Institutos de pesquisa eleitoral: cientificidade e política cognitiva
Objetivo
Analisar/interpretar criticamente os pressupostos epistemológicos, metodológicos e organizacionais dos institutos de pesquisa eleitoral, examinando como a predominância dos surveys quantitativos se relaciona com a racionalidade instrumental e as exigências econômicas e temporais do mercado. Propõe-se compreender os institutos como sistemas epistemológico-organizacionais, cujas culturas científicas, equipes, instrumentos, relações de financiamento e formas de comunicação condicionam, sem determinar mecanicamente, a produção do conhecimento. Busca-se, ainda, desenvolver a ideia de metacognição organizacional como condição para ampliar a cientificidade das pesquisas e a capacidade crítica dos cidadãos.
Resumo
As pesquisas eleitorais constituem uma modalidade de produção de conhecimento que participa da dinâmica política que procura investigar. Sua credibilidade costuma ser associada à dimensão amostral, à margem de erro, ao nível de confiança e à proximidade entre resultados divulgados e resultados eleitorais posteriores. Esses critérios, embora relevantes, são insuficientes para avaliar a cientificidade da pesquisa. O presente artigo argumenta que diferentes investigações quantitativas e qualitativas apresentam graus distintos de consistência, confiabilidade e reflexividade, condicionados pelos pressupostos epistemológicos e pelas características das organizações que as produzem. A crítica não se dirige à quantificação, pois metodologias qualitativas podem incorporar dados quantitativos, desenhos mistos e múltiplas técnicas. O problema está na predominância de uma concepção unilateral de pesquisa, historicamente associada ao positivismo e ao dualismo sujeito–objeto, que tende a privilegiar padronização, mensuração e comparabilidade em detrimento da intensidade, da historicidade e da complexidade dos processos sociais. A partir de C. Wright Mills, Pierre Bourdieu, Pedro Demo, Edgar Morin e Alberto Guerreiro Ramos, desenvolve-se o conceito de perfil epistemológico-organizacional e examina-se a afinidade entre o empirismo abstrato e a racionalidade instrumental das sociedades mercadocêntricas. Discute-se como a formação das equipes, o treinamento dos agentes, os questionários, as modalidades de coleta, os financiadores e as formas de divulgação participam da política cognitiva das pesquisas. Ao final, propõe-se a metacognição dos institutos e a alfabetização epistemológica dos cidadãos como alternativas à aceitação acrítica ou à rejeição generalizada dos resultados eleitorais.

Introdução
As pesquisas eleitorais ocupam uma posição peculiar nas democracias contemporâneas. Apresentam-se como instrumentos científicos destinados a conhecer as preferências políticas da população, mas são também produtos de organizações inseridas em mercados, dependentes de recursos econômicos, constituídas por profissionais com diferentes formações e relacionadas a clientes, financiadores e meios de comunicação. Seus resultados não permanecem confinados ao universo científico. Transformam-se em manchetes, interpretações políticas, expectativas eleitorais e conteúdos que circulam rapidamente nas plataformas digitais.
Em texto anterior, Pesquisas de opinião e crise dos incumbentes: limites de um paradigma simplificador, examinei como as pesquisas podem transformar processos políticos multidimensionais em distribuições percentuais de respostas individuais (1). A questão exige, entretanto, um aprofundamento epistemológico e organizacional. A simplificação não decorre exclusivamente do questionário ou do instrumento survey. Está relacionada à formação dos pesquisadores, às concepções de ciência predominantes, às rotinas organizacionais, aos custos e prazos, à divisão do trabalho científico e às condições econômicas e políticas de produção e circulação dos resultados.
O argumento aqui desenvolvido não pressupõe que as pesquisas quantitativas sejam dispensáveis ou incompatíveis com o conhecimento científico. Tampouco considera que toda pesquisa qualitativa seja necessariamente mais consistente. A diferença fundamental encontra-se nos pressupostos epistemológicos e no grau de abertura dos processos de investigação. A tradição quantitativa convencional consolidou-se sob forte influência positivista, privilegiando a delimitação prévia de variáveis, a separação analítica entre sujeito e objeto, a padronização e a mensuração. O campo qualitativo, por sua vez, abriga maior diversidade de perspectivas epistemológicas e apresenta potencial para articular procedimentos hermenêuticos, fenomenológicos, dialéticos, construtivistas, críticos, pragmatistas e complexos. Essa abertura permite incorporar dados quantitativos, estatísticas, surveys e estudos mistos, quando necessários à compreensão do problema.
O artigo desenvolve essa discussão inicialmente por meio da distinção entre cientificidade, quantificação e pluralidade metodológica. Em seguida, retoma a crítica de C. Wright Mills ao empirismo abstrato, articulando-a com a economia política da pesquisa. A terceira seção examina a trajetória intelectual de Guerreiro Ramos, desde sua preocupação juvenil com a formação metodológica até a crítica madura da racionalidade instrumental. Na sequência, os institutos eleitorais são compreendidos como sistemas epistemológico-organizacionais, discutindo-se a formação das equipes, os instrumentos e a formulação das perguntas como componentes da política cognitiva. Posteriormente, analisam-se a temporalidade mercadocêntrica das pesquisas e sua participação recursiva nos processos políticos. Por fim, apresentam-se as possibilidades de metacognição organizacional dos institutos e de alfabetização epistemológica dos cidadãos.
