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O colonialismo agroquímico brasileiro entre a COP30 e o Acordo Mercosul-UE

Atualizado: há 4 dias

Objetivo


Este texto tem como objetivo identificar e analisar as contradições da atual correlação de forças na política nacional em matéria ambiental e agroquímica, à luz de dois marcos internacionais recentes — a entrada em vigor comercial do Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia e os resultados da COP30, realizada em Belém. Argumenta-se que a vitória eleitoral da frente democrática Lula-Alckmin no Poder Executivo, desacompanhada de uma renovação equivalente no Poder Legislativo, é estruturalmente insuficiente para reverter a lógica do que se propõe chamar de neocolonialismo agroquímico e epistemicídio ambiental — e que essa limitação tende a se reproduzir também no pleito de outubro de 2026, caso não haja uma reconfiguração significativa da correlação de forças no Congresso Nacional.


Resumo

O artigo parte da constatação de que o Brasil vive uma incoerência estrutural: promove-se internacionalmente como líder climático — sediou a COP30, reduziu o desmatamento na Amazônia por quatro anos consecutivos, atingindo em 2026 o menor nível desde 2016 (32), e integra o maior acordo de livre comércio do mundo com a União Europeia —, mas mantém internamente um regime agroquímico e fundiário que segue produzindo contaminação por agrotóxicos em escala recorde, flexibilização do licenciamento ambiental e violação de direitos territoriais indígenas e tradicionais. Combinando a literatura sobre colonialismo químico (2) e epistemicídio (3) com a etnografia de Caio Pompeia sobre a divisão do trabalho político entre o núcleo tecnocrático (IPA/FPA/CNA) e a ala extremista do agronegócio (1), o texto mostra que essa mesma lógica de "bloqueio do negacionismo explícito e instrumentalização do radicalismo antitradicional" (1) organizou tanto a participação do agro na COP30 (13–22) quanto a negociação do Acordo Mercosul-UE (4–12). Por fim, discute-se por que a vitória de Lula-Alckmin no Executivo em 2022, sem correspondência no Congresso (27, 28), não foi suficiente para alterar esse quadro — e por que as pesquisas eleitorais para 2026 sugerem que essa assimetria entre Executivo e Legislativo pode se manter (23–26), perpetuando a insegurança alimentar, o neocolonialismo agroquímico e a incoerência entre discurso e prática que marcam a política ambiental brasileira.



Introdução


Há uma imagem que resume o paradoxo brasileiro de 2025-2026: dias antes de abrir a COP30 em Belém, no coração da Amazônia, o governo federal autorizou, por meio do Ibama, a perfuração de um poço exploratório para pesquisar a existência de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas — sem que, nesta fase, haja qualquer produção comercial, mas com o objetivo declarado de viabilizar uma nova fronteira petrolífera na Margem Equatorial — decisão que o Observatório do Clima classificou como "sabotagem" à própria conferência que o país se preparava para sediar (20). Poucos meses depois, o Brasil se tornaria um dos primeiros países do Mercosul a ratificar um acordo comercial com a União Europeia que promete abrir as portas do mercado europeu para a soja, a carne e o café brasileiros — sem, contudo, resolver a assimetria regulatória de agrotóxicos que há anos opõe as normas ambientais europeias às brasileiras (7, 12). Essas duas cenas, aparentemente distantes, obedecem à mesma gramática política: a de um país que verbaliza o compromisso climático e civilizatório enquanto sustenta, na prática, um modelo agroexportador que depende da desregulação ambiental, do uso intensivo de agroquímicos e da contenção dos direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.


Esse padrão não é acidental, nem fruto apenas da correlação eleitoral de 2022 — quando Lula venceu Bolsonaro por margem apertada (50,9% a 49,1%) no Executivo, mas viu a direita e o centro-direita conquistarem, pela primeira vez desde a redemocratização, mais de 60% das cadeiras em ambas as Casas do Congresso. Ele é, sobretudo, resultado de uma arquitetura de poder mais antiga e mais sofisticada, na qual o agronegócio brasileiro opera simultaneamente em dois registros: um tecnocrático e "respeitável", ancorado no Instituto Pensar Agropecuária (IPA), na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) e na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA); e outro extremista, historicamente representado pela União Democrática Ruralista (UDR) e por lideranças como Luiz Antônio Nabhan Garcia, aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro (1). A etnografia do antropólogo Caio Pompeia mostra que esses dois registros não são polos opostos, mas partes de uma mesma engrenagem: as elites dominantes do campo bloqueiam o negacionismo climático mais explícito — por dano reputacional — e, ao mesmo tempo, instrumentalizam o radicalismo anti-indígena da ala mais extremada, empurrando o conjunto do movimento neoconservador para posições cada vez mais extremas (1).


