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Por que o ambientalismo brasileiro não cabe na sociologia de movimentos sociais?

Atualizado: 23 de jul.

Nos últimos anos, consolidou‑se na academia brasileira uma forma específica de olhar para o movimento ambientalista: como mais um “novo movimento social”, passível de ser descrito em termos de estruturas de oportunidades políticas, frames e ciclos de protesto. Essa sociologia de movimentos sociais trouxe ganho de rigor analítico, mas também um efeito colateral pouco discutido: ao deixar que o método decida o que merece ser visto, ela reduz um fenômeno complexo, transclassista e civilizatório a um recorte disciplinar estreito. Este texto argumenta que o ambientalismo brasileiro não cabe nessa moldura e que pensar em termos de ecologia política e redução sociológica é indispensável para recuperar a sua densidade histórica.



A ditadura do método


O núcleo do problema aparece quando se observa trabalhos que aplicam, de forma sistemática, o instrumental da teoria de movimentos sociais ao caso ambiental. Nessas análises, o contexto histórico – Redemocratização, Constituinte, Rio‑92 – entra como pano de fundo, como cenário sobre o qual os atores se movem. O foco não é reconstruir a história do ambientalismo, mas verificar como os episódios se enquadram em categorias prévias: há estruturas de oportunidades políticas; há frames concorrentes; há ciclos de protesto; há identidades coletivas. A realidade é mobilizada sobretudo para ilustrar a teoria.


À primeira vista, isso parece natural. A sociologia de movimentos sociais é um campo consolidado, oferece ferramentas úteis para pensar ação coletiva, mobilização, repertórios, estratégias. O problema começa quando essas ferramentas deixam de ser instrumentos e passam a funcionar como moldes. Em vez de a teoria se deixar afetar pela experiência concreta, é a experiência que deve caber na teoria. Aquilo que excede o recorte disciplinar é deslocado para a categoria de “contexto”, o pano de fundo sobre o qual pouco se pensa. É nesse sentido que se pode falar em uma espécie de ditadura do método: o enquadramento teórico, mais do que a realidade, manda no jogo.


Sociologia enlatada e redução sociológica


No caso do ambientalismo brasileiro, essa ditadura é particularmente danosa porque estamos diante de um fenômeno que, por natureza, escapa às fronteiras disciplinares. Ele não é apenas ação coletiva organizada. Não é apenas advocacy. Não é apenas política pública. É um campo em que se cruzam, de forma intensa, questões de natureza, território, saúde, saneamento, trabalho, moradia, cultura, conhecimento, tecnologia e democracia. Quando se recorta uma fatia desse campo – associações, campanhas, coalizões – e se chama essa fatia de “movimento ambientalista” para fins de aplicação do método, o que se faz é reduzir o fenômeno a uma dimensão particular, aquela que é mais facilmente capturada pela sociologia de movimentos sociais.


Guerreiro Ramos teria dito que, nesse caso, não é a realidade que precisa ser reduzida, mas a própria sociologia. Foi isso que ele chamou de sociologia enlatada: o uso mecânico de categorias formuladas em outras realidades como se fossem universais, sem uma reflexão séria sobre o que a experiência brasileira exige em termos conceituais. A “redução sociológica” que ele propunha não era um convite ao provincianismo; era um exercício de descolonização do pensamento. Em vez de transplantar teorias prontas, tratava‑se de submetê‑las à prova de uma realidade historicamente situada, adaptando‑as, transformando‑as ou abandonando‑as quando se mostrassem inadequadas.

No plano dos movimentos sociais, isso significa reconhecer que os modelos fabricados em sociedades centrais, com sua ideia de movimentos “puros”, classistas ou identitários bem recortados, simplesmente não dão conta da impureza, da heterogeneidade e do transclassismo que marcam os movimentos em sociedades colonizadas.


