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O outro cooperativismo: Guerreiro Ramos, a complexidade e a delimitação do mercado no Brasil

Objetivo

Este texto tem como objetivo propor uma leitura do cooperativismo alternativo e solidário brasileiro (Cresol, Unicafes, Concrab, Unisol Brasil, Unicatadores e Unicopas) à luz da teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos, articulada, como hipótese heurística, com a epistemologia da complexidade de Edgar Morin.

Resumo

O cooperativismo brasileiro é hoje disputado por dois sistemas de representação: o modelo oficial da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), institucionalizado pela Lei 5.764/1971, e um conjunto de entidades nascidas à sua revelia, entre elas Cresol, Unicafes, Concrab, Unisol Brasil, Unicatadores e sua confederação, a Unicopas. Este texto propõe interpretar essa disputa a partir da teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos, que distingue os enclaves da economia, da isonomia e da fenonomia como espaços legítimos e complementares da vida associativa, cada um regido por sua própria racionalidade, requisitos de tempo, espaço, tamanho, tecnologia e cognição. Articulo essa teoria, como hipótese heurística, com a epistemologia da complexidade de Edgar Morin, amigo pessoal de Guerreiro Ramos desde a década de 1950, mostrando como ambos os autores recusam a redução da vida associativa a uma única racionalidade instrumental. A análise sugere que o cooperativismo solidário brasileiro pode ser compreendido como um movimento histórico e ainda inacabado de delimitação do mercado – não de sua eliminação, evidentemente – voltado à reconquista de espaços isonômicos e fenonômicos nos quais a racionalidade substantiva possa coexistir com a economia.

Palavras-chave

Guerreiro Ramos; cooperativismo solidário; complexidade; delimitação do mercado; paraeconomia; economia solidária.



Introdução


O cooperativismo brasileiro carrega, desde sua origem, uma tensão entre dois projetos de sociedade. De um lado, o modelo oficial, consolidado pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), criada em 1969, registrada em 1970 e institucionalizada pela Lei 5.764/1971 como entidade única e obrigatória de representação do cooperativismo no país, num contexto de Ditadura Militar em que a estrutura sindical e associativa era, de modo geral, centralizada e tutelada pelo Estado. Esse modelo, ainda hegemônico, organiza a cooperativa essencialmente como empresa: sua legitimidade é medida pela eficiência de mercado, pelo crescimento patrimonial e pela competitividade, e sua gestão tende a ser verticalizada (1; 2).


De outro lado, sobretudo a partir da redemocratização e da crise econômica das décadas de 1980 e 1990, emergiu no Brasil um outro cooperativismo, nascido não de uma política de Estado, mas da mobilização de trabalhadores e trabalhadoras em situação de exclusão ou de ruptura com o mercado de trabalho formal: agricultores familiares endividados que criaram, em 1995, o crédito rotativo e solidário da Cresol; famílias assentadas pela reforma agrária que organizaram, a partir de 1992, o Sistema Cooperativista dos Assentados por meio da Concrab, braço cooperativo do MST; metalúrgicos do ABC paulista que, diante do fechamento de fábricas, converteram empresas falidas em unidades autogestionárias e fundaram, em 2004, a Unisol Brasil; catadores de materiais recicláveis que, historicamente informais e estigmatizados, constituíram em 2016 a Unicatadores; e a agricultura familiar organizada nacionalmente, desde 2005, pela Unicafes. Essas quatro trajetórias, distintas em origem mas convergentes em propósito, uniram-se politicamente em 2014, com fundação formal em 2017, na Unicopas, confederação que as representa sem fundi-las numa organização única. O que esses casos têm em comum, além da cronologia recente, é terem nascido à revelia do sistema cooperativista oficial da OCB, propondo um cooperativismo pensado não a partir da lógica empresarial, mas a partir das necessidades concretas de subsistência, trabalho e dignidade de seus associados.