Cientificidade, quantificação e pluralidade metodológica
A cientificidade não deveria ser compreendida como uma propriedade binária, segundo a qual determinada investigação seria simplesmente científica ou não científica. Entre pesquisas metodologicamente consistentes e investigações extremamente frágeis existe uma diversidade de situações. Diferentes estudos apresentam graus distintos de coerência entre problema, teoria, epistemologia, métodos, técnicas, produção de dados, interpretação e reconhecimento de limitações.
Essa perspectiva permite evitar a oposição simplista entre pesquisas quantitativas e qualitativas. Pedro Demo, em Pesquisa e informação qualitativa: aportes metodológicos, chama a atenção para as relações entre quantidade e qualidade e, particularmente, entre extensão e intensidade dos fenômenos sociais (2). A extensão permite examinar frequências, distribuições e dimensões mensuráveis. A intensidade remete a processos, significados, experiências, ambiguidades, relações e potencialidades que não se deixam apreender integralmente por operações de contagem.
Saber quantos indivíduos escolheram determinada alternativa constitui conhecimento relevante. Não significa, porém, compreender necessariamente a intensidade, a estabilidade, a historicidade, as contradições e os significados sociais daquela escolha. Um percentual de intenção de voto pode agregar pessoas com trajetórias, expectativas, medos, convicções e graus de comprometimento muito diferentes. A equivalência estatística das respostas não corresponde à equivalência sociológica das experiências que as produziram.
Por outro lado, a pesquisa qualitativa não possui garantia automática de qualidade. Uma investigação pode utilizar entrevistas abertas e ainda assim reproduzir interpretações superficiais, selecionar inadequadamente seus interlocutores ou impor categorias aos participantes. O que caracteriza sua potencialidade é a possibilidade de manter o desenho investigativo relativamente aberto à emergência de dimensões não previstas, à revisão das hipóteses, à contextualização dos dados e à combinação de procedimentos.
Uma metodologia qualitativa pode incorporar informações quantitativas de maneira substantiva. Indicadores socioeconômicos, séries históricas, estatísticas, levantamentos amostrais, análise de redes e questionários podem participar de uma investigação hermenêutica, dialética ou orientada pela complexidade. A utilização de números não converte automaticamente o conjunto da investigação numa epistemologia positivista.
A diferença é fundamental: quantificação é uma operação metodológica; positivismo é uma orientação epistemológica. Embora exista uma relação histórica importante entre a consolidação da pesquisa quantitativa convencional e o positivismo, não se deve confundir uma técnica com a totalidade dos pressupostos que podem orientar seu uso.
A tradição quantitativa convencional foi influenciada por concepções de objetividade associadas à separação entre sujeito e objeto, herdeiras, em parte, do dualismo cartesiano e da posterior valorização positivista da observação controlada. A realidade social tende a ser decomposta em variáveis previamente operacionalizadas, mensuradas e relacionadas estatisticamente. Esses procedimentos podem ser úteis, mas apresentam limitações quando o pesquisador transforma uma redução metodológica em representação suficiente da realidade.
A perspectiva da complexidade de Edgar Morin contribui para compreender esse problema. O conhecimento necessita distinguir e abstrair, mas também precisa religar aquilo que foi separado. A simplificação torna-se epistemologicamente problemática quando elimina as interdependências, a historicidade, as retroações, as incertezas e as relações entre observador e objeto (3).
A cientificidade, portanto, não se reduz à correção formal dos procedimentos. Exige reflexividade sobre as condições de produção do conhecimento e sobre os limites das inferências realizadas. É precisamente essa exigência que permite aproximar Demo, Morin e a crítica de Mills ao empirismo abstrato.
O empirismo abstrato e a indústria das pesquisas
A crítica de C. Wright Mills, desenvolvida em A imaginação sociológica, permanece particularmente pertinente para compreender as pesquisas eleitorais contemporâneas. No capítulo dedicado ao empirismo abstrato, Mills examina as pesquisas de opinião, as entrevistas, a especialização metodológica e as condições econômicas da investigação social (4).
Sua crítica não consiste em rejeitar a empiria ou a estatística. Dirige-se à autonomização das técnicas em relação aos problemas substantivos da ciência social. O empirismo abstrato surge quando determinada maneira de produzir dados adquire tamanho prestígio institucional que passa a orientar a própria definição dos problemas investigados. Em lugar de selecionar os métodos segundo as exigências de compreensão do objeto, o pesquisador tende a selecionar os objetos que podem ser adequadamente processados pelos métodos disponíveis.
O procedimento descrito por Mills continua reconhecível nas pesquisas de opinião: indivíduos selecionados mediante determinados critérios respondem a perguntas previamente formuladas; as respostas são classificadas e transformadas em variáveis; posteriormente, operações estatísticas produzem proporções, cruzamentos e associações. A sofisticação matemática dessas operações não resolve necessariamente os problemas epistemológicos envolvidos na construção inicial das categorias, na seleção dos participantes ou na interpretação das respostas.