O objetivo deste texto é mostrar que essa mesma divisão do trabalho — entre o polo tecnocrático que negocia acordos internacionais e discursa em conferências climáticas, e o polo que resiste a qualquer concessão ambiental no Congresso — reaparece, quase intacta, tanto na condução brasileira da COP30 quanto na longa negociação do Acordo Mercosul-União Europeia. E que a "frente democrática" que elegeu Lula-Alckmin em 2022 e disputa a reeleição em 2026, por mais que controle o Palácio do Planalto, não dispõe de força equivalente no Congresso Nacional para desmontar essa arquitetura — o que mantém o Brasil preso a um ciclo de incoerências que alimenta, simultaneamente, a insegurança alimentar, a contaminação por agrotóxicos e um neocolonialismo agroquímico que contradiz o próprio discurso de soberania nacional e liderança climática do país.


O texto está estruturado da seguinte forma. Na primeira seção, revisita-se a arquitetura de divisão do trabalho político do agronegócio brasileiro, tal como descrita por Pompeia, e mostra-se como ela organizou a presença do setor na COP30. Na segunda seção, analisa-se o Acordo Mercosul-União Europeia — já em vigência comercial provisória desde maio de 2026 — como expressão do mesmo neocolonialismo agroquímico discutido anteriormente, evidenciando como a assinatura do acordo não resolveu, e em certos aspectos aprofundou, a desigualdade regulatória entre os dois blocos. Na terceira seção, discute-se os limites da frente democrática Lula-Alckmin diante de um Congresso que segue estruturalmente capturado pela bancada ruralista e pelo sistema de emendas parlamentares, e o que as pesquisas eleitorais de 2026 indicam sobre a persistência desse quadro. Por fim, nas conclusões, argumenta-se que, sem uma renovação parlamentar significativa em outubro de 2026, o Brasil continuará a cultivar essas incoerências — e que superá-las exigiria enfrentar não apenas o Executivo, mas a própria arquitetura de poder que sustenta o epistemicídio ambiental no país.


1. A divisão do trabalho do agronegócio e o palco da COP30


A COP30, realizada em Belém entre 10 e 22 de novembro de 2025, foi apresentada pelo governo brasileiro como uma oportunidade de reafirmar o multilateralismo climático dez anos após o Acordo de Paris (15). O chamado Pacote Político de Belém foi aprovado por 195 países, mas sem incluir uma proposta de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis — bloqueada pelos países exportadores de petróleo —, restando apenas o compromisso do Brasil de liderar, ao longo de 2026, um roteiro voluntário sobre o tema (15). O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), lançado como grande inovação financeira brasileira, também ficou muito aquém da meta: dos 125 bilhões de dólares inicialmente projetados, nem os 10 bilhões mínimos foram alcançados até o encerramento da conferência (15).


Nesse cenário já fragilizado, o agronegócio brasileiro teve presença recorde: um levantamento da organização britânica DesMog contabilizou 300 lobistas do setor agropecuário, de grãos e de agrotóxicos credenciados na COP30 — um aumento de 14% em relação à cúpula anterior —, sendo a Bayer a empresa com maior delegação isolada, com 19 representantes (21). Essa presença se concentrou na Agrizone, espaço promovido pela Embrapa e pelo Ministério da Agricultura, patrocinado por Bayer, Nestlé, Syngenta e PepsiCo, e amplamente denunciado por organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) como espaço de "captura corporativa" da agenda climática (13, 14, 21). É sintomático que a Syngenta — multinacional condenada civilmente pelo assassinato do militante do MST Valmir Mota de Oliveira, o Keno, morto em 2007 por uma milícia armada a seu serviço, condenação mantida em definitivo pelo Superior Tribunal de Justiça em 2026 — tenha coordenado painéis sobre restauração ambiental dentro do mesmo espaço da Agrizone (31).