Esse dado histórico, a existência de dois sistemas cooperativistas em disputa pela mesma legislação e pelo mesmo espaço político, não é apenas uma curiosidade institucional. Ele expressa, de forma concreta, uma questão que Alberto Guerreiro Ramos formulou em termos teóricos: até que ponto a vida associativa humana pode ser inteiramente absorvida pela lógica do mercado, e o que resta fora dela? Proponho aqui uma leitura desse universo do cooperativismo alternativo e solidário à luz da teoria da delimitação dos sistemas sociais de Guerreiro Ramos, articulada, como hipótese heurística, com a epistemologia da complexidade de Edgar Morin — dois autores que, como relato em Atualidade da obra de Guerreiro Ramos (2023), mantinham amizade pessoal desde a década de 1950 e partilhavam a crítica ao fechamento disciplinar da ciência moderna (3).


Este texto está estruturado da seguinte forma: primeiro, apresento a crítica de Guerreiro Ramos ao mercado e sua relação com o modelo da OCB; em seguida, exponho a teoria da delimitação dos sistemas sociais e os enclaves da economia, da isonomia e da fenonomia; na sequência, discuto a distinção entre razão instrumental e razão substantiva; depois, examino os requisitos de tempo, espaço, tamanho, tecnologia e cognição que Guerreiro Ramos associa a cada enclave; a seguir, relaciono isonomia e fenonomia às entidades do cooperativismo solidário brasileiro; então, aproximo esse arcabouço teórico da epistemologia da complexidade de Edgar Morin; proponho, na sequência, uma hipótese heurística de articulação entre paraeconomia e complexidade; e, por fim, apresento as conclusões.


Crítica de Guerreiro Ramos ao mercado


Guerreiro Ramos abre “A Nova Ciência das Organizações: uma reconceituação da riqueza das nações” (1989) com uma sentença direta: “a teoria da organização, tal como tem prevalecido, é ingênua. Assume esse caráter porque se baseia na racionalidade instrumental inerente à ciência social dominante no Ocidente” (4, p. 1). Toda a obra é construída para desmontar essa ingenuidade: a ciência social convencional e a teoria das organizações tratam o comportamento econômico, regido pela racionalidade de mercado, como se fosse a totalidade da natureza humana, ignorando outras formas legítimas de vida associada.


Essa crítica não é apenas acadêmica. Ela mira diretamente modelos institucionais como o da OCB, cuja Lei 5.764/71 consolidou um cooperativismo pensado nos termos de eficiência empresarial, competitividade de mercado e neutralidade política, precisamente o tipo de racionalidade que Guerreiro Ramos identifica como instrumental e hegemônica (5). Em ensaio comparativo entre Guerreiro Ramos e Fritjof Capra, observo que ambos criticam a supervalorização da dimensão econômica e a expansão totalitária dos valores de mercado, defendendo “a economia dual, cooperativista e o valor de uso, o que implica em descentralização (ênfase de Capra) e delimitação (ênfase de Ramos) do espaço-tempo da vida econômica” (6).


A delimitação dos sistemas sociais


A resposta de Guerreiro Ramos a esse reducionismo é a teoria da delimitação dos sistemas sociais, apresentada no capítulo 7 de sua obra maior sob o nome de paradigma paraeconômico. Seu ponto central é a noção de delimitação organizacional, que envolve “uma visão da sociedade como sendo constituída de uma variedade de enclaves (dos quais o mercado é apenas um), onde o homem se empenha em tipos nitidamente diferentes, embora verdadeiramente integrativos, de atividades substantivas”, e “um sistema de governo social capaz de formular e implementar as políticas e decisões distributivas requeridas para a promoção do tipo ótimo de transações entre tais enclaves sociais” (4, p. 140).


Os enclaves que compõem esse modelo multidimensional são a anomia e o motim (ausência de normas em indivíduos e em coletividades, respectivamente), a economia, a isonomia, a fenonomia e o isolado. A economia é definida como “um contexto organizacional altamente ordenado, estabelecido para a produção de bens e/ou para a prestação de serviços”, no qual a sobrevivência depende da eficiência avaliada em termos de lucro, os membros são detentores de emprego avaliados por suas qualificações profissionais, e a informação circula de forma assimétrica (4, p. 147-148). A isonomia, por sua vez, é “um contexto em que todos os membros são iguais”, uma associação em que “não há diferenciação entre a liderança ou a gerência e os subordinados”, a autoridade passa continuamente de pessoa para pessoa conforme a natureza dos assuntos, e as pessoas “não ganham a vida numa isonomia; antes, participam de um tipo generoso de relacionamento social, no qual dão e recebem” (4, p. 150-151). Já a fenonomia é “um sistema social, de caráter esporádico ou mais ou menos estável, iniciado e dirigido por um indivíduo, ou por um pequeno grupo, e que permite a seus membros o máximo de opção pessoal e um mínimo de subordinação a prescrições operacionais formais”, constituindo-se “como um ambiente necessário às pessoas para a liberação de sua criatividade, sob formas e segundo maneiras escolhidas com plena autonomia” (4, p. 151).