Mills acrescenta uma dimensão organizacional decisiva. Pesquisas extensas exigem recursos financeiros, equipes, tecnologias, divisão do trabalho e administração. O pesquisador passa a integrar uma organização na qual a definição dos problemas, a distribuição de tarefas e os critérios de produtividade podem depender de interesses e condições que ultrapassam a investigação científica propriamente dita.
É nesse contexto que o autor identifica uma tensão entre a economia da verdade, relacionada aos custos da investigação, e a política da verdade, relacionada à capacidade de selecionar e esclarecer problemas socialmente relevantes. Quando a pesquisa depende de organizações capazes de financiar procedimentos onerosos, a autonomia na definição dos problemas pode entrar em tensão com as demandas daqueles que custeiam sua realização.
A reflexão de Mills permite compreender a existência de uma indústria de pesquisas de opinião sem pressupor que todos os seus integrantes ajam da mesma maneira ou que os resultados sejam necessariamente manipulados. A questão central é estrutural: determinadas formas de produção de conhecimento apresentam maior compatibilidade com as exigências de financiamento, rapidez, padronização e circulação comercial dos resultados.
Guerreiro Ramos: da formação metodológica à crítica da racionalidade instrumental
A trajetória intelectual de Alberto Guerreiro Ramos oferece elementos especialmente relevantes para aprofundar essa discussão. Em 1947, no artigo “A pesquisa e os ‘surveys’ sociais”, publicado na Revista do Serviço Público, o jovem autor criticava a insuficiência do treinamento dos cientistas sociais brasileiros no emprego dos métodos e no manejo das técnicas de pesquisa (5).
Nesse texto, Guerreiro Ramos valorizava a formação técnica dos pesquisadores e a organização institucional da investigação. Recuperando uma classificação de Donald Pierson, distinguia pontos de vista, métodos e técnicas, identificando a entrevista, o formulário, o questionário e a história de vida como técnicas que poderiam integrar diferentes desenhos metodológicos. Também atribuía importância à estatística, à observação rigorosa e à classificação dos dados.
Sua interpretação do survey social é particularmente significativa. Guerreiro Ramos distinguia-o de uma técnica isolada, recuperando sua origem histórica vinculada à identificação de problemas sociais e à mobilização de conhecimentos para enfrentá-los. Ao examinar a investigação de Charles Booth sobre as condições de vida das classes pobres de Londres, destacava a utilização de múltiplos métodos e técnicas, além da participação de uma equipe de pesquisadores qualificados (5).
É importante situar historicamente essa contribuição. O Guerreiro Ramos de 1947 ainda se encontrava próximo de uma concepção positivista de pesquisa social. Acreditava que observação e classificação rigorosas poderiam contribuir para corrigir a influência das inclinações ideológicas do pesquisador, chegando a caracterizar a investigação científica como relativamente emancipada dos julgamentos de valor.
O documento, portanto, não deve ser interpretado como antecipação integral de sua obra madura. Seu interesse reside justamente em revelar uma etapa da formação epistemológica de Guerreiro Ramos, na qual a valorização da competência técnica e da investigação empírica desempenhava papel relevante. A crítica posterior à racionalidade instrumental não precisa ser entendida como rejeição da matemática, da estatística ou da quantificação, mas como ampliação da reflexão sobre seus pressupostos e limites.
Em A nova ciência das organizações, Guerreiro Ramos desenvolve uma crítica abrangente da teoria organizacional convencional e da predominância da racionalidade instrumental nas sociedades mercadocêntricas (6). A organização econômica deixa de ser compreendida como referência universalmente adequada para ordenar todas as dimensões da vida humana. O autor questiona a redução da racionalidade ao cálculo utilitário, à eficiência e à adaptação funcional.
Essa contribuição permite avançar da crítica dos instrumentos para a crítica das organizações produtoras de conhecimento. Uma organização não apenas emprega métodos. Também estrutura formas de perceber a realidade, selecionar problemas, classificar informações, reconhecer evidências e orientar comportamentos.
É nessa perspectiva que podemos compreender os institutos eleitorais como sistemas epistemológico-organizacionais.
O perfil epistemológico-organizacional dos institutos
Um instituto de pesquisa não constitui simplesmente uma empresa que escolhe uma técnica para obter informações. É uma organização historicamente constituída, formada por profissionais com diferentes trajetórias intelectuais, inserida em relações econômicas e sociais, dotada de tecnologias, hierarquias, rotinas, linguagens e critérios próprios para reconhecer aquilo que considera conhecimento válido.
Proponho denominar perfil epistemológico-organizacional o conjunto de pressupostos epistemológicos, formações disciplinares, práticas metodológicas, culturas organizacionais, tecnologias, relações econômicas, procedimentos de treinamento, critérios de validação e mecanismos de poder que condicionam, sem determinar mecanicamente a maneira pela qual uma organização seleciona, constrói, interpreta e comunica conhecimentos.