O ponto mais revelador, porém, é documental: o relatório "Agricultura Tropical Sustentável", elaborado pelo Fórum Brasileiro da Agricultura Tropical — coalizão que reúne justamente o IPA e a Abag, o núcleo tecnocrático descrito por Pompeia — e enviado ao presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, não menciona uma única vez a palavra "agrotóxico" ou "defensivo agrícola", apesar de o Brasil ser o maior consumidor mundial desses produtos (16). O documento fala em "saúde do solo", mas não em saúde humana. É a mesma lógica de bloqueio seletivo identificada por Pompeia no processo eleitoral de 2018: as elites tecnocráticas do agronegócio não pautam publicamente o negacionismo climático explícito de sua ala mais radical, mas produzem, com igual eficácia, um apagamento sistemático dos custos humanos e ambientais de seu próprio modelo produtivo (1, 16). Enquanto isso, a Frente Parlamentar da Agropecuária, sob a liderança do deputado Pedro Lupion (PP-PR), classificava publicamente o Plano Clima do governo — que atribui ao setor agropecuário e ao desmatamento a ele associado a maior fatia das emissões brasileiras — como "autossabotagem" e "palanque ideológico" (22). A convergência entre a retórica moderada da Agrizone e a obstrução parlamentar da FPA ilustra, de forma quase didática, a tese de Pompeia: divisão tática, convergência substantiva (1).


2. O Acordo Mercosul-União Europeia como neocolonialismo agroquímico em ato


Concluído em dezembro de 2024 após mais de duas décadas de negociação, o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia teve sua assinatura autorizada pelo Conselho Europeu em 9 de janeiro de 2026, por maioria qualificada de 21 votos a favor e 5 contra — com Áustria, França, Hungria, Irlanda e Polônia se opondo, e a Bélgica se abstendo (4, 6). A assinatura formal ocorreu em Assunção, no Paraguai, em 17 de janeiro (5, 6). O Brasil concluiu sua ratificação interna em 25 de fevereiro, com aprovação unânime do Senado em 4 de março (10), e a parte comercial do acordo — o chamado Acordo Comercial Interino (iTA) — entrou em vigência provisória em 1º de maio de 2026 (7, 9, 11).


O detalhe mais importante é este: o acordo foi deliberadamente "fatiado" em dois instrumentos jurídicos distintos justamente para permitir que o pilar comercial entrasse em vigor rapidamente, enquanto o Acordo de Parceria completo — que trata de cooperação política e governança ambiental mais profunda — segue pendente de ratificação por todos os 27 parlamentos nacionais da União Europeia, processo que pode levar anos (8, 9). Some-se a isso que, em 21 de janeiro de 2026, o Parlamento Europeu decidiu, por margem apertadíssima (334 a 324 votos), solicitar um parecer prévio ao Tribunal de Justiça da União Europeia sobre a compatibilidade do acordo com os tratados europeus — suspendendo o processo de ratificação plena por até 18 meses (7, 8). Ou seja: exatamente a parte do acordo que poderia introduzir mecanismos de convergência regulatória mais exigentes em matéria ambiental e de agrotóxicos é a que fica represada; já a parte estritamente comercial, que libera o acesso brasileiro ao mercado europeu de commodities, já está em vigor.


