cooperativa pode concentrar poder em poucos dirigentes, reduzir os cooperados à condição de executores e reproduzir internamente mecanismos típicos da empresa convencional. Da mesma forma, uma associação popular pode depender de burocracias estatais, contratos privados ou cadeias produtivas que condicionem fortemente sua autonomia.


É por isso que a convergência entre economia social e solidária e paraeconomia é mais fecunda quando pensada como tensão organizacional, e não como identidade.


Em estudo sobre fenonomia, isonomia e economia social e solidária, essa aproximação aparece justamente pela defesa de uma economia plural, na qual recursos mercantis, não mercantis e não monetários se combinam, deslocando a rentabilidade do capital da posição de critério exclusivo.


A economia solidária torna-se, então, interessante não porque esteja fora da economia, mas porque pode reinscrever a atividade econômica num tecido mais amplo de relações sociais, comunitárias e políticas. O cooperativismo popular, nessa leitura, é menos uma negação do mercado do que uma tentativa de delimitá-lo.


8. Organização resistente: perdurar sem se tornar imóvel


A noção de organização resistente leva essa discussão a outro nível. No capítulo final de A nova ciência das organizações, Guerreiro introduz a ideia de endurance, traduzida como resistência ou perduração. A produção, argumenta, não é apenas questão técnica, mas também moral, porque os seres humanos produzem a si mesmos enquanto produzem coisas. O consumo ilimitado exaure o próprio ser humano e a produção afeta uma natureza que não é matéria inerte, mas sistema vivo sujeito a limites biofísicos.


O termo “perduração” é intencional. Não significa manutenção imóvel. Guerreiro o define como retenção de caráter em meio à mudança, uma busca de equilíbrio entre conservação e transformação. Essa formulação é extraordinariamente atual. Uma organização resistente não é aquela que simplesmente sobrevive financeiramente. Também não é aquela que congela sua estrutura. É aquela capaz de mudar sem destruir as condições humanas, sociais e biofísicas que tornam sua existência possível.


É aqui que cooperativas populares, empreendimentos solidários e scaleups sustentáveis podem ser aproximados por uma questão comum. Uma cooperativa é resistente quando preserva autogestão, participação e vínculos comunitários sem sucumbir à precarização ou à captura por agentes externos.


Uma scaleup é resistente quando cresce sem converter crescimento em finalidade absoluta e sem destruir os núcleos de criatividade, autonomia e participação que lhe deram origem. Uma organização orientada à sustentabilidade é resistente quando seu funcionamento não depende da degradação dos ecossistemas que sustentam sua própria base material.


Guerreiro liga explicitamente essa discussão à crítica da teoria econômica e organizacional que trata organizações como se estivessem separadas da esfera biofísica. Organizações projetadas segundo critérios exclusivamente econômicos retiram matéria e energia do ambiente, devolvendo-as de forma degradada, e podem comprometer as condições de uma existência humana, física e social perdurável. A sustentabilidade aparece, assim, não como adjetivo acrescentado à organização, mas como problema central de sua própria possibilidade de duração.


9. Da organização à riqueza


Nesse ponto, o subtítulo do livro de 1981 deixa de parecer excessivamente ambicioso: uma reconceituação da riqueza das nações. A crítica à organização centrada no mercado desemboca necessariamente numa crítica aos critérios pelos quais uma sociedade define riqueza.


Se riqueza é aquilo que passa pelo mercado e pode ser contabilizado monetariamente, aquilo que ocorre fora dele tende a desaparecer. Tempo de convivência, reciprocidade, participação comunitária, autonomia, criatividade, preservação de ecossistemas, cuidado, conhecimento compartilhado ou redução do trabalho penoso podem aparecer como economicamente irrelevantes.


Esse empobrecimento cognitivo ajuda a explicar por que o crescimento do produto pode coexistir com deterioração social e ecológica. Guerreiro critica explicitamente a concepção serialista de desenvolvimento e registra a tentativa contemporânea de reconceituá-lo não como simples aumento irrestrito do produto nacional, mas como melhoria qualitativa do ambiente humano e equalização social e econômica.


A teoria da delimitação pode ser compreendida, assim, como uma crítica simultaneamente organizacional e civilizatória. Uma sociedade multicêntrica requer organizações plurais porque reconhece formas plurais de realização humana. E precisa reconhecer formas plurais de riqueza para que essas organizações possam existir sem serem continuamente submetidas aos critérios da economia mercantil.


10. Elias, Moscovici e Morin novamente


Chegamos, então, aos interlocutores do ensaio anterior. Elias ajuda a impedir que os enclaves guerreirianos sejam transformados em compartimentos imóveis. Organizações são figurações: seus equilíbrios de poder, dependências e relações se transformam. Uma startup pode burocratizar-se; uma cooperativa pode oligarquizar-se; uma empresa convencional pode abrir espaços de autonomia; uma organização resistente pode perder as condições que sustentavam sua resistência.


A delimitação deve ser pensada também como processo de reconfiguração. Moscovici permite iluminar outro aspecto. A sociedade mercadocêntrica não depende apenas de instituições econômicas; depende também de representações que tornam determinados critérios aparentemente naturais.