Dois institutos podem utilizar formalmente a mesma modalidade de pesquisa e apresentar perfis epistemológico-organizacionais diferentes. Um pode concentrar profissionais provenientes da estatística, do marketing e da pesquisa de mercado. Outro pode incorporar sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, especialistas em comunicação e estatísticos trabalhando de maneira interdisciplinar. Um pode desenvolver uma cultura de crítica interna, triangulação e revisão de pressupostos. Outro pode organizar predominantemente suas atividades em função da padronização, da velocidade e da redução de custos.
Essas diferenças não autorizam conclusões deterministas. Uma equipe interdisciplinar não produz necessariamente uma pesquisa mais consistente. Um profissional formado em marketing ou estatística não produz necessariamente conhecimento menos confiável. A questão é reconhecer que formação, cultura organizacional e pressupostos epistemológicos podem influenciar o conhecimento produzido e, portanto, não constituem variáveis desprezíveis nem neutras.
A formação dos profissionais também não se reduz à titulação acadêmica. Importam a experiência de campo, a familiaridade com diferentes tradições teóricas, a capacidade de reconhecer ambiguidades, o domínio das técnicas utilizadas e a disposição para submeter procedimentos à crítica. Uma organização pode reunir profissionais de diferentes disciplinas e continuar epistemologicamente fragmentada, caso cada especialista trabalhe isoladamente. A interdisciplinaridade exige diálogo efetivo e disposição para reconstruir conjuntamente os problemas investigados.
O conceito de perfil epistemológico-organizacional permite, assim, investigar diferenças entre institutos sem reduzi-las à propriedade empresarial ou à origem do financiamento. As relações econômicas importam, mas não esgotam a explicação. A própria organização pode desenvolver tradições profissionais, valores científicos e práticas internas relativamente autônomas, capazes de mediar ou contrariar determinadas pressões externas.
Política cognitiva: quem define as perguntas?
Pierre Bourdieu, em “A opinião pública não existe”, contribui para problematizar as pressuposições envolvidas na produção das pesquisas de opinião (7). Sua crítica dirige-se, entre outros aspectos, à suposição de que todos os indivíduos possuam opiniões constituídas sobre qualquer questão apresentada, de que essas opiniões sejam equivalentes e de que exista consenso suficiente sobre quais problemas merecem ser formulados.
O questionário não é um recipiente neutro no qual opiniões previamente existentes são simplesmente depositadas. Alguém decidiu o que perguntar, quais palavras utilizar, quais alternativas apresentar, quais temas excluir e em que ordem organizar as questões. Antes de o participante responder, uma parcela decisiva da realidade pesquisada já foi cognitivamente organizada pelo pesquisador e pela instituição responsável.
Uma pergunta sobre intenção de voto pode produzir informação relevante, mas transforma processos históricos, culturais e políticos complexos em uma variável categórica individual. Pessoas com experiências sociais profundamente diferentes passam a integrar uma mesma categoria estatística porque indicaram o mesmo candidato. O procedimento pode ser adequado para estimar uma distribuição de preferências, mas não permite, isoladamente, compreender os diferentes significados daquela escolha.
A formulação das perguntas integra, portanto, uma política cognitiva. Não é necessário pressupor manipulação intencional. Toda investigação seleciona dimensões da realidade. O problema epistemológico aparece quando as escolhas que estruturaram essa seleção desaparecem da apresentação dos resultados e a representação construída passa a circular como expressão transparente da opinião pública.
A própria American Association for Public Opinion Research (AAPOR) reconhece a importância da formulação e da apresentação dos instrumentos, incluindo informações contextuais anteriores, instruções aos participantes e procedimentos que podem influenciar as respostas. Seus padrões de transparência abrangem também pesquisas qualitativas, entrevistas em profundidade e grupos focais, não apenas surveys quantitativos (10).
Esse reconhecimento técnico, entretanto, pode ser ampliado por uma reflexão epistemológica: não basta divulgar como a pergunta foi formulada; é necessário examinar por que determinado problema foi transformado naquela pergunta e quais dimensões ficaram fora do campo de investigação.
Instrumentos, desigualdades sociais e formação dos agentes
A política cognitiva não se limita ao questionário. Também envolve os instrumentos de coleta e as condições sociais de acesso aos participantes. Telefone, entrevistas domiciliares, abordagens nas ruas e plataformas digitais não são canais perfeitamente intercambiáveis. Cada modalidade estabelece condições diferentes de contato, participação e interação. A escolha do instrumento pode favorecer ou dificultar o acesso a determinados grupos sociais, produzir diferentes taxas de recusa e influenciar a disposição para responder a questões politicamente sensíveis.
No caso das pesquisas telefônicas, por exemplo, não basta considerar a posse de telefone. É necessário que a pessoa seja alcançável, atenda à ligação, confie minimamente na legitimidade do contato, disponha de tempo, compreenda as perguntas, aceite expressar suas preferências e permaneça até o encerramento do questionário. Cada uma dessas condições pode apresentar relações diferentes com renda, escolaridade, idade, ocupação, território, familiaridade tecnológica e confiança institucional.
As ponderações estatísticas podem corrigir desequilíbrios conhecidos na composição da amostra, mas não demonstram automaticamente que os participantes sejam equivalentes aos não participantes dentro das mesmas categorias demográficas. Uma amostra pode ser ajustada estatisticamente e conservar mecanismos socialmente seletivos de participação.