Esse desenho institucional reproduz, em escala ampliada, o mecanismo de "colonialismo químico" já documentado pela geógrafa Larissa Bombardi: a União Europeia mantém padrões regulatórios rígidos para o consumo interno de agrotóxicos — muitos deles banidos em solo europeu — ao mesmo tempo em que autoriza suas próprias empresas químicas a fabricá-los e exportá-los para países como o Brasil, que os aplica em lavouras destinadas, em parte, a alimentar de volta o próprio mercado europeu (2). Essa dependência tem, aliás, uma raiz ainda mais profunda: segundo a Pesticide Action Network North America (PANNA), 99% de todos os produtos químicos sintéticos, incluindo os agrotóxicos, são derivados de combustíveis fósseis (33) — o que torna o colonialismo agroquímico e o colonialismo petrolífero duas faces de uma mesma matriz extrativista, e explica por que a indústria química europeia, historicamente ligada às grandes petroleiras, mantém tanto interesse em preservar o Brasil como mercado consumidor de agrotóxicos que ela mesma proíbe internamente. O próprio documento informativo do governo brasileiro sobre o acordo admite que temas centrais como bem-estar animal, biotecnologia agrícola, resistência antimicrobiana e limites máximos de resíduos de agrotóxicos (LMRs) — justamente os pontos de maior assimetria regulatória entre os blocos — não foram efetivamente resolvidos pelo acordo, mas apenas remetidos a "mecanismos de diálogo" futuros, sem caráter vinculante (12). Em outras palavras: o acordo abre as portas para as exportações agropecuárias brasileiras sem exigir contrapartida ambiental ou sanitária equivalente — o oposto do que uma leitura ingênua do Pacto Ecológico Europeu levaria a supor. Não por acaso, em maio de 2026 a própria União Europeia excluiu o Brasil de sua lista de países autorizados a exportar carne sob as novas regras sanitárias europeias — evidenciando que a "harmonização" prometida pelo acordo segue extremamente seletiva e assimétrica.


O paralelo com a arquitetura descrita por Pompeia é direto. Assim como o núcleo tecnocrático do agronegócio (IPA/FPA/CNA) aceitou distanciar-se publicamente do negacionismo climático mais cru de Nabhan Garcia sem, contudo, abandonar a substância de sua agenda antiambiental (1), a União Europeia aceita blindar seus próprios agricultores por meio de cláusulas de salvaguarda contra "perturbações de mercado" (4), sem exigir que o Brasil eleve seus padrões agroquímicos internos à altura dos europeus. O resultado é uma dupla incoerência: o Brasil exporta alimentos produzidos sob padrões agroquímicos que a própria Europa recusaria para si mesma, e a Europa segue fabricando e vendendo ao Brasil os agrotóxicos que proíbe em seu território — um circuito fechado de neocolonialismo agroquímico que o acordo comercial, longe de resolver, formaliza e amplia.


3. Os limites da frente democrática: um Executivo sem Congresso


A frente democrática que elegeu Lula-Alckmin em 2022 sempre foi, antes de mais nada, uma coalizão de conveniência eleitoral para o Executivo — não um projeto de reconstrução da correlação de forças no Legislativo. Essa limitação já era visível na composição do Congresso eleito naquele ano: a bancada ruralista cresceu 24% na Câmara e 20% no Senado, chegando a cerca de 300 dos 513 deputados e 47 dos 81 senadores (27), enquanto o sistema de emendas parlamentares — que havia saltado de uma média de R$ 3,8 bilhões anuais no governo Dilma para R$ 20,7 bilhões anuais no governo Bolsonaro (27) — continuou crescendo mesmo após o Supremo Tribunal Federal declarar o "orçamento secreto" inconstitucional em dezembro de 2022 (28). As chamadas emendas de comissão, mecanismo de substituição criado pelo próprio Congresso, cresceram 6.687% entre 2022 e 2025.


Esse desenho institucional explica por que o governo Lula, mesmo dispondo de ministérios como o Meio Ambiente (MMA) e o dos Povos Indígenas (MPI), aprovou um número recorde de novos agrotóxicos — 912 apenas em 2025, mais de 2.135 desde 2023 — e viu o Congresso derrubar seus vetos à Lei 14.785/2023, o chamado "PL do Veneno" (29). O paradoxo é interno ao próprio governo: em julho de 2025, o mesmo Executivo lançou o Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), com R$ 89,2 bilhões em crédito rural, seguro agrícola e assistência técnica voltados a fomentar a transição agroecológica e a agricultura familiar (30) — mas sem qualquer meta vinculante de redução para o agronegócio de exportação, que segue respondendo pela maior parte do consumo nacional de agrotóxicos, hoje 365% maior do que em 2000 (30). É o mesmo Congresso que, em 2025, tramitou o "PL da Devastação", flexibilizando o licenciamento ambiental mesmo para propriedades sem Cadastro Ambiental Rural validado e dispensando consulta a povos indígenas e comunidades tradicionais sem território totalmente demarcado (18) — um retrocesso que caminha na direção exatamente oposta ao discurso que o mesmo governo apresentava, semanas depois, na COP30.


