Os Valores Ecologistas
- Sérgio Luís Boeira
- 19 de jul.
- 6 min de leitura
Associação Mel – Movimento Ecológico Livre
Uma alternativa ecológica em Flor Pela vida, através da invenção democrática
O documento a seguir foi elaborado, discutido e aprovado pelo Movimento Ecológico Livre (MEL), em Florianópolis, em 1985 e, maio de 1986, em Belo Horizonte, durante o 1º Encontro Nacional de Entidades Ambientalistas Autônomas, foi aprovado como referência para todo o movimento ecológico brasileiro.

1 - Relação equilibrada entre homem-mulher e a natureza
As sociedades contemporâneas baseiam-se numa relação predatória de conquista e manipulação com a natureza. Os ecologistas pretendem uma relação equilibrada, harmoniosa e integrada com a natureza, reconhecendo que nossa vida como espécie depende do respeito profundo pela natureza. Sentimo-nos parte da natureza e não acima dela, como é o sentimento inspirado pelas sociedades industriais centralizadas (capitalista ou socialista).
2 - Relações igualitárias no interior da sociedade humana
Nós, ecologistas, somos contrários à exploração do homem pelo homem. O capitalismo está regido pela lógica do lucro, colocando a grande maioria da população a serviço do processo de valorização do capital. Estamos a favor de uma sociedade regida pelo princípio da satisfação das necessidades materiais (básicas) e espirituais: a economia a serviço dos seres humanos e não os seres humanos a serviço da economia. Somos a favor de uma distribuição igualitária da riqueza material, respeitando a diversidade e singularidade das pessoas e grupos.
3 - Democracia radical
Somos a favor de uma distribuição igualitária e diversificada do poder político através dos mecanismos de democracia participativa. Questionando as instituições do autoritarismo vamos além da institucionalidade da democracia liberal, pautada pelo princípio da representação. Achamos que é necessário complementar e aprofundar os mecanismos da democracia representativa (princípio de representação do cidadão pelo seu representante no executivo, parlamento, etc), utilizando mecanismos da democracia direta (assembléias de bairros, distritais e por lugar de trabalho; referendum por iniciativa popular; movimentos sociais autônomos em relação aos partidos políticos).
4 - Ecodesenvolvimento
Questionamos o desenvolvimento materialista, crescimento ilimitado da produção material baseado na depredação sistemática da natureza e na criação permanente de novas necessidades de consumo material (consumismo). Este desenvolvimento materialista tem seu eixo na grande cidade em que se centralizam de modo perigoso os sistemas produtivos, aglomera-se inumanamente a população e concentra-se o poder político-administrativo. Os ecologistas latino-americanos são favoráveis a um processo de desenvolvimento que respeite a natureza através da utilização de tecnologias doces de baixo impacto ambiental, evitando-se os grandes empreendimentos, descentralizando-se o processo civilizatório. A unidade de vida dos ecologistas é a microrregião, constituída por uma ou mais cidades de pequeno porte que conseguem auto-suficiência alimentar, utilizando as áreas rurais adjacentes e fontes locais de energia não poluidoras.
O ecodesenvolvimento implica agricultura ecológica, indústrias descentralizadas e de baixo impacto ambiental, e serviços cooperativos baseados na ajuda mútua, evitando a burocratização. No modelo de ecodesenvolvimento existem 3 tipos de propriedade dos meios de produção: a pequena propriedade privada, a propriedade cooperativa e a propriedade estatal. O modelo de ecodesenvolvimento rejeita a grande propriedade privada, cooperativa ou estatal, na medida em que elas são fontes de exploração econômica e concentração de poder político-administrativo. Somos favoráveis à criação de uma economia verde informal, como mecanismo de um processo de transição que aponte a instauração de uma sociedade do ecodesenvolvimento. Essa economia verde baseia-se nos seguintes princípios: produção para o auto-abastecimento, produção para troca, produção para o mercado local, cooperativismo que implique uma participação direta dos clientes (nova relação comprador-vendedor).
5 - Não-violência ativa
Somos radicalmente contrários à utilização da violência desde a escala mais microssocial (relação homem-mulher, pai-filho) até a escala planetária (guerra entre países). Somos favoráveis à utilização da metodologia Gandhiana da não-violência ativa: desobediência civil, greve pacífica, boicote, desarmamento psicológico do repressor. Somos favoráveis a políticas de defesa defensiva ao nível dos países: substituição da defesa militar violenta pela defesa civil não-violenta. O militarismo é o principal problema do mundo contemporâneo: acumulação de armas atômicas capazes de destruir 100 vezes a vida, alocação de fabulosos recursos em indústrias bélicas, criação de uma psicologia social paranóica que incentiva os gastos militares, subordinação da pesquisa científica e tecnológica às necessidades militares. Caso houvesse uma redução drástica dos gastos militares do mundo, poderiam ser resolvidos, em um ano, os gravíssimos problemas de fome, saúde, analfabetismo e moradia dos 2/3 da humanidade que vivem na pobreza absoluta.
6 - Contra o machismo
Somos radicalmente contra o machismo, contra todas as formas de dominação das mulheres pelos homens. A sociedade patriarcal é produtora e reprodutora da personalidade autoritária. A passagem da personalidade autoritária para a personalidade democrática, fundamental para a construção de uma democracia participativa, requer um combate sistemático ao patriarcalismo. Assumimos como próprias todas as lutas dos movimentos feministas. Somos favoráveis ao desenvolvimento do feminino interior que está presente e reprimido nos homens e do masculino interior que está presente e reprimido nas mulheres, na direção da construção de uma cultura andrógina, ainda que mantendo a diferenciação sexual. Contudo, somos favoráveis à livre expressão das minorias homossexuais feminina e masculina.