O trabalho dos agentes de coleta também precisa ser considerado. Dois institutos podem anunciar duas mil entrevistas presenciais e produzir dados sob condições muito diferentes. Em um deles, o treinamento pode limitar-se ao preenchimento correto do formulário. Em outro, pode envolver preparação sobre diferenças culturais e territoriais, simulações, acompanhamento de campo, supervisão, auditoria e discussão coletiva dos problemas encontrados.
No telefone, o treinamento pode influenciar o modo de apresentação, o tom de voz, a criação de confiança, o ritmo da aplicação, o tratamento das recusas e a explicação de dúvidas sem induzir respostas. A tecnologia organiza a coleta, mas não elimina a interação social entre quem pergunta e quem responde.
O texto de Guerreiro Ramos de 1947 ganha aqui particular relevância. Sua preocupação com o treinamento e a formação técnica dos pesquisadores constitui um antecedente histórico para a análise das condições organizacionais de produção dos dados (5). A exigência contemporânea, entretanto, precisa ser ampliada: não basta formar agentes para executar corretamente procedimentos padronizados; é necessário preparar pesquisadores capazes de compreender criticamente as situações sociais nas quais esses procedimentos são aplicados.
Os padrões de transparência da AAPOR reconhecem a relevância do treinamento, da supervisão e do monitoramento dos entrevistadores, assim como dos procedimentos de controle da qualidade dos dados (10).
A temporalidade mercadocêntrica e os limites da investigação qualitativa
A predominância dos surveys quantitativos nas pesquisas eleitorais também precisa ser compreendida em suas dimensões econômicas e temporais. A atividade dos institutos está submetida a condições de financiamento, custos de pessoal, tecnologias, prazos contratuais, concorrência, calendário eleitoral e demandas dos meios de comunicação. Essas condições não determinam mecanicamente as escolhas metodológicas, mas podem influenciar quais formas de investigação se tornam organizacionalmente viáveis.
A pesquisa quantitativa padronizada apresenta características particularmente compatíveis com a produção periódica de informações para o mercado. Questionários previamente definidos podem ser aplicados em grandes amostras, processados estatisticamente e convertidos rapidamente em distribuições percentuais. A repetição dos instrumentos facilita a comparação temporal, permitindo que resultados sucessivos sejam apresentados como tendências.
Essas características possuem utilidade científica, especialmente quando o objetivo é estimar a distribuição de determinadas respostas numa população. O problema surge quando a compatibilidade entre técnica e mercado se transforma em critério predominante de definição daquilo que merece ser conhecido.
A investigação qualitativa substantiva apresenta outra relação com o tempo. Uma entrevista aberta não possui necessariamente duração previsível. Uma observação participante pode revelar fenômenos inicialmente desconhecidos. O contato com diferentes grupos sociais pode exigir reconstrução das hipóteses, revisão das categorias e retorno ao campo. A própria relação entre pesquisador e pesquisado pode depender de um processo gradual de aproximação, confiança e compreensão recíproca.
Isso não significa que toda pesquisa qualitativa seja necessariamente demorada ou que toda pesquisa quantitativa seja rápida. Existem investigações quantitativas longitudinais extremamente extensas e tecnicamente sofisticadas, assim como pesquisas qualitativas relativamente breves. A sofisticação técnica, entretanto, não deve ser confundida com complexidade em sentido epistemológico. Uma investigação pode mobilizar grande número de variáveis, enormes bases de dados e modelos estatísticos avançados e permanecer orientada por um paradigma simplificador. Na perspectiva da complexidade, a questão fundamental não é quantos elementos são processados, mas a capacidade de compreender suas interdependências, contextos, retroações, emergências, incertezas e relações entre partes e totalidades.
Essa tensão ajuda a formular uma hipótese relevante sobre a indústria das pesquisas eleitorais: a predominância da investigação quantitativa padronizada pode estar relacionada não apenas à tradição positivista, mas também à sua afinidade operacional com a racionalidade instrumental das organizações mercadocêntricas.
A hipótese merece investigação empírica. Para demonstrar quanto os institutos efetivamente investem em pesquisa qualitativa, seria necessário examinar seus orçamentos, equipes, contratos, projetos internos e atividades que não chegam ao conhecimento público. O predomínio de resultados quantitativos divulgados não comprova, por si só, ausência de pesquisas qualitativas complementares. Ainda assim, permite questionar por que a comunicação pública das pesquisas eleitorais privilegia tão fortemente percentuais, oscilações e comparações entre candidatos, enquanto processos socioculturais mais profundos recebem menor visibilidade.
Há, além disso, uma exigência intelectual específica. Investigações qualitativas abertas podem depender de pesquisadores capazes de compreender linguagens, trajetórias, relações de poder, culturas políticas, conflitos, silêncios e contradições. A formação necessária não se reduz à competência operacional na aplicação de instrumentos. Exige capacidade teórica, sensibilidade metodológica e disposição para reconhecer a insuficiência das próprias categorias.