É fundamental sublinhar, como o próprio Guerreiro Ramos insiste, que essas categorias “devem ser consideradas como elaborações heurísticas, no sentido weberiano. Não se espera de nenhuma situação existente na vida social que coincida com esses tipos ideais. No mundo concreto, só existem sistemas sociais mistos” (4, p. 140). O horizonte político desse modelo é a construção de uma sociedade multicêntrica: Guerreiro Ramos propõe um modelo em que “o mercado é considerado um enclave social legítimo e necessário, mas limitado e regulado” (4, p. 140), pois “o mercado constitui um enclave dentro de uma realidade social multicêntrica, onde há descontinuidades de diversos tipos, múltiplos critérios substantivos de vida pessoal e uma variedade de padrões de relações interpessoais” (4, p. 140-141).


Razão instrumental e razão substantiva


A distinção entre racionalidade instrumental e racionalidade substantiva, que Guerreiro Ramos retoma de Weber e desenvolve como eixo central de sua obra, é a chave que converte essa arquitetura conceitual em crítica social concreta. Ao criticar a “síndrome comportamentalista” da teoria organizacional corrente, Guerreiro Ramos dedica uma seção inteira (6.7) à “conceptualização de uma abordagem substantiva da organização”, sustentando que “a conduta individual, no contexto das organizações econômicas, está, fatalmente, subordinada a compulsões operacionais, formais e impostas. Assim sendo, o comportamento administrativo é intrinsecamente vexatório e incompatível com o pleno desenvolvimento das potencialidades humanas” (4, p. 133). Por isso, conclui, a delimitação organizacional está “primordialmente interessada na delimitação das fronteiras específicas da organização econômica”, de modo que a organização econômica seja tratada como “um enclave conceptual e pragmaticamente limitado, dentro do espaço vital humano”, e não como medida universal de toda vida associada (4, p. 133-134).


Situo essa distinção num quadro mais amplo, aproximando-a da crítica de Capra ao mecanicismo científico: “Ramos identifica nele a instituição da razão instrumental e Capra, o mecanicismo. Há uma nítida familiaridade entre eles, uma vez que a razão instrumental desequilibra a mente humana no sentido da valorização unilateral do que é útil exclusivamente ao indivíduo” (6). Contestam, ambos, os fundamentos da ciência contemporânea, “propondo e construindo um novo paradigma, chamado de paraeconômico por Ramos e de sistêmico por Capra”, os dois com referência comum na teoria geral dos sistemas de Bertalanffy (6).


É aqui que a crítica ao modelo OCB encontra seu fundamento teórico mais preciso. O sistema OCB, ao subordinar as cooperativas à lógica da empresa, “prioriza o crescimento da empresa ao invés de promover o desenvolvimento dos associados”, “planeja de cima para baixo”, “induz à baixa participação” (1), é a expressão institucional quase perfeita do enclave da economia tal como Guerreiro Ramos o descreve: um contexto em que “a informação circula de maneira irregular entre os seus membros, bem como entre a própria economia, como entidade, e o público” e no qual a maximização da utilidade organiza toda a vida associativa (4, p. 147). O cooperativismo solidário, Cresol, Unicafes, Concrab, Unisol, Unicatadores e sua confederação, a Unicopas, pode ser lido, à luz dessa distinção, como um esforço coletivo e histórico de recuperar, dentro da forma jurídica cooperativa, espaços de racionalidade substantiva que o modelo empresarial da OCB tende a suprimir. Não por acaso, pesquisas sobre a Concrab descrevem seu projeto como a busca de “um cooperativismo alternativo ao modelo econômico capitalista”, distinto do cooperativismo tradicional que “adapta-se à lógica excludente do capitalismo” (1).