7 - Descentralização e autogestão
Somos favoráveis à descentralização dos lugares de moradia e de produção, criando novo espaço público de comunicação normativa que substitua o atual espaço público verticalizado e homogeneizante da cultura de massas. A praça pública do bairro, do distrito ou da cidade são espaços nos quais as pessoas poderiam discutir e decidir em comum seus destinos, fugindo da troca de favores, do clientelismo das lideranças carismáticas autoritárias (ainda que reconheçamos o valor favorável do carisma democrático). Somos a favor da autogestão em todos os lugares de trabalho (fábricas, escolas, hospitais, etc): a participação de todos deve fazer-se respeitando (não mistificando) o princípio da competência técnica. Os ecologistas são contrários a um tipo de anti-autoritarismo espontâneo que despreza a competência técnica.
8 - Cotidiano alternativo e criativo
Somos contrários ao modo de vida burguês (trabalho não manual exclusivo, conforto material excessivo, privatismo e alta previsibilidade) e ao modo de vida químico circense (consumo elevado e indiscriminado de álcool, tranqüilizantes, tabaco, açúcar, drogas, alimentos tratados quimicamente, televisão, espectadorismo esportivo). Somos favoráveis a um cotidiano criativo que implique combinar o trabalho manual com o não-manual, viver em contato com a natureza, redes comunais, estilos de vida que deixe áreas de incerteza, consumo moderado de álcool, televisão, etc..., realização sistemática de exercícios físicos, caminhar, andar de bicicleta (reduzir o uso de transporte mecânico), elevar a capacidade de gozo do corpo através de uma sexualidade espiritualizada, comida sã, equilibrada, proveniente de agricultura ecológica.
9 - Flexibilidade e abertura no pensar e agir
A força do movimento ecologista está na sua confiança (não ingênua e evitando idealizações) na população, seu pluralismo e sua imaginação. O movimento ecologista acredita nas pequenas unidades e adota isto como estrutura organizacional e conceitual: estrutura-se como uma federação de movimentos locais. Deste modo a estrutura é portadora de uma mensagem. Os ecologistas não acreditam em soluções rígidas e definitivas para os diversos problemas. Temos que atacar ao mesmo tempo as causas profundas e as manifestações superficiais dos problemas, com imaginação. É possível produzir a mudança através do impacto acumulativo de pequenas mudanças em vários fatores ao mesmo tempo, e isto pode ser conseguido da melhor maneira por movimentos coordenados de forma flexível, cada um trabalhando num canto diferente da sociedade. Consideramo-nos, prioritariamente, habitantes do planeta Terra, por isso pensamos globalmente, porém o pensar global somente adquire um sentido concreto na medida em que se age localmente. Pensar globalmente, agir localmente é um princípio fundamental do ecologismo.
10 - A autonomia do movimento ecológico
Os ecologistas organizam-se em coletivos pequenos e médios, de 5 a 50 pessoas, que por sua vez constituem redes (função de comunicação rápida e troca direta de experiências e encontros periódicos) ou federações de coletivos (organização doce com sede rotativa e revezamento freqüente dos dirigentes). O coletivo ecologista reúne-se normalmente através de uma periodicidade que permite criar um espaço de comunicação normativa, uma troca rica das diversas singularidades subjetivas envolvidas. Geralmente a periodicidade da reunião do coletivo é semanal, podendo chegar a ser bissemanal no caso dos grupos mais desenvolvidos, ou quinzenal no caso de grupos mais fracos. O movimento ecológico se define como autônomo diante do Estado (município, estado e união) e qualquer um de seus aparelhos e agências; assim como também é autônomo em relação aos partidos políticos, às empresas e às associações de categorias profissionais e sindicatos. O movimento ecológico é transpartidário no sentido de que nele podem participar membros de diversos partidos, desde que honestamente (não com fins de oportunistas), compromissados com a causa ecológica. O movimento ecológico é predominantemente extraparlamentar, porém considera o parlamento como um espaço institucional apto para sua expressão. Essa entrada no parlamento (Câmaras de Vereadores em primeira instância, Assembléia Legislativa em segunda instância e Congresso Federal em terceira instância) pode ser feita através da candidatura de membros do movimento ecológico nos partidos tradicionais mais sensíveis à causa ecológica ou através da criação de partidos ecologistas. A criação de partidos ecologistas somente é frutífera quando é produto de um movimento denso, qualitativa e quantitativamente. Embora autônomo em relação ao Estado e aos partidos políticos o movimento ecológico tenta influenciá-los o máximo possível, na direção de uma ecologização da cultura política.
O movimento ecológico apóia a presença de membros de seus coletivos nas instituições estatais vinculadas à proteção do meio ambiente, sempre que essa presença não comprometa a autonomia do movimento. A autonomia, como marco fundamental da atuação do movimento ecológico, define um conjunto de atitudes e práticas que implicam equilíbrio, firmeza e flexibilidade para evitar cair seja no isolacionismo, ou no seu perigo oposto, o atrelamento aos poderes estatais e societais dominantes.
P.S. O texto acima é a transcrição do original, mantendo as normas gramaticais da época. A imagem acima é de um cartão de apresentação do MEL, restaurada por IA para eliminar as marcas do tempo.



Comentários