A crítica de Mills ao empirismo abstrato e a de Guerreiro Ramos à racionalidade instrumental convergem nesse ponto. O problema não está na eficiência em si, mas em sua transformação em princípio dominante da produção do conhecimento. Quando rapidez, calculabilidade e padronização passam a definir prioritariamente os problemas pesquisáveis, o conhecimento pode tornar-se tecnicamente sofisticado e, simultaneamente, substantivamente limitado.
A pesquisa eleitoral como intervenção na realidade pesquisada
As pesquisas eleitorais apresentam outra característica epistemológica importante: os conhecimentos que produzem retornam rapidamente ao próprio sistema social investigado.
Um instituto realiza uma pesquisa e divulga seus resultados. Os meios de comunicação transformam percentuais em manchetes. Analistas elaboram interpretações. Campanhas reavaliam estratégias. Militantes e apoiadores compartilham informações. Plataformas digitais ampliam sua circulação. Cidadãos incorporam essas informações às suas expectativas sobre o processo político. Posteriormente, novos levantamentos investigam uma realidade na qual pesquisas anteriores já circularam.
Trata-se de uma dinâmica recursiva. A pesquisa não está inteiramente separada da realidade que procura conhecer. Ela constitui uma forma de observação que pode participar das interações subsequentes do sistema político.
A epistemologia da complexidade de Morin contribui para compreender esse processo (3). Em sistemas sociais, relações entre observadores, atores, organizações e meios de comunicação podem produzir retroações, efeitos inesperados e transformações que não se deixam explicar adequadamente por modelos lineares de causalidade.
Isso não significa que a divulgação de uma pesquisa determine o comportamento eleitoral. Diferentes cidadãos podem interpretar o mesmo resultado de maneiras distintas ou simplesmente ignorá-lo. O argumento é mais preciso: a pesquisa eleitoral constitui uma informação socialmente produzida que pode tornar-se uma variável adicional do próprio processo político.
Essa característica amplia a responsabilidade epistemológica dos institutos e dos meios de comunicação. A maneira pela qual os resultados são apresentados pode enfatizar tendências, incertezas, oscilações, diferenças metodológicas ou interpretações que ultrapassam aquilo que os dados efetivamente sustentam.
A pesquisa eleitoral participa, portanto, de uma política cognitiva que não termina com a aplicação do questionário. A seleção dos resultados divulgados, a elaboração de gráficos, a comparação entre levantamentos, a formulação de manchetes e a circulação pelas redes digitais constituem novas operações de interpretação e comunicação.
É necessário distinguir a responsabilidade científica do instituto das decisões editoriais tomadas posteriormente por terceiros. Entretanto, essa distinção não elimina a necessidade de examinar a cadeia social pela qual o conhecimento produzido se transforma em informação pública.
A cientificidade dos institutos e a necessidade de transparência
A confiabilidade das pesquisas eleitorais costuma ser associada à margem de erro, ao nível de confiança, ao tamanho da amostra e à adequação das ponderações estatísticas. Esses critérios são importantes, mas não abrangem a totalidade das condições de produção dos dados.
Problemas de cobertura, não resposta, mensuração, seleção dos participantes, formulação das perguntas, treinamento dos agentes, processamento e interpretação podem introduzir diferentes fontes de incerteza. A margem de erro amostral, quando aplicável, não representa automaticamente todos esses componentes.
A regulamentação brasileira reconhece parte dessas exigências. A Resolução TSE nº 23.600/2019, com alterações introduzidas pela Resolução nº 23.747/2026, disciplina o registro e a divulgação de pesquisas eleitorais, incluindo informações relativas à metodologia, ao plano amostral, aos responsáveis e às condições de financiamento (11).
Tribunal Superior Eleitoral
As exigências legais de registro e transparência, entretanto, não esgotam a avaliação epistemológica. Cumprir os requisitos normativos não significa necessariamente produzir uma pesquisa substantivamente consistente, assim como a ausência de determinada informação pública não comprova automaticamente que um procedimento tenha sido negligenciado.
A perspectiva aqui proposta exige avançar para o conhecimento dos perfis epistemológico-organizacionais dos institutos. Importa examinar a formação acadêmica e profissional das equipes, a existência de diálogo interdisciplinar, os pressupostos epistemológicos predominantes, os procedimentos de treinamento, a supervisão do trabalho de campo, a cultura de crítica interna, o tratamento das recusas, as condições de financiamento e a abertura à revisão dos próprios métodos.
Essa análise também permitiria compreender por que dois institutos podem apresentar resultados diferentes sem que a única explicação possível seja a manipulação intencional. Diferentes desenhos de pesquisa, modalidades de coleta, procedimentos de ponderação, instrumentos e condições de interação podem produzir diferenças legítimas ou erros de naturezas diversas.
A comparação dos resultados com eleições anteriores constitui uma fonte adicional de evidências, mas não pode funcionar como critério exclusivo. Uma pesquisa metodologicamente consistente pode ser seguida por mudanças reais nas preferências do eleitorado. Inversamente, uma pesquisa metodologicamente frágil pode aproximar-se casualmente do resultado final.
A cientificidade exige avaliar o processo de produção do conhecimento, e não apenas a coincidência eventual entre números e acontecimentos posteriores.