Tempo, espaço e outros requisitos


Guerreiro Ramos não trata os enclaves apenas como categorias abstratas de racionalidade: no capítulo 8 formula a “lei dos requisitos adequados”, segundo a qual “a variedade de sistemas sociais é qualificação essencial de qualquer sociedade sensível às necessidades básicas de atualização de seus membros”, e “cada um desses sistemas sociais determina seus próprios requisitos de planejamento” (4, p. 155-156). Ele ilustra essa lei examinando cinco dimensões que precisam ser consideradas de forma conjunta e sistêmica: tecnologia, tamanho, espaço, cognição e tempo (4, p. 155-156).


Sobre tecnologia, Guerreiro Ramos observa que “não existe sistema social sem uma tecnologia, seja ele, por exemplo, uma igreja, uma prisão, uma família, uma vizinhança, uma escola ou uma fábrica”, cabendo ao planejador verificar se a tecnologia usada “propicia ou dificulta a consecução de sua meta” (4, p. 156-157). Sobre tamanho, rejeita a premissa de que “quanto maior, melhor”: “as isonomias, tipicamente, são cenários sociais de proporções moderadas, com rígida intolerância para desvios de tamanho além de determinado limite”, e “as fenonomias são o menor tipo concebível de cenário social”, podendo mesmo “se compor de uma só pessoa, como é o caso do ateliê do pintor ou escultor”, embora seja “duvidoso que uma fenonomia tenda a manter sua capacidade de sobrevivência, quando o número de seus membros excede a cinco” (4, p. 158-159). Sobre cognição, distingue o sistema cognitivo funcional, que “predomina nas economias”, o político, “nas isonomias”, e o personalístico, “nas fenonomias”, associando a essa tipologia ainda um “sistema cognitivo deformado”, “bem característico dos indivíduos e/ou grupos anômicos” (4, p. 158-159).


Tempo e espaço recebem o tratamento mais elaborado, e é aqui que a teoria se torna especialmente fecunda para pensar o cooperativismo solidário. Guerreiro Ramos propõe uma tipologia temporal composta de “tempo serial, linear ou sequencial; tempo convivial; tempo de salto — leap time — tempo errante” (4, p. 167). As economias são cenários em que prevalece o tempo serial: “a sociedade centrada no mercado tende a serializar o tempo de seus membros”, desenvolvendo neles “uma dirigida incapacidade para se engajarem em esforços que requeiram outros tipos de orientação temporal” (4, p. 167). A isonomia, ao contrário, “é sítio para o exercício da convivência”, e seu principal requisito temporal é uma experiência em que aquilo que o indivíduo “ganha em seus relacionamentos com as outras pessoas não é medido quantitativamente, mas representa uma gratificação profunda por se ver liberado de pressões que lhe impedem a atualização pessoal”: “o tempo convivial é catártico e nele a experiência individual encoraja-o a interagir com os outros sem fachadas” (4, p. 167-168) — um tempo recorrente e comunitário, que se renova a cada encontro sem se esgotar num percurso unidirecional, e que por isso pode ser lido como um tempo de tipo cíclico. Já nas fenonomias predomina o tempo de salto, “um tipo muito pessoal de experiência temporal, cuja qualidade e ritmo refletem a intensidade do anseio do indivíduo pela criatividade e o autoesclarecimento” (4, p. 168). Guerreiro Ramos é explícito ao equipará-lo ao kairós grego: “o tempo de salto não se enquadra no domínio do Chronos… emerge o tempo de salto, para tornar-se parte do terreno do Kairos, palavra grega que antes designa um tempo não quantificável e que é constitutivo das percepções humanas do processo que conduz a eventos críticos” (4, p. 168).