“Crescimento”, “produtividade”, “competitividade”, “empreendedorismo”, “inovação” e “eficiência” não são palavras neutras. Circulam socialmente carregadas de valores e expectativas. Quando uma organização passa a considerar inevitável crescer continuamente, não se trata apenas de estratégia econômica. Há uma política cognitiva que define antecipadamente o que deve ser entendido como sucesso.


Nesse ponto, a aproximação entre Moscovici e Guerreiro Ramos torna-se particularmente fecunda. Guerreiro dedica um capítulo inteiro à “política cognitiva” e sustenta que a teoria organizacional dominante aceita pré-analiticamente a sociedade centrada no mercado como estado normal das relações humanas.


Morin acrescenta uma terceira dimensão. A delimitação não significa separação rígida, mas contextualização. Economia, tecnologia, burocracia e razão instrumental precisam ser distinguidas, não abolidas. O problema surge quando uma lógica parcial se autonomiza e pretende definir o todo.


Nesse sentido, a proposta guerreiriana converge com o princípio complexo de distinguir sem separar e associar sem reduzir.


Considerações finais


O percurso de Guerreiro Ramos torna-se mais interessante quando não procuramos transformá-lo numa linha reta. Nos primeiros textos, a racionalização aparece como fato histórico e socialmente condicionado. Formas não modernas de organização do trabalho revelam que reciprocidade, produção, simbolismo e sociabilidade podem permanecer entrelaçados. Em 1966, o desenvolvimento tecnológico é relacionado à possibilidade de maior qualificação, responsabilidade e participação. Na obra madura, porém, já não basta perguntar o que a tecnologia permite fazer. É preciso perguntar a quais finalidades ela serve e em quais sistemas sociais é introduzida.


A teoria da delimitação desloca, então, a própria questão administrativa. Não se trata de encontrar a forma organizacional universalmente superior. Trata-se de reconhecer que diferentes formas de vida associada requerem diferentes combinações de tecnologia, tamanho, cognição, espaço e tempo.


A isonomia ilumina experiências de igualdade e participação. A fenonomia ilumina autonomia e criatividade. A economia conserva funções indispensáveis de produção e coordenação. A organização resistente acrescenta a exigência de perduração humana, social e ecológica.


As formas contemporâneas tornam visível essa pluralidade. Uma startup pode aproximar-se da fenonomia; uma scaleup pode demonstrar se criatividade e participação resistem ao crescimento; uma cooperativa popular pode aproximar-se da isonomia; um empreendimento de economia solidária pode recombinar mercado, reciprocidade e autogestão. Nada disso é garantido pelo nome.

É justamente aí que a teoria de Guerreiro Ramos conserva força crítica.


Ela nos obriga a perguntar não apenas que organização temos, mas que relações ela produz, que racionalidade nela predomina, que temporalidade impõe, que tecnologia mobiliza, que tamanho admite, que cognição estimula e que formas de riqueza reconhece.


Sua crítica ao mercadocentrismo não é uma crítica ao mercado como tal, mas à sua transformação em princípio universal de vida. Sua crítica à burocracia não exige ausência de coordenação, mas delimitação. Sua crítica à tecnologia não é regressiva, porque reconhece que o avanço técnico pode liberar seres humanos de trabalhos penosos.


E sua concepção de resistência não significa imobilidade, mas a capacidade de reter caráter em meio à mudança. Talvez seja esse um dos sentidos mais atuais de sua reconceituação da riqueza das nações: uma sociedade não é rica apenas porque produz mais mercadorias, mas porque consegue multiplicar formas de vida, de associação, de criação e de participação sem destruir as condições biofísicas e sociais que tornam essa pluralidade possível.


A sociedade multicêntrica seria, nesse sentido, também uma sociedade capaz de reconhecer uma riqueza multicêntrica.


Referências

(1) BOEIRA, Sérgio Luís. Interdependência, representação e complexidade: Norbert Elias em diálogo com Moscovici e Morin. Disponível em https://www.websergioluisboeira.com/post/interdependência-representação-e-complexidade-norbert-elias-em-diálogo-com-moscovici-e-morin-1 acesso em 14 set de 2026.

(2) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Uma introdução ao histórico da organização racional do trabalho. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1950.

(3) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Relaciones humanas del trabajo: introducción a la sociología industrial. México, D.F.: Universidad Nacional Autónoma de México, Instituto de Investigaciones Sociales, 1951.

 (4) GUERREIRO RAMOS, Alberto. Administração e estratégia do desenvolvimento: elementos de uma sociologia especial da administração. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1966. Republicado posteriormente como Administração e contexto brasileiro: esboço de uma teoria geral da administração. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1983.

(5) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 1989.

(6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. As confusões em torno do industrialismo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 27 dez. 1981.

(7) ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivíduos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.

(8) MOSCOVICI, Serge. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.

(9) MORIN, Edgar. Ciência com consciência. 2. ed. rev. e mod. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.


P.S.: Usei a IA GPT 5-6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 

 
 
 

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