Metacognição epistemológico-organizacional
A crítica aos institutos pode adquirir uma dimensão propositiva. Se essas organizações produzem conhecimentos sobre a sociedade, também podem transformar suas próprias maneiras de conhecer em objeto de investigação. Podemos denominar esse processo "metacognição epistemológico-organizacional".
A metacognição, frequentemente associada à capacidade de refletir sobre os próprios processos cognitivos, pode ser ampliada para o contexto organizacional. Uma instituição produtora de conhecimento pode desenvolver mecanismos sistemáticos de reflexão sobre seus pressupostos, procedimentos, limites, decisões e resultados.
O instituto deixaria de perguntar apenas se sua amostra respeitou determinados parâmetros ou se os cálculos estatísticos foram corretamente executados. Passaria também a perguntar: como nossa organização constrói aquilo que reconhece como conhecimento válido?
Essa questão envolve a formação dos profissionais, a diversidade de perspectivas epistemológicas, a divisão do trabalho científico, os procedimentos de seleção dos participantes, os efeitos dos instrumentos, a formulação das perguntas, o treinamento dos agentes, a influência dos custos e prazos, as relações com clientes e as condições de circulação pública dos resultados.
Uma organização epistemologicamente reflexiva poderia investigar, por exemplo, quais grupos sociais apresentam maiores dificuldades de acesso, quais situações produzem recusas mais frequentes, como diferentes modalidades de coleta afetam as respostas, quais categorias se mostram insuficientes para representar determinados fenômenos e quais problemas metodológicos persistem apesar das ponderações estatísticas.
A metacognição também poderia envolver estudos qualitativos complementares. Entrevistas abertas, observação de campo, grupos focais e estudos territoriais poderiam contribuir para examinar significados que os questionários estruturados não conseguem captar. Os resultados dessas investigações poderiam, por sua vez, orientar a revisão de instrumentos quantitativos.
Nesse sentido, a metacognição não se limita à auditoria de procedimentos. Ela envolve a disposição institucional para reconhecer que o conhecimento produzido é parcial, situado, revisável e condicionado por escolhas epistemológicas.
A qualidade científica não se manifesta apenas na capacidade de produzir resultados precisos. Também se manifesta na capacidade de reconhecer os limites dessa precisão.
Alfabetização epistemológica dos cidadãos
A mesma perspectiva pode contribuir para modificar a relação dos cidadãos com as pesquisas eleitorais. Atualmente, a comunicação pública frequentemente reduz investigações complexas a poucas informações: nome do instituto, número de entrevistados, margem de erro e percentuais dos candidatos. Grande parte das condições de produção do conhecimento desaparece antes que os resultados cheguem ao público.
Uma alfabetização epistemológica das pesquisas eleitorais permitiria compreender o processo que existe por trás dos percentuais. O cidadão poderia procurar saber quem realizou a investigação, quem a financiou, qual população pôde efetivamente ser alcançada, como os participantes foram selecionados, quais instrumentos foram utilizados, como as perguntas foram formuladas, quais foram as taxas de recusa, quais ponderações foram realizadas e quais limitações o próprio instituto reconheceu.
Poderia também reconhecer que os institutos possuem diferentes culturas organizacionais e tradições metodológicas. A confiança deixaria de ser atribuída genericamente ao nome de determinada empresa e passaria a depender de evidências relativas a cada investigação.
Essa alfabetização não deveria produzir classificações definitivas de institutos confiáveis e não confiáveis. Tal procedimento reproduziria justamente a simplificação que se pretende superar. Uma alternativa seria desenvolver uma cartografia dos perfis epistemológico-organizacionais dos institutos de pesquisa, capaz de apresentar suas características sem reduzi-las a uma pontuação única. Formação das equipes, interdisciplinaridade, pressupostos epistemológicos, métodos, instrumentos, treinamento, transparência, procedimentos de controle, relações econômicas e reflexividade constituiriam dimensões examinadas conjuntamente.
Essa cartografia também permitiria reconhecer lacunas de informação. Quando não houver dados públicos suficientes sobre a formação dos profissionais, os investimentos em treinamento ou a utilização de métodos qualitativos, a ausência de informação deveria ser explicitada, sem ser automaticamente convertida em julgamento sobre a qualidade do instituto.
O objetivo seria substituir a confiança ingênua ou a desconfiança generalizada por uma relação mais crítica com o conhecimento produzido.
Considerações finais
As pesquisas eleitorais constituem uma modalidade de produção de conhecimento que não pode ser compreendida exclusivamente por seus procedimentos estatísticos. A dimensão amostral, a margem de erro, o nível de confiança e as ponderações são relevantes, mas insuficientes para avaliar a cientificidade de uma investigação social.
A crítica desenvolvida neste artigo não se dirige à quantificação. Dados quantitativos podem integrar metodologias qualitativas, estudos mistos e investigações orientadas por perspectivas hermenêuticas, dialéticas, pragmatistas ou complexas. O problema está na predominância de uma concepção unilateral de conhecimento que tende a transformar a operacionalização prévia de variáveis e a mensuração padronizada em referências privilegiadas para compreender fenômenos sociais complexos.