De modo simétrico, o espaço também se diferencia por enclave. Guerreiro Ramos retoma de Edward Hall a distinção que H. Osmond estabeleceu “entre espaços socioafastadores (sociofugal) e socioaproximadores (sociopetal)…, isto é, aqueles que mantêm as pessoas separadas e aqueles que facilitam e encorajam a convivalidade” (4, p. 163), e conclui: “espaços socioaproximadores, de preferência aos socioafastadores, deveriam prevalecer nas isonomias e fenonomias… em razão da natureza de suas atividades, as economias são sistemas em que os espaços socioafastadores devem prevalecer, embora com alcance limitado espaços socioaproximadores sejam também funcionalmente necessários em tais cenários” (4, p. 164-165). Tempo e espaço, adverte Guerreiro Ramos, não devem ser pensados como dimensões separadas: “espaço e tempo estão mutuamente envolvidos. A orientação temporal dos membros de um sistema social tem correlativos espaciais intrínsecos” (4, p. 165) — e ambos se entrelaçam, por sua vez, aos requisitos de tamanho, tecnologia e cognição, compondo um conjunto de variáveis que precisam ser pensadas sistemicamente, e não isoladamente, para delimitar corretamente cada enclave.


Isonomia e fenonomia no cooperativismo


Aplicado ao universo já mapeado neste blog, esse esquema conceitual ilumina diferenças internas que a simples oposição entre OCB e cooperativismo solidário tende a ocultar. A literatura que examina a economia social e solidária a partir de Guerreiro Ramos observa que seus empreendimentos, artesãos, grupos circenses, mercearias sociais, cooperativas populares, associações de bairro, constituem tipicamente espaços híbridos de isonomia e fenonomia, combinando traços comunitários e horizontais com espaços de criatividade e autonomia individual (7).

Pode-se arriscar, como hipótese de trabalho, uma leitura diferenciada dos quatro pilares que hoje compõem a Unicopas. A Cresol e a rede de crédito solidário (Ancosol/Confederação Cresol) operam num enclave de isonomia com forte componente organizacional, apoiado em relações de confiança e proximidade territorial, precisamente o tipo de espaço socioaproximador e de tamanho moderado que Guerreiro Ramos associa à eficácia isonômica, e que sustenta o crédito de aval solidário, tão distante da lógica bancária convencional. A Concrab, enraizada no Sistema Cooperativista dos Assentados do MST, combina isonomia (as centrais estaduais e a deliberação coletiva nos assentamentos) com traços de fenonomia experimental, na medida em que a cooperação agrícola nos assentamentos foi, em suas fases iniciais, atividade automotivada e criativa antes de institucionalizar-se em cooperativas formais (8). A Unisol Brasil, nascida da conversão de fábricas falidas em empresas autogestionárias pelos próprios trabalhadores, é talvez o caso mais nítido de trajetória fenonômica que se consolida institucionalmente em formas isonômicas: pessoas que, diante do colapso da relação de emprego, romperam com o comportamento administrativo prescrito pela condição de assalariado e recriaram, por iniciativa própria e num tempo de salto coletivo, um espaço de trabalho autônomo e cooperado. E a Unicatadores, organizando um trabalho historicamente informal e estigmatizado em bases autogeridas, revela como um enclave de sobrevivência à margem do mercado, próximo, em certos aspectos, ao que Guerreiro Ramos chamaria de anomia, pode ser deslocado, pela ação cooperativa, para um enclave isonômico de reconhecimento e dignidade.


A própria Unicopas, ao reunir essas quatro trajetórias distintas sem fundi-las numa organização única e homogênea, preservando Unicafes, Concrab, Unisol e Unicatadores como centrais autônomas dentro de uma confederação comum, oferece um exemplo institucional relativamente raro do que Guerreiro Ramos chamaria de arranjo multicêntrico em miniatura: enclaves diversos, com lógicas e histórias próprias, articulados por uma instância comum de representação política, sem que nenhum deles seja reduzido ao outro.


Complexidade: Morin encontra Guerreiro Ramos


Essa recusa da redução de um enclave a outro é exatamente o ponto em que a teoria de Guerreiro Ramos se conecta, de modo mais do que metafórico, à epistemologia da complexidade de Edgar Morin. Situo essa convergência num referencial teórico-epistemológico que qualifico como “simultaneamente crítico, sistêmico e complexo”, herdeiro da crítica de Morin à história dominante da ciência ocidental, o que Morin denomina de Grande Paradigma do Ocidente ou disjuntor-redutor: uma articulação, desde o século XVII, entre princípios de disjunção e de redução que resultou na divisão disciplinar do trabalho científico e em polaridades como “alma X corpo, espírito X matéria, qualidade X quantidade, finalidade X causalidade, sentimento X razão, liberdade X determinismo, existência X essência” (13, p. 194 apud 3). Contra essa disjunção, emerge o que Morin chama de pensamento complexo, “sua abertura crítica, sistêmica e complexa na articulação-e-distinção do que foi separado e tensionado”, exigindo diálogo entre ciências naturais e antropossociais, filosofia, humanidades, artes e senso comum (3).