O ambientalismo além do “movimento social” e do “grupo de pressão”


Quando se passa do plano geral para o ambientalismo, a insuficiência das categorias usuais se torna ainda mais evidente. Na Europa, falar em “movimento verde” ou "movimento social ambientalista" faz sentido dentro de uma história específica: partidos verdes, campanhas antinucleares, conflitos preservacionistas em sociedades de alto nível de urbanização e bem‑estar. Nos Estados Unidos, chamar o ambientalismo de grupo de pressão (advocacy) tem alguma lógica em um sistema político pluralista, em que múltiplos grupos de interesse disputam influência sobre agências e leis, sem questionar o sistema produtivo ou o sentido civilizatório (estilo de vida) que lhes servem de apoio. Mas ambas as categorias – “movimento verde/social” e “grupo de pressão” – são estreitas demais quando transplantadas para o Brasil. Elas carregam pressupostos que simplesmente não se verificam aqui.


No Brasil, a questão ambiental não se separa de saneamento básico, de esgoto a céu aberto, de rios mortos, de lixões improvisados, de exploração cruel de catadores e catadoras. Não se separa da precariedade da moradia, da poluição industrial, do transporte, da mortalidade infantil, do adoecimento por agrotóxicos, da expulsão de populações tradicionais, da violência policial nas periferias, da devastação de florestas e cerrados. Não se separa da retórica estatal, que ao mesmo tempo exalta a “vocação verde” do país e autoriza grandes projetos devastadores. Não se separa das experiências de economia solidária, das cooperativas de reciclagem, dos bancos comunitários, dos coletivos de saúde e ambiente. Em outras palavras: aqui, o ambientalismo não é um tema especializado, mas uma zona de condensação de conflitos históricos múltiplos.


Foi essa constatação que levou Eduardo Viola a insistir em categorias como ecologismo, ecopolítica e, depois, “ambientalismo complexo‑multissetorial”. Em vez de ver apenas um movimento social recortado, ele vê um campo em que se articulam ambientalismo de Estado, ambientalismo dos cientistas, dos movimentos sociais, do empresariado, das populações rurais e pescadores, do potencial humano, das dissidências em macroestruturas, dos indivíduos que operam na fronteira entre vida cotidiana e engajamento. Esse campo atravessa classes, territórios, instituições e estilos de vida. Não é um segmento da sociedade: é uma trama que a percorre inteira. Eduardo Viola, Héctor Leis e eu mesmo concebemos esse conceito entre 1989/1990 a partir de pesquisa empírica, teórica e epistemológica. A participação e os debates no MEL (Movimento Ecológico Livre) nos serviram de inspiração.


O ambientalismo complexo-multissetorial eleva o ecologismo à condição de clivagem histórica. A oposição sociedade ecológica/sustentável versus sociedade predatória não é um tema entre tantos; é um eixo que reconfigura os demais. Enquanto a sociologia de movimentos se pergunta se há oportunidade política para a emergência de um movimento ambientalista, a ecopolítica pergunta que tipo de sociedade é possível quando os limites da biosfera entram em cena. A ecopolítica não acrescenta “meio ambiente” ao repertório de políticas públicas; recoloca desenvolvimento, democracia, justiça, tecnologia e cultura sob outra luz.


Ecologia política e espessura civilizatória


É aqui que a conversa se encontra com Edgar Morin. Ao falar em ecologia política como política de civilização, ele está dizendo que a crise ecológica é inseparável de uma crise civilizatória e que responder a essa crise implica reorganizar a política como um todo – economia, educação, saúde, justiça, cultura – à luz da consciência da nossa dependência ecossistêmica. A ecologia política, nessa perspectiva, não é uma política “setorial”, mas uma gramática de reorganização do mapa inteiro. Se isso é verdade, então reduzir o ambientalismo brasileiro a “movimento social” dentro da sociologia de movimentos, ou a “grupo de pressão” dentro da teoria pluralista, é uma forma concreta de negar o seu alcance civilizatório.