A distinção entre extensão e intensidade, desenvolvida por Pedro Demo, ajuda a compreender por que distribuições percentuais não esgotam os significados das escolhas políticas. A epistemologia da complexidade de Morin permite reconhecer as interdependências, incertezas e retroações que escapam às representações simplificadoras. Bourdieu evidencia as pressuposições envolvidas na transformação de respostas individuais em opinião pública. Mills mostra como a autonomização da técnica e a burocratização da investigação podem subordinar os problemas substantivos às condições organizacionais de produção dos dados.
A trajetória intelectual de Guerreiro Ramos acrescenta uma dimensão particularmente significativa. Seu texto de 1947 demonstra a importância que atribuía à formação metodológica, ao treinamento e à competência técnica dos pesquisadores. Sua obra madura permite ampliar essa preocupação, questionando a predominância da racionalidade instrumental e a tendência das sociedades mercadocêntricas a subordinar diferentes dimensões da vida social aos critérios do mercado.
Dessa articulação emerge o conceito de perfil epistemológico-organizacional. Os institutos não apenas utilizam técnicas. Constituem organizações que selecionam profissionais, socializam pesquisadores, estabelecem pressupostos, desenvolvem culturas científicas, escolhem instrumentos, formulam perguntas, treinam agentes, mantêm relações econômicas e comunicam interpretações à sociedade.
Essas dimensões podem influenciar os resultados sem determiná-los mecanicamente. Não se trata de substituir o reducionismo metodológico por um determinismo econômico ou organizacional. Trata-se de reconhecer que aquilo que não determina necessariamente também não é irrelevante ou neutro.
A política cognitiva das pesquisas eleitorais deve, portanto, ser compreendida como um processo que começa na definição dos problemas investigados, atravessa as decisões epistemológicas e metodológicas das organizações e continua na interpretação e circulação pública dos resultados.
A predominância dos surveys quantitativos também merece ser investigada em sua relação com a temporalidade mercadocêntrica. Rapidez, padronização, comparabilidade e calculabilidade apresentam afinidades operacionais com as demandas comerciais de produção periódica de informações. Essa relação não invalida os resultados quantitativos, mas ajuda a compreender por que determinadas formas de conhecimento recebem maior investimento e visibilidade do que outras.
A alternativa proposta não consiste em rejeitar os institutos de pesquisa. Consiste em ampliar suas possibilidades de cientificidade por meio de uma metacognição epistemológico-organizacional, capaz de transformar as próprias condições de produção do conhecimento em objeto permanente de investigação.
Simultaneamente, uma alfabetização epistemológica dos cidadãos permitiria compreender que percentuais eleitorais não são fotografias transparentes da sociedade. São resultados de processos científicos e organizacionais que precisam ser examinados em suas possibilidades e limitações.
Talvez seja necessário, portanto, acrescentar uma nova pergunta àquelas tradicionalmente dirigidas às pesquisas eleitorais. Além de perguntar o que dizem as pesquisas, precisamos perguntar: Como as organizações que fazem pesquisas produzem aquilo que afirmam conhecer sobre a sociedade?
Essa mudança de perspectiva permitiria avançar da crítica ao empirismo abstrato para uma ciência social mais reflexiva, interdisciplinar e consciente de sua participação na realidade que procura compreender.
Referências
(1) BOEIRA, Sérgio Luís. Pesquisas de opinião e crise dos incumbentes: limites de um paradigma simplificador. Blog do autor, 2026. Disponível em: https://www.websergioluisboeira.com/post/pesquisas-de-opinião-e-crise-dos-incumbentes-limites-de-um-paradigma-simplificador.
(2) DEMO, Pedro. Pesquisa e informação qualitativa: aportes metodológicos. 5. ed. Campinas: Papirus, 2012.
(3) MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2015.
(4) MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. 2. ed. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1969.
(5) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A pesquisa e os “surveys” sociais. Revista do Serviço Público, Rio de Janeiro, mar./abr. 1947, p. 147–151.
(6) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Tradução de Francisco G. Heidemann e Ariston Azevedo. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.
(7) BOURDIEU, Pierre. A opinião pública não existe. In: BOURDIEU, Pierre. Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983. p. 173–182.
(8) GUERREIRO RAMOS, Alberto. A redução sociológica. Rio de Janeiro: Instituto Superior de Estudos Brasileiros, 1958.
(9) YOUNG, Pauline V. Scientific Social Surveys and Research. New York: Prentice-Hall, 1944.
(10) AMERICAN ASSOCIATION FOR PUBLIC OPINION RESEARCH (AAPOR). Transparency Initiative: Disclosure Elements. Revisão de abril de 2021. Disponível em: https://aapor.org/wp-content/uploads/2022/11/TI-Attachment-C.pdf.
(11) BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral. Resolução nº 23.600, de 12 de dezembro de 2019, com alterações da Resolução nº 23.747, de 26 de fevereiro de 2026. Dispõe sobre pesquisas eleitorais. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2026/resolucao-no-23-747-de-26-de-fevereiro-de-2026.
P.S.: Usei a IA GPT 5.6 Sol na busca e organização das informações, e na elaboração de ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim



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