Não é coincidência biográfica sem consequência teórica: “Guerreiro Ramos e Edgar Morin eram amigos” desde os anos 1950, “e compartilhavam muitas ideias”, sendo “defensores da ciência” e, ao mesmo tempo, “críticos de suas ambivalências, do fechamento disciplinar e favoráveis à articulação dialógica, inter e transdisciplinar entre ciências, filosofia e senso comum” (14, p. 47 apud 3). Num quadro comparativo entre os paradigmas positivista, fenomenológico e da complexidade, caracterizo este último pela prioridade de “focalizar fatos e significados, mostrar as ambiguidades e paradoxos”, “associar sem fundir, distinguir sem separar a parte e o seu contexto”, e “observar princípios sistêmicos ou organizacionais, dialógicos, recursivos, retroativos, autoeco-organizacionais, hologramáticos” (3) — é precisamente esse movimento de associar sem fundir, distinguir sem separar, que o paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos busca realizar ao delimitar os enclaves da economia, da isonomia e da fenonomia sem jamais permitir que um anule os outros.


Um estudo dedicado especificamente a esse encontro conceitual reforça a leitura: “é com o modelo paraeconômico que o pensamento de Ramos se insere decididamente no paradigma da complexidade, no estudo das organizações”, descrevendo-o como “um sistema multipolar, com partes diferenciadas e com lógicas próprias” (9). Essa conexão teórica já foi aplicada empiricamente a uma das cooperativas que compõem justamente o universo aqui examinado: uma pesquisa sobre a Cresol Tombos recorreu ao pensamento complexo de Morin e à teoria dos sistemas autopoiéticos de Humberto Maturana para analisar a cooperativa de crédito como um “sistema social autopoiético de terceira ordem”, capaz de se autoproduzir continuamente através da interação recorrente entre seus membros e seu meio (10). O estudo mostra que mudanças estruturais, como a incorporação de outro sistema cooperativo, padronizações e exigências regulatórias externas, podem, se mal geridas, “contribuir para o obscurecimento da criatividade e diversidade características deste tipo de cooperativa, levando à diminuição ou eliminação de sua capacidade autopoiética” (10). Em termos de Guerreiro Ramos: o risco é que a pressão homogeneizadora do enclave econômico e de sua racionalidade instrumental marginalize os traços isonômicos que sustentam a identidade substantiva da cooperativa.


Hipótese heurística: paraeconomia e complexidade


Chegamos, assim, ao ponto sugerido como hipótese de trabalho: o paradigma paraeconômico de Guerreiro Ramos e o paradigma da complexidade de Edgar Morin podem funcionar, conjuntamente, como apoio heurístico para pensar o universo da economia solidária e do cooperativismo alternativo brasileiro no seu enfrentamento com o sistema hegemônico da OCB.