As eleições gerais de outubro de 2026 são o teste mais imediato dessa hipótese. As pesquisas presidenciais mostram Lula na liderança em todos os cenários simulados contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — 40% a 28% no primeiro turno e 45% a 37% no segundo, segundo o instituto Genial/Quaest de julho de 2026 (24) —, o que sugere razoável probabilidade de continuidade da frente democrática no Executivo. O quadro legislativo, contudo, é radicalmente distinto: análises sucessivas de institutos e veículos especializados ao longo de 2026 — Poder360 em janeiro, JOTA em abril, Correio da Manhã em maio e Congresso em Foco em junho — convergem ao apontar que os pré-candidatos ao Senado alinhados à oposição a Lula têm, em média, o dobro de competitividade eleitoral dos pré-candidatos governistas, com o PL liderando o número de pré-candidaturas competitivas em pelo menos vinte estados da federação, e os partidos de direita e centro-direita (PL, Novo, União, PP e Republicanos) favoritos para conquistar cerca de 23 das cadeiras em disputa no Senado (25). Ou seja: mesmo que a frente democrática vença novamente a disputa presidencial em outubro, tudo indica que o Congresso Nacional eleito permanecerá estruturalmente dominado pela mesma coalizão de centro-direita e extrema direita que sustentou a explosão das emendas parlamentares e barrou a agenda ambiental do Executivo desde 2019 (25, 27).


Conclusões


A análise conjunta da COP30, do Acordo Mercosul-União Europeia e do quadro eleitoral de 2026 confirma a hipótese formulada ao longo desta reflexão: a incoerência brasileira em matéria ambiental e agroquímica não é um desvio contingente de um ou outro governo, mas o produto estrutural de uma arquitetura de poder em que o Executivo — mesmo quando ocupado por uma frente democrática vitoriosa — não controla os instrumentos legislativos e orçamentários que efetivamente regulam o uso da terra, dos agrotóxicos e dos territórios tradicionais. A etnografia de Pompeia sobre a divisão do trabalho entre o núcleo tecnocrático e a ala extremista do agronegócio (1) oferece a chave interpretativa que explica por que o mesmo país consegue, simultaneamente, sediar a COP da Amazônia e autorizar, dias antes, a pesquisa exploratória de petróleo na foz do rio que a nomeia (20); consegue assinar o maior acordo comercial de sua história com a União Europeia sem resolver a assimetria regulatória de agrotóxicos que alimenta o colonialismo químico denunciado por Bombardi (2); e consegue eleger presidentes reformistas sem jamais desmontar a bancada ruralista e o sistema de emendas que financiam sua permanência no poder (27, 28).


Essa arquitetura configura, em termos que dialogam com a crítica decolonial, uma forma persistente de epistemicídio ambiental (3): não apenas o apagamento dos saberes tradicionais e agroecológicos — como evidenciou o próprio documento do agronegócio para a COP30, que ignora por completo a palavra "agrotóxico" (16) —, mas o apagamento político da própria possibilidade de que a soberania alimentar e a segurança sanitária sejam tratadas como prioridades equivalentes à balança comercial. Enquanto a frente democrática não conquistar uma correlação de forças minimamente equivalente no Congresso Nacional — o que exigiria uma renovação parlamentar de proporções ainda não sinalizadas pelas pesquisas de opinião disponíveis (25) —, o Brasil continuará a cultivar essas incoerências: hospedando conferências climáticas enquanto expande a fronteira do petróleo e do agronegócio; assinando acordos de livre comércio que ampliam exportações sem exigir convergência ambiental; e sustentando, ano após ano, um recorde de aprovações de agrotóxicos que contradiz tanto o discurso de segurança alimentar quanto o de soberania nacional que o próprio Estado brasileiro professa internacionalmente.


O desafio que se coloca para outubro de 2026, portanto, não é apenas o de reeleger uma frente democrática no Palácio do Planalto, mas o de construir, pela primeira vez desde a redemocratização, uma correlação de forças parlamentar capaz de desfazer a engrenagem institucional — emendas, bancada ruralista, capturas regulatórias — que há décadas garante ao agronegócio brasileiro, em suas duas faces, tecnocrática e extremista, o poder de moldar a política ambiental do país nos seus próprios termos.