Quando o método se torna ditador, a realidade complexa precisa se curvar. A teoria de movimentos sociais, convertida em lente única, transforma o ambientalismo em coleção de estruturas de oportunidade, frames e ciclos de protesto. A sociologia enlatada, transplantada mecanicamente, domina o cenário. A proposta de uma ecologia política e social – que é, ao mesmo tempo, uma proposta de redução sociológica das nossas disciplinas – passa por recusar essa ditadura, devolver ao ambientalismo brasileiro a sua espessura histórica e civilizatória, reconhecer que ele não cabe inteiramente em nenhum dos compartimentos disciplinares existentes. O desafio deixa de ser provar que o movimento ambientalista “se encaixa” na teoria europeia e passa a ser outro: construir uma gramática própria, capaz de respeitar a complexidade concreta da experiência brasileira, sem submetê‑la à violência silenciosa de métodos que a reduzem a abstrações confortáveis para pesquisadores, mas estranhas à própria realidade que pretendem explicar.


Referências consultadas para esse artigo


ALONSO, Angela; COSTA, Valeriano; MACIEL, Débora. Identidade e estratégia na formação do movimento ambientalista brasileiro. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n. 79, p. 151‑167, nov. 2007.


BOEIRA, S. L. (2016). Ambientalismo complexo-multissetorial no Brasil: emergência e declínio na década de 1990?. Revista Ibero-Americana De Ciências Ambientais, 7(3), 170–188. https://doi.org/10.6008/SPC2179-6858.2016.003.0014


GUERREIRO RAMOS, Alberto. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. Florianópolis: Enunciado Publicações, 2022.


GUERREIRO RAMOS, Alberto. A redução sociológica: um ensaio sobre a razão sociológica. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1996.


LEIS, Héctor Ricardo. A modernidade insustentável: as críticas do ambientalismo à sociedade contemporânea. Petrópolis: Vozes; Florianópolis: UFSC, 1999.


MORIN, Edgar. A minha esquerda. Trad. Edgard de Assis Carvalho; Mariza Perassi Bosco. Porto Alegre: Sulina, 2011.


MORIN, Edgar. Sociologia. Trad. Maria Gabriela de Bragança; Maria da Conceição Coelho. Mem Martins: Publicações Europa‑América, 1998.


VIOLA, Eduardo. O movimento ambientalista no Brasil 1971–1991: da denúncia à conscientização pública para a institucionalização e o desenvolvimento sustentável. In:

GOLDENBERG, Mirian (org.). Ecologia, ciência e política. Rio de Janeiro: Revan, 1992. p. 53‑92.

VIOLA, Eduardo. O movimento ecológico no Brasil 1974–1986: do ambientalismo à ecopolítica. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 1, n. 3, p. 62‑81, 1986/1987.


VIOLA, Eduardo; BOEIRA, Sérgio Luís. A emergência do ambientalismo complexo‑multissetorial no Brasil (particularmente na microrregião de Florianópolis) nos anos 80. In: SEMINÁRIO NACIONAL SOBRE UNIVERSIDADE E MEIO AMBIENTE, 4., 1990, Florianópolis. Anais do IV Seminário Nacional sobre Universidade e Meio Ambiente, 19 a 23 de novembro de 1990. Florianópolis: Secretaria do Meio Ambiente; IBAMA/UFSC, 1990. p. 41‑99.


VIOLA, Eduardo; LEIS, Héctor Ricardo. Desordem global da biosfera e nova ordem internacional: o papel organizador do ecologismo. In: LEIS, Héctor Ricardo; VIOLA, Eduardo (orgs.). A questão ambiental: ecologia e política no Brasil. Rio de Janeiro: Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), 1990. p. 11‑52.




P.S.: Usei IA Perplexity Pro no levantamento de informações e Adapta One na elaboração da imagem que ilustra esse artigo, que foi concebido, editado e revisado por mim.


 
 
 

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