Essa hipótese ganha plausibilidade em pelo menos quatro frentes. Primeiro, porque ambos os paradigmas recusam a explicação unidimensional e a generalização mecânica, exigindo que cada organização seja compreendida em sua totalidade histórica e concreta — o mesmo cuidado metodológico que orienta a leitura complexa de Morin, atenta à multidimensionalidade dos fenômenos (10). Segundo, porque ambos exigem uma instância de governo ou pilotagem capaz de lidar com a diversidade sem eliminá-la: assim como a sociedade multicêntrica de Guerreiro Ramos requer um sistema de governo social capaz de formular políticas distributivas entre enclaves (4, p. 140), a arquitetura política que a Unicopas tenta construir, reunindo Unicafes, Concrab, Unisol e Unicatadores sob uma mesma bandeira sem apagar suas identidades, pode ser lida como um experimento concreto de pilotagem complexa de um sistema multipolar. Terceiro, porque ambos os paradigmas oferecem, mais do que uma crítica, um vocabulário positivo para nomear o que o cooperativismo solidário já pratica: tempo convivial e tempo de salto em vez de tempo serial, espaço socioaproximador em vez de espaço socioafastador, racionalidade substantiva em vez de racionalidade unilateralmente instrumental, sistema vivo autopoiético em vez de estrutura burocrática fechada. Quarto, e talvez mais decisivo: Edgar Morin oferece, em “A Via — Para o Futuro da Humanidade”, um conceito capaz de nomear o próprio movimento histórico do cooperativismo solidário diante da hegemonia da OCB, o de metamorfose. Para Morin, “quando um sistema é incapaz de tratar seus problemas vitais, ou ele se degrada, se desintegra, ou se revela capaz de suscitar um metassistema apto a tratar de seus problemas: ele se metamorfoseia”; “o provável é a desintegração. O improvável, mas possível, é a metamorfose” (11, p. 37). A metamorfose, insiste Morin, não é simples evolução gradual: como na passagem da lagarta à borboleta, “quando a crisálida se rompe formou-se uma borboleta que, embora permaneça o mesmo ser, tornou-se outro. A identidade é mantida e transformada na alteridade” (11, p. 38). Se aplicarmos essa imagem ao problema que abre este texto, o cooperativismo solidário brasileiro pode ser lido não como uma dissidência marginal do sistema OCB, mas como uma tentativa, ainda incompleta e contestada, de metamorfose do próprio cooperativismo: um esforço para que a forma jurídica cooperativa deixe de ser apenas um instrumento da economia e se torne também, ao mesmo tempo, sítio de isonomia e de fenonomia. (Um sinal dos tempos, nesse sentido, foi a aprovação da  lei nº 15.068/2024, conhecida como Lei Paul Singer, que estabelece a Política Nacional de Economia Solidária e cria o Sistema Nacional de Economia Solidária no Brasil).

 

Isso não significa, é preciso ressalvar, que a economia, como enclave, na terminologia de Guerreiro Ramos, deva estatizada (como na ex-URSS) ou demonizada: como já vimos, o próprio Guerreiro Ramos concebe o mercado como “um enclave social legítimo e necessário, mas limitado e regulado” (4, p. 140), e é explícito ao afirmar que “o objetivo do paradigma paraeconômico não é a supressão do mecanismo de mercado, mas a preservação somente das capacidades sem precedentes que o mesmo criou” (4, p. 155; ver também 12). A questão não é eliminar a economia, mas delimitá-la, impedir que sua racionalidade instrumental se expanda até colonizar integralmente a vida associativa, como tende a ocorrer quando um único sistema de representação cooperativa se apresenta como medida universal do que uma cooperativa deve ser. Nesse sentido, o cooperativismo solidário brasileiro, em suas múltiplas frentes, do crédito rural à reforma agrária, da reciclagem à recuperação de fábricas, pode ser compreendido como um movimento prático e ainda inacabado de delimitação do mercado: um esforço coletivo, historicamente situado, para reconquistar espaços isonômicos e fenonômicos onde a racionalidade substantiva, o tempo convivial e do salto, e o espaço socioaproximador possam coexistir com a economia, sem serem por ela absorvidos.


Conclusões


A hipótese aqui esboçada, de que o paradigma paraeconômico e o paradigma da complexidade oferecem apoio heurístico complementar para interpretar o cooperativismo alternativo e solidário brasileiro, não pretende esgotar a discussão; antes, abre um programa de pesquisa. Caberia, por exemplo, investigar empiricamente em que medida cada uma das organizações aqui revisitadas, Cresol, Unicafes, Concrab, Unisol, Unicatadores e Unicopas, de fato preserva traços isonômicos e fenonômicos ao longo do tempo, ou em que medida sua institucionalização crescente, sua profissionalização e sua interlocução com o Estado tendem a empurrá-las de volta para o enclave da economia e sua racionalidade instrumental, o mesmo risco de erosão da capacidade autopoiética já identificado no caso da Cresol Tombos (10).