Referências

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2.      BRASIL DE FATO. "Valemos menos": situação do Brasil frente à União Europeia é sub-humana, diz Larissa Bombardi sobre agrotóxicos, 24/07/2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/podcast/brasil-de-fato-entrevista/2024/07/24/valemos-menos-situacao-do-brasil-frente-a-uniao-europeia-e-sub-humana-diz-larissa-bombardi-sobre-agrotoxicos/

3.      SANTOS, Boaventura de Sousa. Epistemicídio (síntese conceitual). Disponível em: https://pt.scribd.com/document/899908844/Boaventura-de-Souza-Santos-epistemicidio

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6.      G1. Acordo UE-Mercosul: entenda os próximos passos, 09/01/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/09/acordo-ue-mercosul-entenda-os-proximos-passos.ghtml

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8.      THOMSON REUTERS BRASIL. Acordo Mercosul-UE: assinatura, próximos passos e incertezas, 27/02/2026. Disponível em: https://www.thomsonreuters.com.br/pt/tax-accounting/comercio-exterior/blog/acordo-mercosul-ue.html

9.      SENADO FEDERAL. Sonhado há 30 anos, acordo Mercosul-UE entra em vigor, 17/04/2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2026/04/sonhado-ha-30-anos-acordo-mercosul-ue-entra-em-vigor

10.   MIGALHAS. Senado Federal aprova ratificação do Acordo Mercosul-União Europeia, 05/03/2026. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/coluna/Mercosul–UE-na-Pratica/451227/senado-federal-aprova-ratificacao-do-acordo-mercosul--uniao-europeia

11.    AGÊNCIA BRASIL. Acordo Mercosul-UE valerá provisoriamente em maio, confirma governo, 25/03/2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-03/acordo-mercosul-ue-valera-provisoriamente-em-maio-confirma-governo

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15.    THE TRICONTINENTAL. COP30: entre a vitrine do capital verde e a urgência de uma transição ecológica, 26/11/2025. Disponível em: https://thetricontinental.org/pt-pt/boletim-na-cop30-transicao-ecologica/

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22.   GRUPO CERES. Governo culpa agro por problema climático em plano para a COP 30; setor vê sabotagem, 30/09/2025. Disponível em: https://grupoceres.net.br/2025/09/30/governo-culpa-agro-por-problema-climatico-em-plano-para-a-cop-30-setor-ve-sabotagem/

23.   G1. Lula confirma que Geraldo Alckmin será candidato a vice na chapa presidencial, 31/03/2026. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/03/31/lula-confirma-alckmin-como-candidato-a-vice-presidente.ghtml

24.  VEJA. Lula lidera à reeleição em todos os cenários de 1º e 2º turno, diz pesquisa Genial/Quaest, 15/07/2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/lula-lidera-a-reeleicao-em-todos-os-cenarios-de-1o-e-2o-turno-diz-pesquisa-genial-quaest/

25.   WIKIPÉDIA. Eleições parlamentares no Brasil em 2026. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Eleições_parlamentares_no_Brasil_em_2026

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30.  FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Com foco na saúde e no meio ambiente, Lula cria programa para cortar uso de agrotóxicos, 09/07/2025. Disponível em: https://fpabramo.org.br/lula-cria-programa-para-cortar-uso-de-agrotoxicos/

31.   MST — MOVIMENTO DOS TRABALHADORES RURAIS SEM TERRA. STJ mantém condenação e Syngenta paga indenização por assassinato de Sem-Terra no PR, 15/06/2026. Disponível em: https://mst.org.br/2026/06/15/stj-mantem-condenacao-e-syngenta-paga-indenizacao-por-assassinato-de-sem-terra-no-pr/

32.   INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE). Ciência e tecnologia do INPE têm papel de destaque na redução histórica do desmatamento na Amazônia, 12/06/2026. Disponível em: https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/ciencia-e-tecnologia-do-inpe-tem-papel-de-destaque-na-reducao-historica-do-desmatamento-na-amazonia

33.   PESTICIDE ACTION NETWORK NORTH AMERICA (PANNA). Linking Fossil Fuels and Pesticides to Greenhouse Gases, 18/08/2023. Disponível em: https://www.panna.org/news/linking-fossil-fuels-and-pesticides-to-greenhouse-gases/


P.S.: Usei IA Perplexity e ONE na busca de informações e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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