É uma tensão que, longe de invalidar o modelo teórico, confirma sua atualidade. Como lembra Guerreiro Ramos, os enclaves não existem “em partes segregadas do espaço físico”: economias, isonomias e fenonomias “podem ser encontradas em vizinhança física” (4, p. 146). Delimitar o mercado não é, portanto, um ato definitivo, mas um trabalho permanente de sustentação de fronteiras entre sistemas sociais que, na sociedade multicêntrica de Guerreiro Ramos e no pensamento complexo de Edgar Morin, precisam coexistir, articulados e distintos, sem que nenhum se torne o centro absoluto da vida associada humana.


Referências


(1)   MARCONI, Ivan César; SANTOS, Luis Miguel Luzio dos. Cooperativism in MST: the case of COPRAN. Interações, Campo Grande, v. 17, n. 2, p. 173-183, abr./jun. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/inter/a/YGr93hmrbY8Cp9V8jGTNGZP/?lang=pt&format=pdf.

(2)   SILVA, Monika Weronika Dowbor da. Possibilidades e limites do cooperativismo pelo prisma de entidades de representação das cooperativas: uma análise comparativa entre a OCESP e a UNISOL/Brasil. Dissertação (Mestrado) — Universidade de São Paulo, 2006. Disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-25102006-184433/publico/MDowbor.pdf.

(3)   BOEIRA, Sérgio Luís. Atualidade da obra de Guerreiro Ramos: as novas gerações de guerreiristas. Curitiba: Appris, 2023.


(4)   RAMOS, Alberto Guerreiro. A Nova Ciência das Organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1989.

(5)   CAPPELLARI, Marta Botti; DREI, Géssica Taís Cataneo. Direito & Cooperativismo: discutindo a realidade brasileira. Redes: Revista do Desenvolvimento Regional, 2020. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/5520/552068861015/552068861015.pdf.

(6)   BOEIRA, Sérgio Luís. Ecologia política: Guerreiro Ramos e Fritjof Capra. Ambiente & Sociedade, Ano V, n. 10, 2002. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/317/31713416006.pdf.

(7)   SIMON, Vanêssa Pereira; BOEIRA, Sérgio Luís. Fenonomia, isonomia, economia social e solidária: convergências no processo de empoderamento feminino? Revista de Ciências da Administração, v. 22, n. 56, p. 109-124, abr. 2020. Disponível em: https://dialnet.unirioja.es/descarga/articulo/8086587.pdf.

(8)   SILVA, Tânia Paula da. Fundamentos teóricos do cooperativismo agrícola e o MST. Terra Livre, São Paulo, ano 18, n. 19, p. 229-242, jul./dez. 2002. Disponível em: https://publicacoes.agb.org.br/terralivre/article/download/169/155.

(9)   PARREIRA, Artur. Guerreiro Ramos: um caminhante do paradigma da complexidade. Revista REASU. Disponível em: https://revistas.icesp.br/index.php/REASU/article/download/394/271.

(10)     MARTINS, Márcia Eliana. Sujeitos rurais e organizações do cooperativismo de crédito rural solidário: (des)caminhos, (im)possibilidades e (re)invenções. Tese — Universidade Federal de Viçosa, 2016. Disponível em: https://extensao-rural.ufv.br/wp-content/uploads/2017/03/Marcia-Eliana-Martins.pdf.

(11)    MORIN, Edgar. A Via — Para o Futuro da Humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013.

(12)    SERVA, Maurício; DIAS, Taísa; ALPERSTEDT, Graziela Dias. O paradigma da complexidade e a teoria das organizações: uma reflexão epistemológica. ANPAD. Disponível em: https://arquivo.anpad.org.br/diversos/down_zips/45/EPQ2040.pdf.

(13)    MORIN, Edgar. Método IV: as ideias, sua natureza, vida, habitat e organização. Portugal: Publicações Europa-América, 1991. Citado em: BOEIRA, Sérgio Luís. Atualidade da obra de Guerreiro Ramos (referência 3), p. 3.

(14)    MORIN, Edgar. Diário da Califórnia. São Paulo: Edições SESC, 2012. Citado em: BOEIRA, Sérgio Luís. Atualidade da obra de Guerreiro Ramos (referência 3), p. 4.


P.S.: Usei IA Perplexity e ONE na busca de informações e na elaboração da ilustração para o texto, que foi concebido, editado e revisado por mim.

 
 
 

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